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Carta
ao leitor
O
caos das boas intenções
Ed Ferreira/AE
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| Reunião
no Senado para indicar o relator da reforma tributária: última
esperança |
Não
é só o inferno que está cheio de boas intenções.
A reforma tributária que o governo do PT fez passar na Câmara
dos Deputados e que agora chega ao Senado é um texto carregado
dos melhores propósitos mas que, mesmo antes de completar
sua tramitação no Legislativo, já provocou
transtornos. Os governadores ficaram alvoroçados com a emenda
do projeto de reforma que fixa o dia 30 de setembro como data-limite
para a concessão de incentivos fiscais pelos Estados. Eles
se lançaram em uma corrida para aprovar o maior número
possível de projetos concedendo facilidades às empresas
antes que a data final chegasse e se fechasse para sempre essa janela
de oportunidades, tradicionalmente usada para incentivar o desenvolvimento
industrial de seus Estados.
A guerra fiscal que se viu na semana passada é perniciosa
porque a arma utilizada é o dinheiro público. Os cofres
se abrem na forma de incentivos diretos, subsídios, doações
de obras de infra-estrutura ou renúncia fiscal. Quando o
processo de atração de investimento é feito
com planejamento e parcimônia, ele pode resultar em benefícios
para a população. Quando se torna caótico,
como na semana passada, o resultado é sempre negativo. A
guerra fiscal produz de imediato o desperdício do dinheiro
dos brasileiros. Ao fincar fábricas apenas por conveniência
fiscal em lugares distantes de mercados e de fornecedores, a guerra
dos governadores ameaça criar também distorções
que, ao fim e ao cabo, vão minar a produtividade da economia
brasileira e comprometer ainda mais a competitividade do país
no cenário mundial.
Um cálculo do custo da orgia fiscal feito na semana passada
pelo Confaz, o conselho nacional dos secretários estaduais
de Fazenda, mostrou que se planeja espetar no contribuinte uma conta
de cerca de 30 bilhões de reais em uma década, a maior
parte em isenções do ICMS, o imposto estadual cujo
controle os governadores perderão quando a reforma tributária
entrar em vigor. O cálculo do Confaz mostrou também
governadores dispostos a gastar mais de 2 milhões de reais
para cada emprego criado pelas empresas que eles se propõem
a atrair. É um modo absurdamente caro de gerar emprego. A
esperança de restabelecer a racionalidade nesse campo está
agora nas mãos dos senadores. Eles podem decidir que o prazo
terminou em abril, quando a emenda começou a tramitar, e
ponto final. Podem também livrar a reforma de outras boas
intenções com resultados perversos, entre elas todas
as que apontam para o aumento da já inaceitável carga
tributária brasileira.
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