Ih, me deu um branco!

Os pesquisadores começam a explicar por que
esquecemos e já falam em produzir uma droga
eficiente para melhorar a memória

Montagem sobre fotos de Eduardo Costa

Mito: anotar os compromissos é o caminho mais curto para enfraquecer a memória
Verdade: o simples fato de anotar é um excelente recurso para reforçar a memorização

Mito: o cérebro guarda tudo o que ocorre. A lembrança sempre pode ser desenterrada com a ajuda da psicanálise ou de hipnose
Verdade: boa parte de nossas percepções, como um número de telefone, transita rapidamente pela memória e simplesmente evapora-se

Mito: os afortunados com supermemória, daqueles capazes de decorar todas as músicas dos Beatles, são pessoas de inteligência e capacidade de raciocínio superiores a memória
Verdade: memória nada tem a ver com inteligência ou raciocínio. Um poder extraordinário de memorização é um dom natural ou resultado de treino


A fronteira final na luta da ciência para entender e melhorar o funcionamento do corpo humano fica no cérebro. Mais exatamente numa região conhecida como hipotálamo. Por ali circulam os impulsos elétricos e químicos responsáveis por uma das funções mais vitais da mente, a memória. Durante séculos, pesquisadores vêm tentando desvendar seus mecanismos. Até bem pouco tempo atrás, os progressos nessa área eram desprezíveis. Agora, num salto formidável, cientistas de diversas equipes vêm relatando descobertas que em seu conjunto pintam um retrato bem mais nítido. Em resumo, o que se descobriu é que os problemas de perda de memória são causados por alterações mais simples do que se imaginava. O que levaria uma pessoa, de qualquer idade, a ficar com a "memória fraca" seria uma perturbação na química cerebral.

Onde está a boa notícia? Exatamente aí. Já que na imensa maioria dos casos o que ocorre é uma mudança na sopa de elementos químicos que banham as células cerebrais, abre-se a possibilidade de que seja desenvolvido um remédio eficaz para corrigir o defeito. Alguns compostos já disponíveis nas farmácias podem mesmo atenuar casos mais brandos de memória fraca (veja quadro ao lado). A outra conseqüência das descobertas é que as pessoas podem envelhecer preservando boa parte da agilidade mental e da capacidade de recordar que tiveram no auge de suas vidas. "A perda de neurônios e os danos físicos que a idade e outros fatores provocam no cérebro não têm efeito tão adverso quanto se acreditava", diz o neurologista americano Bruce McEwen, da Universidade Rockefeller, em Nova York. As pesquisas mostram que o cérebro pode facilmente reprogramar-se para suprir a perda de neurônios provocada pelo envelhecimento ou pelos hormônios que situações extremas de tensão liberam no organismo.

A mais fascinante descoberta diz respeito ao modo com que a idade e o stress atuam sobre a memória. Acreditou-se durante décadas que o esquecimento era provocado pela morte de células cerebrais e que, portanto, toda pessoa estava condenada à decrepitude. Não é bem assim. Apesar de o cérebro perder peso com a idade (entre 5% e 10% por década depois dos 65 anos) e de a memória tornar-se mais lenta, a maioria das pessoas não está programada para se tornar incapaz mentalmente depois de uma certa idade. Os médicos sabem agora que, exceto pelo desenvolvimento de algumas enfermidades específicas, como o mal de Alzheimer ou doenças vasculares, a idade não arruína a memória. Fica mais fácil explicar por que Giuseppe Verdi tinha mais de 70 anos quando compôs suas óperas mais complexas. Octogenário, o escritor argentino Jorge Luis Borges aprendeu inglês arcaico. Muitos dos novos conhecimentos sobre a memória decorrem dos investimentos feitos em pesquisas do mal de Alzheimer. Como as pessoas estão vivendo mais, a doença, que atinge entre 1% e 2% da população, tornou-se caso de saúde pública em certos países. Mesmo no caso dessa enfermidade grave observaram-se vantagens para o exercício mental. Pesquisa realizada no Hospital Francês de Buenos Aires entre pacientes com mais de 65 anos revelou que a incidência do mal de Alzheimer chega a ser cinco vezes maior entre analfabetos se comparada com universitários.

O que os médicos recomendam com ênfase é a busca de um estilo de vida saudável. Há vários fatores que impedem o cérebro de trabalhar a pleno vapor. Pressão alta pode ser devastadora, mesmo quando não leva ao ataque cardíaco ou ao derrame. Excesso de bebida alcoólica, carência de sono e abuso de pílulas para dormir são igualmente arrasadoras para a memória. Nada é mais perverso que o stress, o mal da vida moderna. "Mesmo que não sejam intensos, esses fatores diminuem muito o grau de atenção da pessoa", afirma o médico baiano Aroldo Bacellar, presidente da Academia Brasileira de Neurologia. "Quem não está atento não tem nem o que lembrar depois." Além de nos tirar o sono, tornar mais distraídos e mais propensos a beber, o stress crônico age na química cerebral. Isso porque a pressão emocional leva à liberação de cortisol, substância que interfere com as moléculas que levam glicose ao hipocampo. Em outras palavras, deixam o cérebro sem energia. Apesar de a maioria desses fatores perversos parecer estar além do controle de cada um, há muito que se pode fazer. Uma boa providência inicial é manter dieta saudável e praticar alguma atividade física. Além de diminuir o stress, os exercícios ajudam a circulação, oxigenando o cérebro, e isso é um elemento decisivo para o bom funcionamento da cabeça. "O cérebro tem apenas 2% do peso do corpo, mas consome 20% de toda a energia gerada", observa o neurofisiologista Gilberto Xavier, da Universidade de São Paulo, USP.

Como se sabe que o cérebro depende da saúde do sistema circulatório para funcionar direito, a vida saudável produz resultados magníficos. Uma pesquisa espanhola feita durante dois anos com idosos estabeleceu uma conexão entre agilidade mental e alimentação farta em frutas, vegetais e fibras. Um estudo da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, publicado recentemente na revista Nature demonstrou que a caminhada diária retarda o envelhecimento do cérebro. Por fim, uma simples organização de hábitos não faz mal a ninguém e tem resultados sensacionais. O tempo e a energia investidos na procura pela chave do carro podem ser facilmente poupados deixando-a sempre no mesmo lugar. "É uma equação simples", diz Barry Gordon, neurologista da universidade americana Johns Hopkins e autor de um celebrado livro sobre memória. "Vale mais a pena comprar e usar uma agenda do que esperar que a cabeça cuide de tudo sem falhar. Como diz um ditado inglês, o pior lápis é mais eficiente que a melhor memória."

Oscar Cabral
Roberto Loffel

"Meu truque para decorar um texto é colocar uns 'cacos'. São palavras que não estão no roteiro mas guiam minha memória."

Juliana Silveira, 19 anos, atriz da TV Globo

"Nas viagens em mar, não dá para cometer erros. Por isso, evito fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo. Minha memória precisa estar fresca."

Amyr Klink, navegador


Há avanços também fora dos laboratórios que estudam as células cerebrais. É sabido que quanto maior a quantidade de funções cerebrais envolvidas no armazenamento de informações mais ágil será a memória. Estudos recentes mostram que recordamos 10% do que lemos, 20% do que escutamos, 30% do que vemos, 50% do que vemos e escutamos, 70% do que ouvimos e discutimos e 90% do que ouvimos e fazemos. Essa simples constatação abriu uma nova frente na luta contra as falhas da memória. Ela orienta hoje as técnicas que ensinam pessoas saudáveis a reter melhor os conhecimentos de que necessitam no trabalho e na vida em geral ensinando-as a descartar os blocos de informações supérfluas que simplesmente sobrecarregam a memória (veja quadro). Pode-se depreender daí que o segredo para melhorar a memória não é lembrar-se de tudo, como já se viu, mas evitar que a mente descarte o imprescindível. Bons resultados são obtidos com técnicas bem simples, quase intuitivas. Atenção e concentração são essenciais para fixar as lembranças. "Se você costuma esquecer a luz da garagem ligada, da próxima vez em que for desligá-la descreva a ação em voz alta. A vocalização forte reforça a memória", ensina o médico Robert Goldman no livro A Saúde do Cérebro.

As pesquisas confirmam também a velha crença de que quanto mais se usa a memória mais afiada ela fica. "É como um rio: quanto mais água passar por ele, mais fundo será o leito", descreve o neurologista Paulo Henrique Bertolucci, da Universidade Federal de São Paulo. "O mesmo acontece com a memória. Quanto mais as conexões entre neurônios forem ativadas, maiores as chances de perpetuar as lembranças." Exercitar o intelecto é um santo remédio para quem anda meio esquecido. Sob esse ponto de vista, resolver palavras cruzadas, assistir ao novo episódio de Guerra nas Estrelas e ler um livro de auto-ajuda é tão bom para a memória quanto dedicar-se a um ensaio sobre o filósofo alemão Nietzsche e na seqüência ouvir uma ópera em italiano. Parece uma obviedade, mas até recentemente se acreditou que a massa cinzenta se desgastava com o excesso de uso. Ocorre exatamente o contrário. "O cérebro é como um músculo", define o neurofisiologista Gilberto Xavier, da USP. "Ambos precisam de exercício. Se não houver estímulo, tanto um como outro atrofiam."

Ainda está por descobrir exatamente como se dá a transição entre a memória temporária e a de longo prazo. Ou seja, de que maneira o cérebro decide o que deve ser arquivado de modo organizado e resgatável e o que se perderá para sempre nos labirintos da mente. "A simples leitura destas palavras na revista exige que se lembre o que significa cada letra, cada sílaba e cada palavra", disse a VEJA o americano Barry Gordon. Já se sabe que o arquivista do corpo humano é o hipocampo, um órgão de tamanho reduzido acomodado entre os dois hemisférios cerebrais. As informações chegam ao cérebro por intermédio de um dos cinco sentidos, são processadas no córtex e, depois, enviadas ao hipocampo, que toma as decisões. A comprovação definitiva da importância do hipocampo não é totalmente nova. Foi feita em 1953, com o estudo do caso de um operário americano (aliás, uma das pessoas mais estudadas pelos neurocientistas nos últimos quarenta anos) cujo hipocampo foi extraído por causa da epilepsia. Ele era capaz de aprender novas habilidades motoras, mas nunca mais formou novas lembranças e se tornou incapaz de recordar o que tinha comido no café da manhã.

O mistério é o que o hipocampo leva em conta para tomar essa decisão de enviar as lembranças para a memória permanente. Já se encontraram alguns fatores que exercem grande influência. O primeiro deles é a emoção. Em uma experiência realizada há cinco anos nos Estados Unidos, duas versões diferentes de uma história foram contadas a dois grupos de pessoas. Em uma delas, um garoto vai visitar o pai e, no caminho, passa por um ferro-velho. Na outra, o garoto é atropelado. Não é preciso ser um especialista em neurologia para prever que a segunda história foi lembrada com muito mais detalhes. O segundo fator de influência é a capacidade de estabelecer relações com informações que já temos guardadas. É mais uma constatação científica de algo que o senso comum já demonstrou. Obviamente é mais eficiente tentar lembrar-se de algo que diz respeito à maneira como se ganha a vida do que de abstrações totalmente alheias ao trabalho ou à profissão que se escolheu. Nesse particular, o que os cientistas têm a declarar é que hoje eles sabem exatamente em que região do cérebro ficam gravadas as experiências e os conhecimentos adquiridos no passado numa região conhecida como córtex cerebral. Camada externa da massa encefálica, o córtex abriga cerca de 10 bilhões de células cerebrais, os neurônios, que se comunicam por impulsos elétricos e químicos. Cada informação que chega ao cérebro (uma imagem, um som, uma idéia) é guardada num ponto determinado. A imagem fica no mesmo lugar onde é processada ao chegar pelo nervo óptico. O som é guardado no mesmo espaço onde é decodificado, e assim por diante. Quando você é apresentado a uma pessoa, acontece o que o psicólogo americano Daniel Schacter, da Universidade Harvard, chama de "constelação temporária". Cada uma das informações sobre a pessoa (o rosto, o nome, a voz, a profissão, e assim por diante) é processada em uma região diferente do cérebro. Os dados são ligados entre si pelos neurônios e é essa pequena rede que forma o que chamamos de memória. Esse processo antes misterioso e inacessível vem aos poucos entregando seus segredos aos pesquisadores. Vive-se, sem dúvida, uma época memorável para o estudo do cérebro.

 

Surra no cérebro

Afinal, quais os segredos dos cursos que ensinam técnicas de memorização? A maioria dos métodos tem como base uma prática conhecida há mais de 2 500 anos. O princípio básico é o da associação. A memória começa a funcionar quando associamos o que queremos lembrar a lugares, pessoas, histórias e situações. É muito mais fácil recordar-se de uma situação do que de um número. Os números são excessivamente abstratos e é natural que as pessoas se esqueçam deles com freqüência. Para a memória, as imagens são muito mais concretas. Nas aulas dos cursos de leitura dinâmica, um dos exercícios adotados é o da exibição de um trecho de texto num telão por alguns segundos. Nas projeções seguintes, aumenta-se o número de palavras e diminui-se o tempo de exposição. Outro exercício consiste em pedir ao aluno que resuma em algumas palavras um capítulo de um livro. Dessa forma, quando ele precisar relembrar o que leu, as palavras lhe servirão de guias, como placas de sinalização numa estrada.

Alguns cursos de memorização no Brasil ensinam uma técnica que procura tornar mais concretas as abstrações. É um trabalhão. Um estudante de direito que precisava decorar o Código Penal foi instruído a associar o número 1 com a palavra "tio", o 2 com "navio" e o 9 com "surra". Depois, bastava lembrar da frase "Meu tio entrou no navio e levou uma surra". Com isso, o futuro advogado jamais se esqueceria de que o artigo 129 trata das lesões corporais. Funciona, mas imagine-se a complexidade de utilizar o método para decorar todos os 361 artigos do Código Penal. O melhor conselho é o mais simples: estimular a memória. Para não correr o risco de arquivar informação desnecessária, a dica dos especialistas é fazer checagens periódicas. A primeira, um dia depois de aprender o tópico que se deseja decorar. A segunda, três dias depois. Se uma semana depois o assunto ainda estiver fresco, é sinal de que a informação ficará gravada na memória por muito mais tempo.

 
 

 




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