Edição 1870 . 8 de setembro de 2004

Índice
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Autor-retrato
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Tales Alvarenga
Meu nome é Dirceu!

"Dirceu é o general de Lula para as legiões
petistas. Ele tem o comando do partido na
palma da mão. Quando fala, fala para suas
legiões. É para elas que bufa em véspera
de eleição municipal"

O ministro José Dirceu, chefe da Casa Civil da Presidência, tem lampejos do personagem Enéas, aquele que está sempre ameaçando os interlocutores sem que se saiba direito por que transforma a provocação num estilo de convivência. José Dirceu, como um técnico de futebol que vai mal das pernas, vive sendo prestigiado pelo presidente do clube. Na semana passada, ele foi nomeado para mais um posto na administração federal. É agora presidente da Comissão de Incentivo aos Investimentos Produtivos Privados no Brasil. Dirceu já é presidente da Câmara de Política Social, da Câmara de Desenvolvimento Econômico e de outros dezenove grupos coletivos dedicados a reuniões na Esplanada dos Ministérios. Apesar de tantos cargos, não se sabe muito bem o que José Dirceu coordena. Nomeado para a nova comissão, ele explicou o que vai fazer: "Vamos atrás de investimentos aqui e fora e vamos arrombar as portas onde elas estão fechadas". Ou seja: "Meu nome é Dirceu!"

Na nova função, o ministro vai tentar pôr em prática as chamadas Parcerias Público-Privadas (PPP), uma das ferramentas idealizadas para estimular os investidores a aplicar em ferrovias, hidrelétricas, portos e outras áreas da infra-estrutura. Esse é o setor que o ministro José Dirceu quer fazer crescer através de arrombamentos. Antes, porém, é preciso aprovar o projeto no Senado. Alguns nomes da oposição, principalmente o senador Tasso Jereissati, tucano do Ceará, estão com receio de que o dinheiro público a ser envolvido nessas parcerias acabe escorrendo para o bolso privado por meio de roubalheiras e desperdícios. Por isso, querem incluir certos controles na lei das PPPs.

Ao falar sobre suas novas atribuições na semana passada, Dirceu não se conteve e, sem que ninguém o tivesse provocado, mandou um recado aos oposicionistas. "O PSDB tem autoridade moral para falar em recursos do BNDES e fundos de pensão depois de tudo o que aconteceu durante os oito anos em que governaram?" Não acrescentou, mas poderia: "Meu nome é Dirceu!"

Naquele momento o PT estava justamente tentando aparar diferenças com a oposição no Senado para aprovar matérias de seu interesse, inclusive as PPPs. Os ataques do ministro Dirceu anularam o trabalho de aproximação que vinha sendo feito nos dias anteriores. O PT nunca foi eleitoralmente tão forte, nunca arrecadou tanto dinheiro de doadores de campanha para eleições municipais, nunca infiltrou tantos militantes de alto a baixo na máquina de governo. Pela primeira vez, desde que Lula assumiu, há notícias excelentes na frente econômica. O Brasil deverá crescer algo como 5% em 2004, suas exportações estão em níveis inéditos e o agronegócio explode por todo o país. E, no entanto, o PT continua criando crises gratuitamente, como essa inventada na semana passada pelo ministro José Dirceu.

O que está acontecendo? Por que o diálogo com o Congresso em casos delicados como o das PPPs não fica com alguém como o ministro Antonio Palocci, ou o ministro Luiz Fernando Furlan, ou qualquer outro integrante do governo com menos adrenalina do que Dirceu? Por que se dão a Dirceu tantas atribuições? Por que ele aparece tanto em brigas internas e externas? A interpretação, no governo, é a de que Dirceu é o general de Lula para as legiões petistas. Ele tem o comando do partido na palma da mão. Quando fala, fala para suas legiões. É para elas que bufa em véspera de eleição municipal.

 

 
 
 
 
topovoltar