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Em
foco: Sérgio Abranches
Foi bom para o Brasil
"O
século foi bom para nós,
no balanço final.
Só não vê esse balanço positivo quem
acha
possível um percurso histórico sem falhas.
Somos hoje uma sociedade mais livre, mais
forte e mais aberta do que éramos"
Em
1900, o Brasil era uma pequena sociedade agrária, dominada
por uma concentrada oligarquia entesourada. Mulheres e negros não
tinham voz nem voto. As mulheres porque eram mulheres. Os negros
porque eram pobres e analfabetos. A Lei do Ventre Livre, que dava
liberdade aos filhos de escravos, não havia completado trinta
anos, foi assinada em 1871. A abolição tinha doze
anos apenas, a Lei Áurea é de 1888. A população
negra, despossuída e sem direitos políticos, era constituída
de escravos libertos ou negros nascidos de ventres livres e que
não haviam sido assimilados pela sociedade dos homens brancos.
Estavam à margem, fazendo praticamente o mesmo trabalho que
faziam quando escravos, em condições não raro
piores, se não desempregados.
Apenas 5% da população votava. Os presidentes representavam
o domínio dessa minúscula elite sobre a maioria constituída
de negros, mulheres, brancos pobres e analfabetos e crianças.
O último presidente dessa velha república oligárquica,
Júlio Prestes, cujo mandato foi ceifado pela Revolução
de 30, elegeu-se com o equivalente a 16% dos votos que levariam
Eurico Gaspar Dutra à Presidência, quinze anos de ditadura
depois. Se considerarmos Prudente de Morais como o último
presidente oligárquico, ele se elegeu com 8,5% dos votos
de Dutra. Jânio Quadros, último presidente eleito na
república inaugurada por Dutra, elegeu-se com 16% dos votos
que levariam Collor de Mello à Presidência, depois
da Nova República indireta de Sarney e de vinte anos de ditadura
militar. Dutra recebeu o equivalente a 58% dos votos de Jânio.
Ilustração Ale Setti
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A Constituição de 1945, que deu origem à república
populista, elevou o eleitorado dos 5% da população
na República Velha para entre 16% e 20% da população
entre 1945 e 1960. Quando chegou a vez de Jânio Quadros, essa
proporção estava em 24%. Ao se eleger, Collor atingira
57% da população. Fernando Henrique e Lula se elegeram
em um eleitorado que correspondia a perto de 65% da população.
Essa foi a mais significativa mudança política do
século XX: o longo e doloroso caminho para a democracia de
massas, da oligarquia fechada à eleição de
um presidente saído da população pobre do Nordeste,
com estágio político no operariado industrial de São
Paulo.
Demorou, mas, no entremeio, as mulheres ganharam voz e voto. Em
12 de maio de 1928, um aeroplano sobrevoou a cidade do Rio de Janeiro
e dele três senhoras de distinção atiravam panfletos
que diziam: "As mulheres já podem votar em trinta países
e em um Estado brasileiro, por que não hão de votar
em todo o Brasil?". Eram Bertha Lutz, Maria Amalia Bastos e Carmen
Velloso Portinho. O Estado pioneiro, o Rio Grande do Norte. Somente
em 1932 o voto feminino seria autorizado. Revolução
política, que antecedeu o sufrágio universal em muitos
países democráticos da Europa, mas insuficiente para
promover a equiparação socioeconômica dos gêneros:
ainda hoje, a mulher ganha, em média, 70% do salário
do homem branco.
Do homem branco, porque o salário do homem negro equivale
a 60% do rendimento da mulher branca, e o da mulher negra, a pouco
mais de metade. Votos, os negros conquistaram com o sufrágio
universal. Voz, nem tanto. O voto se tingiu, mas não o poder
nem os salões da elite. Só nos anos 90 a sociedade
branca brasileira começou a ouvir a voz do descontentamento
afro-brasileiro, distinta daquela que se ouve nas rodas de samba.
Uma voz que exige assimilação, em igualdade de condições,
à sociedade branca, para que esta deixe de ser branca e fique
diversa como a gente.
Escolhi a revolução democrática para ilustrar
a caminhada do Brasil pelo século XX, que também expõe
nossa culpa e nosso degredo. O século foi bom para o Brasil,
no balanço final. Só não vê esse balanço
positivo quem acha possível um percurso histórico
sem falhas. Somos hoje uma sociedade mais livre, mais forte e mais
aberta do que éramos.
Mas continuamos desiguais. Combater a desigualdade é o desafio
do século XXI, e a vitória não pode demorar
100 anos. Esse combate nos obrigará a reconhecer quem são
os mais desiguais, para torná-los mais iguais. Ver que a
desigualdade tem gênero e cor. Se consideramos a desigualdade
média entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres, nos países
de IDH alto, igual a zero, a desigualdade nos EUA, país de
passado escravocrata e racista, é de mais 39 pontos. No Brasil
é 450 pontos acima dessa média. Somente comparável
à da África do Sul, que chega a 447 pontos. Coincidência
ou manifestação de distintas formas de apartheid racial?
A desigualdade brasileira precisa de um pacto social de correção
que iguale as chances para que essa parte apartada de nós
chegue mais junto.
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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