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A idade verdadeiraMédico americano calcula Monica Weinberg A ciência faz descobertas significativas a todo momento, mas a maioria delas está tão distante da realidade das pessoas que se acaba tornando desinteressante. A equipe do médico americano Michael Roizen, da Universidade de Chicago, conseguiu juntar as duas virtudes. Descobriu algo importante e de aplicação óbvia na vida de cada um. Depois de compilar estatísticas sobre taxas de mortalidade de diversas populações no mundo durante três anos, Roizen calculou o impacto das doenças sobre a longevidade humana e mostra, com números, quantos anos uma pessoa pode ganhar ou perder se parar de fumar, começar a fazer exercícios, evitar o stress e, indiretamente, ficar mais bonita. Uma primeira leitura pode produzir aquela reação esperada diante das novidades. "Lá vem mais uma daquelas teorias malucas, como a dieta da Lua ou a de Beverly Hills", podem pensar alguns. Mas não é isso. O trabalho do doutor Roizen recebeu elogios unânimes da classe médica americana porque, ao contrário de outros teóricos, ele não propõe soluções milagrosas. Apenas fez cálculos e atribuiu um número documentado a cada hábito virtuoso ou vicioso do ser humano. É quase uma tarefa de matemáticos e estatísticos. O material se transformou num livro, RealAge: Are You as Young as You Can Be? (Idade Verdadeira: Como Ficar Emocional e Fisicamente Mais Jovem?), que está na lista dos mais vendidos dos Estados Unidos. Nesta semana, o Idade Verdadeira será lançado no Brasil.
O doutor Roizen estabeleceu um critério científico para essa movimentação das pessoas pelas faixas etárias. "Envelhecer", "rejuvenescer", "ganhar idade" ou "perder" não implica transformações violentas de ordem física. O fumante de 50 anos jamais ficará com os traços e as rugas de um homem de 70. O que acontece é que ele estará sujeito aos riscos de infarto e câncer a que estão expostos os homens mais velhos. Isso é "envelhecer" ou "perder anos", para o doutor Roizen. Fazendo a dieta adequada, mantendo a atividade sexual e os exercícios em dia, esse homem se livra de alguns perigos comuns na faixa dos 50 anos e passa a conviver com os riscos comuns aos homens de 45 anos. Assim, ele "rejuvenesce" ou "ganha" idade. É como se a vida fosse uma prova com barreiras. Os obstáculos são baixos no início e vão aumentando até que se chega diante da barreira intransponível. Rejuvenescer é ter o direito de ficar mais tempo na parte da prova que não impõe riscos tão pesados. Envelhecer é ser obrigado a aproximar-se do último obstáculo antes do tempo. "Sempre me espantava ver pessoas instruídas e inteligentes mantendo hábitos ruins mesmo sabendo que estavam erradas", diz Roizen a VEJA. "Agora, talvez as pessoas mudem algumas atitudes depois de conhecer a taxa de estragos que esses hábitos produzem."
Para calcular o peso de cada hábito sobre a saúde dos indivíduos, Roizen criou uma taxa de risco. Pegou a longevidade média do fumante e comparou com a longevidade média do não-fumante. Encontrou uma diferença de oito anos. Quem não fuma tem, portanto, um organismo oito anos mais jovem do que aqueles que mantêm o vício. Isso não significa que um fumante vá necessariamente viver oito anos menos que um não-fumante. Winston Churchill, o primeiro-ministro britânico que comandou o esforço inglês na II Guerra, fumava e bebia como gente grande. Morreu aos 90 anos. Deng Xiaoping, líder chinês, era outro fumante inveterado, assim como Mao Tsé-tung, que não apenas gostava de tabaco como também comia sem regra, a ponto de sua mulher, a atriz canastrona Chiang Ching, ter proibido o cozinheiro do palácio de fazer pratos pesados para o amo, que passou a refestelar-se escondido da mulher. Deng morreu aos 92. Mao, aos 82. O que Roizen está dizendo nada tem a ver com isso. Não afirma que maus hábitos condenem todas as pessoas, indiferentemente, a uma morte prematura. O que ele informa é que uma pessoa que fume tem mais riscos estatísticos de tombar antes. A partir dessa relação de causa e efeito, Roizen acrescentou dezenas de outros fatores que podem encurtar uma vida. Chegou a detalhes impressionantes. É inimaginável que alguém não escove os dentes hoje em dia. Ainda assim, há uma pergunta sobre escovação no teste preparado por ele. Roizen descobriu que a falta de escovação correta e regular é a causa de doenças que podem encurtar a vida em até seis anos. Pode parecer um exagero, mas pesquisas científicas sérias fortalecem o cálculo. Depois de definir uma lista de padrões, desvios de conduta e o prejuízo em cada caso, os médicos de Idade Verdadeira precisaram criar uma equação para calcular o impacto de cada vício ou virtude sobre a longevidade. Afinal, se as contas fossem feitas de forma linear, a eliminação de todos os maus hábitos poderia resultar num rejuvenescimento superior a trinta, quarenta ou até cinqüenta anos, o que não faz o menor sentido. Se assim fosse, o governador Itamar Franco poderia rejuvenescer a tal ponto que sua idade física finalmente se equipararia a sua idade mental. De acordo com a fórmula montada por Roizen, o cálculo da taxa de ganho e perda é móvel. Para pessoas na faixa dos 30 anos, adotar uma combinação de cuidados pode levá-las a ganhar dez anos, no máximo. No limite, uma mulher de 35 anos que malha diariamente na academia e mantém uma alimentação de baixo teor calórico pode ficar com organismo e aparência de uma garota de 25. Para idades mais avançadas, a taxa de ganho é muito maior. Um homem de 70 anos que seja muito cuidadoso pode ter a saúde de um homem vinte anos mais moço. Rotina de exercícios – Com base em dezenas de estudos científicos, Roizen frisa que o organismo não está preparado para sofrer mudanças radicais nessa viagem etária. Alguns anos a mais ou alguns anos a menos são razoáveis e perfeitamente explicáveis. Ninguém se surpreende. Diferenças exageradas não devem ser toleradas. Uma pessoa de 30 anos que, ao responder ao questionário, descobre que tem idade verdadeira de 40 ou 45 anos precisa marcar uma consulta médica o mais rápido possível. Certamente, ela está cometendo uma série de erros que podem encurtar sua vida. A pedido de VEJA, diversas personalidades responderam ao questionário do doutor Roizen. Em alguns casos, os resultados foram impressionantes. Campeão na Fórmula 1 e na Indy, Emerson Fittipaldi, 52 anos, mantém uma rotina diária de exercícios e alimentação invejáveis. Como conseqüência dessas práticas, segundo a equação de Michael Roizen, ele tem a idade de um homem de 39 anos. É evidente que os cuidados adotados por Emerson não deram a ele a aparência de alguém de 39 anos, mas tem muita gente de 39 ou 40 que aparenta mais idade do que ele. A triatleta Fernanda Keller tem 35 anos, segundo a certidão de nascimento. Não bebe, dorme religiosas oito horas todas as noites e ingere vitaminas – além da dose cavalar de exercícios físicos. Na tabela de Roizen, sua idade verdadeira é 29 anos. Deve-se dizer que parece até menos.
Outras pessoas sem o histórico atlético e esportivo de Emerson e Fernanda também descobriram ter rejuvenescido ao optar por uma vida mais saudável. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Velloso, tem 63 anos de idade cronológica. No teste que fez com base no questionário de Roizen, Velloso ficou com 52 anos de idade verdadeira. O ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega tem 57 anos, mas baixou sua idade verdadeira para 50. Ele recuperou esse tempo porque largou o vício do cigarro há mais de cinco anos e passou a controlar o peso. A apresentadora Ana Maria Braga, de 50 anos cronológicos, viu sua idade orgânica recuar para 43 graças a um tratamento hormonal depois da menopausa, uma precaução que reduz o risco de doenças cardiovasculares. Nem rugas, nem celulite – As personalidades citadas nesta reportagem responderam a uma versão mais completa do teste, com 95 perguntas, e enviaram os questionários a VEJA sem saber quantos anos estariam ganhando ou perdendo caso escolhessem essa ou aquela alternativa. Informadas do resultado final, autorizaram a divulgação.
Postura cautelosa – Há vários livros que prometem às pessoas uma maneira mais rápida de chegar à plenitude. Idade Verdadeira não pode ser confundido com um deles. Michael Roizen é um profissional que chefia 110 médicos na Universidade de Chicago. Seu nome aparece nas últimas nove edições anuais de um guia respeitado nos Estados Unidos chamado Os Melhores Médicos da América. Um dos motivos da boa imagem que a obra de Roizen deixa entre os especialistas é o extremo cuidado no trabalho da coleta de informações. Só entrou no livro estatística confirmada em pelo menos quatro artigos científicos. Um dos casos típicos da postura cautelosa são os dois anos de envelhecimento dados no teste a casais heterossexuais que vivem juntos há menos de dez anos. Por que os casamentos de sete ou oito anos não são beneficiados? Porque só há pesquisas conclusivas sobre os efeitos benéficos do tempo em relação aos acima de dez anos. Roizen abre seu livro com uma comparação monetária. "A saúde tem um valor de troca, como o dinheiro", diz. "Você pode gastar o que tem ou economizar para dias mais difíceis. O que fizer hoje vai ter conseqüência no futuro." Há um apelo didático no método Roizen de assustar as pessoas. Ao traduzir o sedentarismo em determinado número de anos a mais na vida, isso facilita a compreensão dos riscos. Qualquer pessoa sabe que a falta de exercícios é prejudicial, mas para muitos essa é uma ameaça teórica. Quando a decisão de não fazer exercícios é traduzida em dois ou três anos a menos de vida, não há como não entender a gravidade da situação. "Eu não quero que os leitores passem a correr a maratona, mas que entendam como é importante manter algum tipo de exercício diário", afirma Roizen. Ele diz que basta uma caminhada diária de vinte minutos para reduzir em apenas vinte semanas de 15% a 30% os riscos de infarto ou derrame. Com uma atividade física leve, recuperam-se até três anos em relação à idade ditada pela carteira de identidade. O médico criou ainda um truque em seu questionário contra a vida sedentária. No gabarito, ganha meio ano aquele que tem cachorro em casa. Os donos de gatos ou papagaios não ganham nada. O motivo é que ter um cão praticamente obriga a caminhadas diárias, o que não ocorre com quem tem outro bicho. Livros como o de Roizen estão explodindo no mercado editorial no mundo todo porque vêm ao encontro de uma obsessão da humanidade na virada do milênio: retardar a velhice. Há dois séculos, as pessoas morriam em média com 30 anos. No século passado, a expectativa de vida passaria a ser de 48 anos. Hoje, vive-se em média 68 anos. Quantidade de vida é bom, desde que haja também qualidade. Atualmente, o consenso entre os cientistas é de que a saúde está muito mais ligada aos hábitos de cada um do que à carga genética. Acredita-se que a herança do pai e da mãe contribua com 30% no modo como cada um chega à velhice. Os outros 70% dependem do estilo de vida e de fatores ambientais. Isso quer dizer que envelhecer bem ou mal é em grande parte resultado de um conjunto de decisões pessoais. Com o passar dos anos, o corpo começa a cobrar tributos. Cansa-se, dói, falha. O cenário parece terrível, mas o envelhecimento pode ser muito melhor para quem cuida de si próprio. |
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Com reportagem de
Julio Wiziack e Rodrigo Amaral
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