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Ponto
de vista: Lya Luft
Deixemos Daiane viver
"O drama de quem esperou
demais, no caso
de um 'fracasso', é a dor revivida dos
seus
próprios sonhos não realizados
o que faz
mal a quem se desejava fazer bem"
O fanatismo é um par de lentes perigoso:
provoca leituras tortas e atitudes crispadas.
Certa vez escrevi que o tradutor de literatura
deveria ser escritor, ou ter uma boa bagagem de leitura, além
de sensibilidade literária. Precisaria ter o que chamamos
"ouvido treinado", para sentir o texto até nas entrelinhas,
sem o que ficaria muito difícil interpretar o autor estrangeiro.
Ilustração Ale Setti
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Minha afirmação desencadeou protestos naqueles leitores
que pararam depois da primeira parte da frase, bloqueando o resto.
Para eles, eu tinha lançado uma sentença mortal: só
escritores poderiam ser bons tradutores, ninguém mais. Na
sua interpretação, eu deixara de fora um sem-número
de colegas, grandes profissionais, mas que não haviam publicado
livros. Se eu realmente tivesse afirmado isso, teria sido, além
de injusto, uma grande tolice.
Naquela ocasião, ainda inexperiente,
tentei me explicar. Para muitos, não adiantou nada: estavam
obcecados, ou simplesmente à espera de uma ocasião
para descarregar seu mau humor escritores também servem
de cabide para os fantasmas alheios. Poucos compreenderam: "É
mesmo! Eu nem tinha percebido". Esses não usavam lentes grossas
demais.
Evoco esse episódio para notar que,
não raro, tendemos ao mais cego fanatismo, base de muita
incompreensão, nas opiniões e também nas idolatrias.
As Olimpíadas foram um bom exemplo disso. A torcida saudável
opõe-se à histeria que projeta sobre os esportistas
toda a carga de frustração de quem torce fanaticamente.
Partindo desse princípio, talvez a torcida tenha ultrapassado
os limites do desejável com relação à
gaúcha Daiane.
Há meses acompanho a pressão
exercida sobre sua figurinha simpática e ágil, e sobre
a de tantos outros atletas de todos os tamanhos e idades. Imagino
a montanha de esperança largada em seus ombros, como se o
orgulho de um país inteiro dependesse do desempenho deles.
Na medida do possível, avaliei quanta ajuda concreta o Brasil
lhes deu na forma de patrocínio, cuidados de toda sorte,
coisas de que não entendo, mas que devem ser indispensáveis
para um atleta que vai competir em nível mundial.
Fui descobrindo que era muito pouco. O que
havia em abundância era torcida, isso sim, fanática
nos momentos decisivos. Ela me pareceu perigosa, da mesma forma
que acontece com o vestibulando cujos familiares roem unhas e tomam
calmantes, como se o centro de tudo fossem eles, como se vida e
honra da família dependessem de um concurso. Se o aluno é
reprovado no vestibular, se o atleta ou a equipe falham na competição,
família ou país se frustram, e a celebração
vira cobrança.
O drama de quem esperou demais, no caso de
um "fracasso", é a dor revivida dos seus próprios
sonhos não realizados o que faz mal a quem se desejava
fazer bem. Homenagear é estimular, apoiar, dar as melhores
condições e o maior carinho, mas... deixar viver.
Lya Luft é escritora
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