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Ih, me deu um branco!Os pesquisadores começam a explicar por que
A mais fascinante descoberta diz respeito ao modo com que a idade e o stress atuam sobre a memória. Acreditou-se durante décadas que o esquecimento era provocado pela morte de células cerebrais e que, portanto, toda pessoa estava condenada à decrepitude. Não é bem assim. Apesar de o cérebro perder peso com a idade (entre 5% e 10% por década depois dos 65 anos) e de a memória tornar-se mais lenta, a maioria das pessoas não está programada para se tornar incapaz mentalmente depois de uma certa idade. Os médicos sabem agora que, exceto pelo desenvolvimento de algumas enfermidades específicas, como o mal de Alzheimer ou doenças vasculares, a idade não arruína a memória. Fica mais fácil explicar por que Giuseppe Verdi tinha mais de 70 anos quando compôs suas óperas mais complexas. Octogenário, o escritor argentino Jorge Luis Borges aprendeu inglês arcaico. Muitos dos novos conhecimentos sobre a memória decorrem dos investimentos feitos em pesquisas do mal de Alzheimer. Como as pessoas estão vivendo mais, a doença, que atinge entre 1% e 2% da população, tornou-se caso de saúde pública em certos países. Mesmo no caso dessa enfermidade grave observaram-se vantagens para o exercício mental. Pesquisa realizada no Hospital Francês de Buenos Aires entre pacientes com mais de 65 anos revelou que a incidência do mal de Alzheimer chega a ser cinco vezes maior entre analfabetos se comparada com universitários. O que os médicos recomendam com ênfase é a busca de um estilo de vida saudável. Há vários fatores que impedem o cérebro de trabalhar a pleno vapor. Pressão alta pode ser devastadora, mesmo quando não leva ao ataque cardíaco ou ao derrame. Excesso de bebida alcoólica, carência de sono e abuso de pílulas para dormir são igualmente arrasadoras para a memória. Nada é mais perverso que o stress, o mal da vida moderna. "Mesmo que não sejam intensos, esses fatores diminuem muito o grau de atenção da pessoa", afirma o médico baiano Aroldo Bacellar, presidente da Academia Brasileira de Neurologia. "Quem não está atento não tem nem o que lembrar depois." Além de nos tirar o sono, tornar mais distraídos e mais propensos a beber, o stress crônico age na química cerebral. Isso porque a pressão emocional leva à liberação de cortisol, substância que interfere com as moléculas que levam glicose ao hipocampo. Em outras palavras, deixam o cérebro sem energia. Apesar de a maioria desses fatores perversos parecer estar além do controle de cada um, há muito que se pode fazer. Uma boa providência inicial é manter dieta saudável e praticar alguma atividade física. Além de diminuir o stress, os exercícios ajudam a circulação, oxigenando o cérebro, e isso é um elemento decisivo para o bom funcionamento da cabeça. "O cérebro tem apenas 2% do peso do corpo, mas consome 20% de toda a energia gerada", observa o neurofisiologista Gilberto Xavier, da Universidade de São Paulo, USP. Como se sabe que o cérebro depende da saúde do sistema circulatório para funcionar direito, a vida saudável produz resultados magníficos. Uma pesquisa espanhola feita durante dois anos com idosos estabeleceu uma conexão entre agilidade mental e alimentação farta em frutas, vegetais e fibras. Um estudo da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, publicado recentemente na revista Nature demonstrou que a caminhada diária retarda o envelhecimento do cérebro. Por fim, uma simples organização de hábitos não faz mal a ninguém e tem resultados sensacionais. O tempo e a energia investidos na procura pela chave do carro podem ser facilmente poupados deixando-a sempre no mesmo lugar. "É uma equação simples", diz Barry Gordon, neurologista da universidade americana Johns Hopkins e autor de um celebrado livro sobre memória. "Vale mais a pena comprar – e usar – uma agenda do que esperar que a cabeça cuide de tudo sem falhar. Como diz um ditado inglês, o pior lápis é mais eficiente que a melhor memória."
As pesquisas confirmam também a velha crença de que quanto mais se usa a memória mais afiada ela fica. "É como um rio: quanto mais água passar por ele, mais fundo será o leito", descreve o neurologista Paulo Henrique Bertolucci, da Universidade Federal de São Paulo. "O mesmo acontece com a memória. Quanto mais as conexões entre neurônios forem ativadas, maiores as chances de perpetuar as lembranças." Exercitar o intelecto é um santo remédio para quem anda meio esquecido. Sob esse ponto de vista, resolver palavras cruzadas, assistir ao novo episódio de Guerra nas Estrelas e ler um livro de auto-ajuda é tão bom para a memória quanto dedicar-se a um ensaio sobre o filósofo alemão Nietzsche e na seqüência ouvir uma ópera em italiano. Parece uma obviedade, mas até recentemente se acreditou que a massa cinzenta se desgastava com o excesso de uso. Ocorre exatamente o contrário. "O cérebro é como um músculo", define o neurofisiologista Gilberto Xavier, da USP. "Ambos precisam de exercício. Se não houver estímulo, tanto um como outro atrofiam." Ainda está por descobrir exatamente como se dá a transição entre a memória temporária e a de longo prazo. Ou seja, de que maneira o cérebro decide o que deve ser arquivado de modo organizado e resgatável e o que se perderá para sempre nos labirintos da mente. "A simples leitura destas palavras na revista exige que se lembre o que significa cada letra, cada sílaba e cada palavra", disse a VEJA o americano Barry Gordon. Já se sabe que o arquivista do corpo humano é o hipocampo, um órgão de tamanho reduzido acomodado entre os dois hemisférios cerebrais. As informações chegam ao cérebro por intermédio de um dos cinco sentidos, são processadas no córtex e, depois, enviadas ao hipocampo, que toma as decisões. A comprovação definitiva da importância do hipocampo não é totalmente nova. Foi feita em 1953, com o estudo do caso de um operário americano (aliás, uma das pessoas mais estudadas pelos neurocientistas nos últimos quarenta anos) cujo hipocampo foi extraído por causa da epilepsia. Ele era capaz de aprender novas habilidades motoras, mas nunca mais formou novas lembranças e se tornou incapaz de recordar o que tinha comido no café da manhã. O mistério é o que o hipocampo leva em conta para tomar essa decisão de enviar as lembranças para a memória permanente. Já se encontraram alguns fatores que exercem grande influência. O primeiro deles é a emoção. Em uma experiência realizada há cinco anos nos Estados Unidos, duas versões diferentes de uma história foram contadas a dois grupos de pessoas. Em uma delas, um garoto vai visitar o pai e, no caminho, passa por um ferro-velho. Na outra, o garoto é atropelado. Não é preciso ser um especialista em neurologia para prever que a segunda história foi lembrada com muito mais detalhes. O segundo fator de influência é a capacidade de estabelecer relações com informações que já temos guardadas. É mais uma constatação científica de algo que o senso comum já demonstrou. Obviamente é mais eficiente tentar lembrar-se de algo que diz respeito à maneira como se ganha a vida do que de abstrações totalmente alheias ao trabalho ou à profissão que se escolheu. Nesse particular, o que os cientistas têm a declarar é que hoje eles sabem exatamente em que região do cérebro ficam gravadas as experiências e os conhecimentos adquiridos no passado – numa região conhecida como córtex cerebral. Camada externa da massa encefálica, o córtex abriga cerca de 10 bilhões de células cerebrais, os neurônios, que se comunicam por impulsos elétricos e químicos. Cada informação que chega ao cérebro (uma imagem, um som, uma idéia) é guardada num ponto determinado. A imagem fica no mesmo lugar onde é processada ao chegar pelo nervo óptico. O som é guardado no mesmo espaço onde é decodificado, e assim por diante. Quando você é apresentado a uma pessoa, acontece o que o psicólogo americano Daniel Schacter, da Universidade Harvard, chama de "constelação temporária". Cada uma das informações sobre a pessoa (o rosto, o nome, a voz, a profissão, e assim por diante) é processada em uma região diferente do cérebro. Os dados são ligados entre si pelos neurônios – e é essa pequena rede que forma o que chamamos de memória. Esse processo antes misterioso e inacessível vem aos poucos entregando seus segredos aos pesquisadores. Vive-se, sem dúvida, uma época memorável para o estudo do cérebro.
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