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Entrevista:
Carlos
Slim
O
czar das Américas
O homem mais rico da América Latina diz
que vai investir mais na economia brasileira
e fala de seu apego à família e devoção
à arte

Chrystiane
Silva
Na pior crise do México em meio século, a de 1982,
em vez de recolher o trem de pouso como a maioria dos investidores,
o empresário Carlos Slim, de 63 anos, usou a fortuna que
acumulara até então para comprar empresas que estavam
com preço baixíssimo em conseqüência da
desvalorização do peso mexicano. Slim, conhecido no
México como "O Engenheiro", saiu da crise dono da maior empresa
mexicana de tabaco, da maior fabricante de autopeças, da
mais lucrativa rede de restaurantes populares de seu país
e ainda de uma grande cadeia de lojas. Em 1990, quando o governo
mexicano, seguindo a onda de privatizações que varreu
os países emergentes, colocou à venda a monopolista
Teléfonos de México (Telmex), Slim liderou o consórcio
que a arrebatou por 1,76 bilhão de dólares. Hoje a
Telmex vale 20 bilhões de dólares e é a nau
capitânia do império de Slim, que tem 250.000 funcionários
e responde sozinho por 40% da capitalização da bolsa
de ações do México. Nos últimos três
anos, ele investiu no Brasil cerca de 4 bilhões de dólares
em telefonia móvel, passando a controlar o Grupo Telecom
Americas e, mais recentemente, a BCP. Com uma fortuna pessoal estimada
em 7,4 bilhões de dólares, Slim é o homem mais
rico da América Latina e um dos quarenta mais ricos do mundo.
Na semana passada, antes de embarcar para o Brasil para uma visita
de cinco dias, ele falou, por telefone, a VEJA.
Veja Qual foi seu segredo para enriquecer em um continente
tão pobre como a América Latina?
Slim
Não existe segredo. As oportunidades aparecem e você
as aproveita. Trabalho desde os 8 anos de idade, quando meu pai
me colocou para ajudá-lo na Orient Star, o pequeno empório
que minha família possuía na Cidade do México.
Bem, o que as pessoas devem tentar fazer é trabalhar no que
gostam, procurando áreas em que sua vocação
e talento façam diferença. É fundamental ser
paciente. É vital manter o otimismo sempre. Nosso continente
está passando por modificações profundas, alterando
substancialmente as bases materiais de sua civilização
desde meados do século passado. A transformação
da sociedade agrícola em sociedade industrial e tecnológica
produziu novas formas de comunicação, de informação
e conhecimento. O sucesso estará do lado de quem souber se
incorporar a essa nova civilização.
Veja Do ponto de vista prático, isso significa
aprender a falar inglês, usar computador...
Slim Diria
que é conveniente ter domínio do inglês, mas
isso não é imprescindível. Tudo depende do
ramo de atividade em que se atue. Se a pessoa trabalha no setor
exportador, é claro que não irá muito longe
falando apenas o idioma pátrio. Eu falo mal o inglês
e nunca deixei de fazer nenhum bom negócio por causa disso.
Claro que gostaria de ter um inglês mais fluente, um vocabulário
mais rico e uma pronúncia impecável, mas agora estou
muito velho para voltar a estudar idiomas.
Veja Como homem de negócios, o senhor sempre
soube tirar proveito das crises econômicas periódicas
da América Latina. Mas, para as pessoas comuns, as crises
são dolorosas. Por que a América Latina nunca decola
e sua economia está sempre vulnerável?
Slim
Acho difícil fazer um diagnóstico unificado para toda
a região. Os países da América Latina são
muito diferentes entre si. Temos países um tanto similares,
como Brasil e México, ao lado de outros menores e muito diferentes.
Temos países que estão em estado avançado de
desenvolvimento industrial ao lado de outros de economia atrasada.
Em conjunto, o que somos? Somos 500 milhões de habitantes
e passamos duas décadas sem crescimento econômico vigoroso,
especialmente a partir da crise da dívida externa, na década
de 80. Nós formamos, é fundamental ressaltar, uma
região com potencial de desenvolvimento superior ao de qualquer
outra do planeta.
Veja
Por que não conseguimos transformar esse potencial
em altas taxas de crescimento?
Slim
Não acho que a resposta esteja na composição
genética dos latino-americanos. A cultura e a religião
também não podem ser consideradas fatores determinantes
para o subdesenvolvimento da América Latina. A meu ver, há
uma falta crônica de dinheiro para investir em infra-estrutura,
habitação, educação e saneamento. O
que os países da região devem fazer é aumentar
a participação do setor privado em investimentos que
antes eram exclusivos do Estado. Há projetos que são
tocados pelos governos e que poderiam ser financiados também
pelo setor privado. Os países latinos têm de aproveitar
o dinheiro que vem de fora para modernizar sua infra-estrutura.
Isso vai impulsionar o crescimento e gerar mais empregos.
Veja Os governos latino-americanos são mais
corruptos que os da América do Norte e Europa?
Slim Difícil
dizer. A corrupção não é boa para ninguém.
Ela é um obstáculo para a democracia e o livre trânsito
de informação. Com governos mais transparentes, a
vida social e econômica melhora muito. É preciso reconhecer
que os países latino-americanos fizeram enormes avanços
na eliminação da corrupção.
Veja O senhor tem negócios também nos
Estados Unidos. Que diferenças básicas o senhor vê
entre o ambiente econômico americano e o latino?
Slim Nos
Estados Unidos há mais oportunidades. As pessoas têm
melhor qualidade de vida. Por outro lado, elas trabalham muito mais
intensamente e, para chegar a um bom nível econômico,
precisam investir em seu próprio desenvolvimento de maneira
muito mais intensa do que se morassem na América Latina.
A sociedade americana, no entanto, premia melhor e mais rapidamente
quem trabalha. O que temos a fazer na América Latina é
abrir oportunidades de progresso para quem trabalha com afinco e
investe em seu próprio desenvolvimento.
Veja Nos últimos três anos seu grupo investiu
4 bilhões de dólares no Brasil, culminando com a compra
da empresa de telefonia celular BCP em agosto passado. O senhor
planeja investimentos adicionais no Brasil?
Slim Sim.
Em primeiro lugar vamos investir mais nas empresas que compramos.
A alta tecnologia exige investimentos permanentes quando se deseja
ampliar a área de atuação e aumentar a satisfação
dos clientes. Esse é um processo sem fim. As operações
que temos no Brasil são de longo prazo e sabemos que a telecomunicação
é o sistema nervoso da nova civilização que
está sendo construída na América Latina. Não
temos dúvida do grande potencial do Brasil e sabemos que
o país está dando os passos necessários para
garantir seu desenvolvimento sustentado no futuro próximo.
Veja Os rumores no mercado são de que o senhor
ainda planeja investir mais 400 milhões de dólares
no Brasil...
Slim
Não temos uma cifra fechada em mente, mas posso assegurar
que o valor é superior a esse que você menciona. É
preciso sempre investir em infra-estrutura e na ampliação
da área de cobertura de nossos serviços. Investimentos
em comunicação são vitais porque esse é
um setor com uma evolução tecnológica muito
acelerada. Conquistar e manter vanguarda tecnológica exige
gastos permanentes de grandes quantias de dinheiro. O avanço
da tecnologia vai fazer com que o preço das tarifas caia
no Brasil de forma constante. Sobre isso não há dúvida,
mas essa realidade não afeta nossos planos. Nossa visão
é de longo prazo. Além disso, nossa percepção
é que as diretrizes do marco regulatório no Brasil
serão claras e é bom o conhecimento das autoridades
sobre a realidade do setor de telecomunicações.
Veja Quais são as suas previsões sobre
o futuro do Brasil?
Slim A
primeira vez que estive no Brasil foi há quarenta anos. Desde
então, voltei várias vezes. Conheço bem o Rio
de Janeiro, São Paulo, Brasília e Manaus. O Brasil
está em um processo de estabilização macroeconômica,
com a inflação caindo, mas com a taxa real de juros
ainda muito alta. Os juros começaram um processo rápido
de ajuste nos últimos meses. A condução da
reforma da Previdência foi muito boa. O que o governo está
fazendo é necessário para que o país consiga
chegar ao desenvolvimento sustentado. Além disso, o setor
privado é sólido. Uma vez consolidada a estabilidade
macroeconômica, as perspectivas são boas.
Veja Depois de dez anos de entrada em vigor do Nafta,
tratado de livre comércio entre México, Canadá
e Estados Unidos, que balanço o senhor faz da experiência?
Slim
O tratado foi positivo para o México. Conseguimos aumentar
o volume da atividade comercial com os Estados Unidos. Não
apenas exportamos mais, mas exportamos melhor. Ou seja, além
de matéria-prima, passamos a vender no mercado americano
produtos manufaturados que são mais lucrativos para quem
vende. Lamento apenas que nosso tratado com os Estados Unidos e
o Canadá não tenha sido tão completo como foi
o da União Européia. O tratado europeu é mais
eficiente. Ele criou fundos para incentivar os financiamentos e
previu que os países-membros devem fazer propostas conjuntas
para aumentar as ofertas de emprego.
Veja
O senhor acha que os bons resultados obtidos pelo México
com o Nafta seriam indicadores de que a Alca, o tratado de livre
comércio das Américas, seria também positiva
para o Brasil e outros países da região?
Slim O
México não pode ser tomado como um exemplo a ser seguido
pelo Brasil. O México não deve dar conselhos ao Brasil.
Sobre isso me limito a dizer que os passos que o México está
dando podem ser dados por qualquer país. Os paradigmas da
nova civilização, a democracia, os direitos humanos,
a liberdade, a abertura comercial, a globalização,
a maior atividade econômica e a pluralidade são essenciais
para o funcionamento das economias e das sociedades modernas. O
Brasil já está nesse caminho.
Veja Toda pessoa que alcança o grau de sucesso
que o senhor atingiu é um bom julgador do caráter
das pessoas. Dizem que o senhor é especialmente bom nesse
fundamento...
Slim
Realmente sempre achei muito fácil identificar quem se aproxima
de mim apenas pelo dinheiro e quem é confiável. Tenho
bons amigos cuja amizade já dura mais de cinqüenta anos.
Tenho amigos recentes, feitos há dois ou três anos.
Veja O senhor foi um homem pobre e construiu a maior
fortuna da América Latina. De que forma o dinheiro mudou
sua vida?
Slim
Acho correto dizer que o dinheiro não mudou minha vida. Vivo
na mesma casa há 35 anos e dirijo meu próprio carro
pelas ruas e estradas do México. Acho que a idade mudou mais
minha maneira de ver as coisas do que o dinheiro. Agora estou mais
velho e o que mais gosto de fazer é conviver com minha família,
meus amigos e estar rodeado de pessoas interessantes, gente que
pensa e cujas idéias me surpreendem. Sempre gostei de conversar,
de me sentir em meio à natureza. Sempre gostei de viajar.
O dinheiro não teve influência sobre essas minhas paixões.
Talvez o dinheiro tenha me permitido tirar dois ou três dias
livres para conhecer os lugares ao fazer uma viagem de negócios.
Mas, mesmo com dinheiro, nem sempre, infelizmente, isso é
possível.
Veja
O senhor é um homem que pode comprar atualmente
tudo o que a vida negou ao menino pobre. O que mais o atrai na hora
de comprar?
Slim Não
é isso o que me atrai na vida. Comprar algo apenas porque
custa caro é um capricho tolo do qual eu consegui me manter
distante. Minha empresa tem dois aviões. Às vezes
viajo em um deles e, em outras, uso linhas comerciais. Tenho duas
casas, ambas no México. Embora eu pudesse, nunca quis ter
uma casa em cada grande capital do mundo.
Veja
Seus biógrafos são unânimes em dizer
que sua mulher, Soumaya Domit, foi uma das pessoas mais influentes
em sua vida. Isso é verdade?
Slim
Vivemos juntos por 33 anos e Soumaya foi uma pessoa de fundamental
importância para a minha vida. A vida ao lado dela foi uma
conquista preciosa para mim. Acho que todo homem que possa dizer
a mesma coisa de sua esposa é um privilegiado. Ela morreu
enquanto estávamos em um vôo rumo a um hospital onde
íamos buscar tratamento para sua doença. Tenho seis
filhos e quinze netos e quando não estou trabalhando meu
tempo é gasto com eles.
Veja Sua dedicação a investimentos na
área cultural foi influência de sua mulher?
Slim
Nossos países têm uma vida cultural riquíssima
e é evidente que o Estado não possui recursos suficientes
para apoiar todos os projetos necessários nesse setor. Uma
das obrigações do setor privado é patrocinar
a cultura e o esporte. Isso ocorre nos Estados Unidos e em muitos
outros países do mundo. Estamos investindo na revitalização
do centro histórico da Cidade do México, que possui
características arquitetônicas das mais importantes
da América. Durante muitos anos o centro ficou abandonado,
como ocorreu em todas as grandes cidades no mundo. Agora, estamos
revitalizando a região para que mais gente freqüente
o lugar, principalmente os jovens.
Veja Seu museu particular tem alguns dos mais valiosos
quadros de Monet, Degas, Van Gogh e esculturas de Auguste Rodin
fora da Europa. Qual sua maior preferência em arte e de onde
vem esse gosto?
Slim
Fiz o museu em homenagem a minha mulher, Soumaya, mas também
o abri ao público. Não sei se sou o maior colecionador
de Rodin do mundo, mas posso estar entre os principais. Não
gosto muito da pintura contemporânea. Prefiro os artistas
europeus e a arte mexicana, especialmente as obras que retratam
as paisagens do meu país no século XIX. Meus pintores
preferidos são Leonardo da Vinci e Michelangelo, mas, infelizmente,
não tenho quadros desses mestres. Arte é também
uma boa opção de investimento, principalmente quando
se compra adequadamente. Mas também é muito gratificante
investir em boas obras de arte e permitir que as pessoas as vejam.
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