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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Diálogo sobre as
grandezas do Brasil
Interlocutores
de
diversas épocas
discutem o
país cuja data se
comemora no
Sete de Setembro
Numa terra radiosa vive um povo triste. Legaram-lhe essa melancolia
os descobridores que a revelaram ao mundo e a povoaram. O esplêndido
dinamismo dessa gente rude obedecia a dois grandes impulsos que
dominam toda a psicologia da descoberta e nunca foram geradores
de alegria: a ambição do ouro e a sensualidade livre
e infrene que, como culto, a Renascença fizera ressuscitar.
(Paulo Prado, escritor, Retrato do Brasil, 1928)
O Brasil não tem povo. (Louis Couty, biólogo francês,
A Escravidão no Brasil, 1881)
Apesar disso o Brasil passou a ser uma nação mais
ou menos independente, tendo como imperador o barão de Rothschild.
(Mendes Fradique, humorista, História do Brasil pelo Método
Confuso, 1920)
Os brasileiros são entusiastas do belo ideal, amigos da sua
liberdade, e mal sofrem perder as regalias que uma vez adquiriram.
Obedientes ao justo, inimigos do arbitrário, suportam melhor
o roubo que o vilipêndio. Ignorantes por falta de instrução,
mas cheios de talento por natureza; de imaginação
brilhante, e por isso amigos das novidades que prometem perfeição
e enobrecimento; generosos, mas com bazófia; capazes de grandes
ações, contanto que não exijam atenção
aturada, e não requeiram trabalho assíduo e monotônico;
apaixonados do sexo por clima, vida e educação. Empreendem
muito, acabam pouco. Serão os atenienses da América,
se não forem comprimidos e tiranizados pelo despotismo. (José
Bonifácio de Andrada e Silva, Patriarca da Independência,
Pensamentos e Notas, sem data)
O Brasil é um vasto hospital. (Miguel Couto, médico
e escritor, 1864-1934)
Pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são.
(Mário de Andrade, escritor, pela boca do personagem-título
de Macunaíma, 1928)
Há em nosso povo duas constantes que nos induzem a sustentar
que o Brasil é o único país brasileiro de todo
o mundo. Brasileiro até demais. Colunas da brasilidade, as
duas colunas são: a capacidade de dar um jeito; a capacidade
de adiar. (...) Para o brasileiro, os atos fundamentais da existência
são: nascimento, reprodução, procrastinação
e morte (esta última, se possível, também adiada).
(...) O brasileiro adia; logo existe. (Paulo Mendes Campos, escritor,
O Colunista do Morro, 1965)
O Brasil é um deserto de homens e idéias. (Oswaldo
Aranha, político e diplomata, 1933)
Em suma: temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha
e, por vezes, invalida nossas qualidades. Quero aludir ao que eu
poderia chamar de "complexo de vira-latas". (...) Por "complexo
de vira-latas", entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se
coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isso em todos
os setores e, sobretudo, no futebol. (...) O brasileiro precisa
se convencer de que não é um vira-latas e que tem
futebol para dar e vender, lá na Suécia. (Nelson Rodrigues,
escritor, Complexo de Vira-Latas, crônica publicada
em 31 de maio de 1958, às vésperas da Copa do Mundo
da Suécia)
O brasileiro é um homem que deseja apaixonadamente morar
em Paris. (Conde de Gobineau, escritor e diplomata francês,
embaixador no Brasil entre 1869 e 1870)
Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição
brasileira para a civilização será de cordialidade
daremos ao mundo o "homem cordial". A lhaneza no trato, a
hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros
que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido
do caráter brasileiro (...). Seria engano supor que essas
virtudes possam significar "boas maneiras", civilidade. São
antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo
extremamente rico e transbordante. (Sérgio Buarque de Holanda,
historiador, Raízes do Brasil, 1936)
O brasileiro é cheio de cordialidade e bom coração.
Quando você encontrar por aí um cafajeste roubando
e matando pode perguntar imediatamente "Who are you?", porque se
trata certamente de um gringo. (Millôr Fernandes, humorista,
Millôr Definitivo, 1994)
Eu digo sempre que o Brasil é um país abençoado,
porque Deus nos deu esse solo extraordinário, com uma extensão
territorial fantástica, sem as intempéries que acontecem
na maioria de outros países. Nós não temos
vulcão, não temos maremoto, não temos vendaval,
como tem em outros países, não temos neve, ou seja,
nós temos todas as condições que a natureza
nos deu como vantagem comparativa. (Luiz Inácio Lula da Silva,
presidente da República, 2004)
O país, no dizer de todos, é rico, tem todos os minerais,
todos os vegetais úteis, todas as condições
de riqueza, mas vive na miséria. (Lima Barreto, escritor,
Os Bruzundangas, 1922)
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