Edição 1823 . 8 de outubro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Entrevista: Carlos Slim
O czar das Américas

O homem mais rico da América Latina diz
que vai investir mais na economia brasileira
e fala de seu apego à família e devoção à arte


Chrystiane Silva

Na pior crise do México em meio século, a de 1982, em vez de recolher o trem de pouso como a maioria dos investidores, o empresário Carlos Slim, de 63 anos, usou a fortuna que acumulara até então para comprar empresas que estavam com preço baixíssimo em conseqüência da desvalorização do peso mexicano. Slim, conhecido no México como "O Engenheiro", saiu da crise dono da maior empresa mexicana de tabaco, da maior fabricante de autopeças, da mais lucrativa rede de restaurantes populares de seu país e ainda de uma grande cadeia de lojas. Em 1990, quando o governo mexicano, seguindo a onda de privatizações que varreu os países emergentes, colocou à venda a monopolista Teléfonos de México (Telmex), Slim liderou o consórcio que a arrebatou por 1,76 bilhão de dólares. Hoje a Telmex vale 20 bilhões de dólares e é a nau capitânia do império de Slim, que tem 250.000 funcionários e responde sozinho por 40% da capitalização da bolsa de ações do México. Nos últimos três anos, ele investiu no Brasil cerca de 4 bilhões de dólares em telefonia móvel, passando a controlar o Grupo Telecom Americas e, mais recentemente, a BCP. Com uma fortuna pessoal estimada em 7,4 bilhões de dólares, Slim é o homem mais rico da América Latina e um dos quarenta mais ricos do mundo. Na semana passada, antes de embarcar para o Brasil para uma visita de cinco dias, ele falou, por telefone, a VEJA.

Veja – Qual foi seu segredo para enriquecer em um continente tão pobre como a América Latina?
Slim – Não existe segredo. As oportunidades aparecem e você as aproveita. Trabalho desde os 8 anos de idade, quando meu pai me colocou para ajudá-lo na Orient Star, o pequeno empório que minha família possuía na Cidade do México. Bem, o que as pessoas devem tentar fazer é trabalhar no que gostam, procurando áreas em que sua vocação e talento façam diferença. É fundamental ser paciente. É vital manter o otimismo sempre. Nosso continente está passando por modificações profundas, alterando substancialmente as bases materiais de sua civilização desde meados do século passado. A transformação da sociedade agrícola em sociedade industrial e tecnológica produziu novas formas de comunicação, de informação e conhecimento. O sucesso estará do lado de quem souber se incorporar a essa nova civilização.

Veja – Do ponto de vista prático, isso significa aprender a falar inglês, usar computador...
Slim – Diria que é conveniente ter domínio do inglês, mas isso não é imprescindível. Tudo depende do ramo de atividade em que se atue. Se a pessoa trabalha no setor exportador, é claro que não irá muito longe falando apenas o idioma pátrio. Eu falo mal o inglês e nunca deixei de fazer nenhum bom negócio por causa disso. Claro que gostaria de ter um inglês mais fluente, um vocabulário mais rico e uma pronúncia impecável, mas agora estou muito velho para voltar a estudar idiomas.

Veja – Como homem de negócios, o senhor sempre soube tirar proveito das crises econômicas periódicas da América Latina. Mas, para as pessoas comuns, as crises são dolorosas. Por que a América Latina nunca decola e sua economia está sempre vulnerável?
Slim – Acho difícil fazer um diagnóstico unificado para toda a região. Os países da América Latina são muito diferentes entre si. Temos países um tanto similares, como Brasil e México, ao lado de outros menores e muito diferentes. Temos países que estão em estado avançado de desenvolvimento industrial ao lado de outros de economia atrasada. Em conjunto, o que somos? Somos 500 milhões de habitantes e passamos duas décadas sem crescimento econômico vigoroso, especialmente a partir da crise da dívida externa, na década de 80. Nós formamos, é fundamental ressaltar, uma região com potencial de desenvolvimento superior ao de qualquer outra do planeta.

Veja – Por que não conseguimos transformar esse potencial em altas taxas de crescimento?
Slim – Não acho que a resposta esteja na composição genética dos latino-americanos. A cultura e a religião também não podem ser consideradas fatores determinantes para o subdesenvolvimento da América Latina. A meu ver, há uma falta crônica de dinheiro para investir em infra-estrutura, habitação, educação e saneamento. O que os países da região devem fazer é aumentar a participação do setor privado em investimentos que antes eram exclusivos do Estado. Há projetos que são tocados pelos governos e que poderiam ser financiados também pelo setor privado. Os países latinos têm de aproveitar o dinheiro que vem de fora para modernizar sua infra-estrutura. Isso vai impulsionar o crescimento e gerar mais empregos.

Veja – Os governos latino-americanos são mais corruptos que os da América do Norte e Europa?
Slim – Difícil dizer. A corrupção não é boa para ninguém. Ela é um obstáculo para a democracia e o livre trânsito de informação. Com governos mais transparentes, a vida social e econômica melhora muito. É preciso reconhecer que os países latino-americanos fizeram enormes avanços na eliminação da corrupção.

Veja – O senhor tem negócios também nos Estados Unidos. Que diferenças básicas o senhor vê entre o ambiente econômico americano e o latino?
Slim – Nos Estados Unidos há mais oportunidades. As pessoas têm melhor qualidade de vida. Por outro lado, elas trabalham muito mais intensamente e, para chegar a um bom nível econômico, precisam investir em seu próprio desenvolvimento de maneira muito mais intensa do que se morassem na América Latina. A sociedade americana, no entanto, premia melhor e mais rapidamente quem trabalha. O que temos a fazer na América Latina é abrir oportunidades de progresso para quem trabalha com afinco e investe em seu próprio desenvolvimento.

Veja – Nos últimos três anos seu grupo investiu 4 bilhões de dólares no Brasil, culminando com a compra da empresa de telefonia celular BCP em agosto passado. O senhor planeja investimentos adicionais no Brasil?
Slim – Sim. Em primeiro lugar vamos investir mais nas empresas que compramos. A alta tecnologia exige investimentos permanentes quando se deseja ampliar a área de atuação e aumentar a satisfação dos clientes. Esse é um processo sem fim. As operações que temos no Brasil são de longo prazo e sabemos que a telecomunicação é o sistema nervoso da nova civilização que está sendo construída na América Latina. Não temos dúvida do grande potencial do Brasil e sabemos que o país está dando os passos necessários para garantir seu desenvolvimento sustentado no futuro próximo.

Veja – Os rumores no mercado são de que o senhor ainda planeja investir mais 400 milhões de dólares no Brasil...
Slim – Não temos uma cifra fechada em mente, mas posso assegurar que o valor é superior a esse que você menciona. É preciso sempre investir em infra-estrutura e na ampliação da área de cobertura de nossos serviços. Investimentos em comunicação são vitais porque esse é um setor com uma evolução tecnológica muito acelerada. Conquistar e manter vanguarda tecnológica exige gastos permanentes de grandes quantias de dinheiro. O avanço da tecnologia vai fazer com que o preço das tarifas caia no Brasil de forma constante. Sobre isso não há dúvida, mas essa realidade não afeta nossos planos. Nossa visão é de longo prazo. Além disso, nossa percepção é que as diretrizes do marco regulatório no Brasil serão claras e é bom o conhecimento das autoridades sobre a realidade do setor de telecomunicações.

Veja – Quais são as suas previsões sobre o futuro do Brasil?
Slim – A primeira vez que estive no Brasil foi há quarenta anos. Desde então, voltei várias vezes. Conheço bem o Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Manaus. O Brasil está em um processo de estabilização macroeconômica, com a inflação caindo, mas com a taxa real de juros ainda muito alta. Os juros começaram um processo rápido de ajuste nos últimos meses. A condução da reforma da Previdência foi muito boa. O que o governo está fazendo é necessário para que o país consiga chegar ao desenvolvimento sustentado. Além disso, o setor privado é sólido. Uma vez consolidada a estabilidade macroeconômica, as perspectivas são boas.

Veja – Depois de dez anos de entrada em vigor do Nafta, tratado de livre comércio entre México, Canadá e Estados Unidos, que balanço o senhor faz da experiência?
Slim – O tratado foi positivo para o México. Conseguimos aumentar o volume da atividade comercial com os Estados Unidos. Não apenas exportamos mais, mas exportamos melhor. Ou seja, além de matéria-prima, passamos a vender no mercado americano produtos manufaturados que são mais lucrativos para quem vende. Lamento apenas que nosso tratado com os Estados Unidos e o Canadá não tenha sido tão completo como foi o da União Européia. O tratado europeu é mais eficiente. Ele criou fundos para incentivar os financiamentos e previu que os países-membros devem fazer propostas conjuntas para aumentar as ofertas de emprego.

Veja – O senhor acha que os bons resultados obtidos pelo México com o Nafta seriam indicadores de que a Alca, o tratado de livre comércio das Américas, seria também positiva para o Brasil e outros países da região?
Slim – O México não pode ser tomado como um exemplo a ser seguido pelo Brasil. O México não deve dar conselhos ao Brasil. Sobre isso me limito a dizer que os passos que o México está dando podem ser dados por qualquer país. Os paradigmas da nova civilização, a democracia, os direitos humanos, a liberdade, a abertura comercial, a globalização, a maior atividade econômica e a pluralidade são essenciais para o funcionamento das economias e das sociedades modernas. O Brasil já está nesse caminho.

Veja – Toda pessoa que alcança o grau de sucesso que o senhor atingiu é um bom julgador do caráter das pessoas. Dizem que o senhor é especialmente bom nesse fundamento...
Slim – Realmente sempre achei muito fácil identificar quem se aproxima de mim apenas pelo dinheiro e quem é confiável. Tenho bons amigos cuja amizade já dura mais de cinqüenta anos. Tenho amigos recentes, feitos há dois ou três anos.

Veja – O senhor foi um homem pobre e construiu a maior fortuna da América Latina. De que forma o dinheiro mudou sua vida?
Slim – Acho correto dizer que o dinheiro não mudou minha vida. Vivo na mesma casa há 35 anos e dirijo meu próprio carro pelas ruas e estradas do México. Acho que a idade mudou mais minha maneira de ver as coisas do que o dinheiro. Agora estou mais velho e o que mais gosto de fazer é conviver com minha família, meus amigos e estar rodeado de pessoas interessantes, gente que pensa e cujas idéias me surpreendem. Sempre gostei de conversar, de me sentir em meio à natureza. Sempre gostei de viajar. O dinheiro não teve influência sobre essas minhas paixões. Talvez o dinheiro tenha me permitido tirar dois ou três dias livres para conhecer os lugares ao fazer uma viagem de negócios. Mas, mesmo com dinheiro, nem sempre, infelizmente, isso é possível.

Veja – O senhor é um homem que pode comprar atualmente tudo o que a vida negou ao menino pobre. O que mais o atrai na hora de comprar?
Slim – Não é isso o que me atrai na vida. Comprar algo apenas porque custa caro é um capricho tolo do qual eu consegui me manter distante. Minha empresa tem dois aviões. Às vezes viajo em um deles e, em outras, uso linhas comerciais. Tenho duas casas, ambas no México. Embora eu pudesse, nunca quis ter uma casa em cada grande capital do mundo.

Veja – Seus biógrafos são unânimes em dizer que sua mulher, Soumaya Domit, foi uma das pessoas mais influentes em sua vida. Isso é verdade?
Slim – Vivemos juntos por 33 anos e Soumaya foi uma pessoa de fundamental importância para a minha vida. A vida ao lado dela foi uma conquista preciosa para mim. Acho que todo homem que possa dizer a mesma coisa de sua esposa é um privilegiado. Ela morreu enquanto estávamos em um vôo rumo a um hospital onde íamos buscar tratamento para sua doença. Tenho seis filhos e quinze netos e quando não estou trabalhando meu tempo é gasto com eles.

Veja – Sua dedicação a investimentos na área cultural foi influência de sua mulher?
Slim – Nossos países têm uma vida cultural riquíssima e é evidente que o Estado não possui recursos suficientes para apoiar todos os projetos necessários nesse setor. Uma das obrigações do setor privado é patrocinar a cultura e o esporte. Isso ocorre nos Estados Unidos e em muitos outros países do mundo. Estamos investindo na revitalização do centro histórico da Cidade do México, que possui características arquitetônicas das mais importantes da América. Durante muitos anos o centro ficou abandonado, como ocorreu em todas as grandes cidades no mundo. Agora, estamos revitalizando a região para que mais gente freqüente o lugar, principalmente os jovens.

Veja – Seu museu particular tem alguns dos mais valiosos quadros de Monet, Degas, Van Gogh e esculturas de Auguste Rodin fora da Europa. Qual sua maior preferência em arte e de onde vem esse gosto?
Slim – Fiz o museu em homenagem a minha mulher, Soumaya, mas também o abri ao público. Não sei se sou o maior colecionador de Rodin do mundo, mas posso estar entre os principais. Não gosto muito da pintura contemporânea. Prefiro os artistas europeus e a arte mexicana, especialmente as obras que retratam as paisagens do meu país no século XIX. Meus pintores preferidos são Leonardo da Vinci e Michelangelo, mas, infelizmente, não tenho quadros desses mestres. Arte é também uma boa opção de investimento, principalmente quando se compra adequadamente. Mas também é muito gratificante investir em boas obras de arte e permitir que as pessoas as vejam.

 
 
 
 
topo voltar