Edição 1870 . 8 de setembro de 2004

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Televisão
Futebol, dinheiro e lágrimas

Ele acumula polêmicas e chora quando
fala do passado. Assim é
o apresentador
Milton Neves, que fatura alto com seus
debates sobre esporte


Ricardo Valladares

 
Claudio Rossi
Milton Neves em seu casarão: patrimônio de 30 milhões de reais

A televisão tem três moedas para remunerar suas estrelas: celebridade, prestígio e dinheiro. Os ganhos em cada moeda não precisam ser iguais – na verdade raramente são –, e Milton Neves é um exemplo disso. Apresentador, na Rede Record, dos programas Debate Bola e Terceiro Tempo, ambos sobre futebol ("o assunto mais importante dentre os menos importantes", como gosta de dizer), Neves não é uma celebridade de primeira grandeza, daquelas assediadas por fãs. Desfruta algum respeito por sua longa trajetória de comentarista esportivo, mas também coleciona críticos e desafetos em seu meio. Quando o assunto é dinheiro, porém, Milton Neves é um fenômeno. Com apenas cinco anos de TV, só fica atrás de veteranos como Gugu, Faustão e Ratinho. O segredo está no talento para explorar o merchandising – a grande mina de ouro para qualquer apresentador. Embora a audiência média de seus programas seja de apenas 4 pontos, eles têm hoje sete anunciantes. A participação na receita de publicidade, somada ao salário que a Record lhe paga, faz com que Neves fature 850.000 reais por mês. Somem-se a isso seus rendimentos no rádio e na agência de mídia de que é dono, e a quantia sobe a 1,2 milhão de reais. "Do que tenho, 90% saíram da TV", diz Neves. Seu patrimônio é de 30 milhões de reais.

Milton Neves acumula polêmicas na televisão. Seus piores inimigos são Juca Kfouri e Jorge Kajuru. Contra o último, ele tem quatro processos na Justiça. "Ainda vou pôr o sujeito na cadeia", diz. Além de cultivar o estilo ranzinza de tantos comentaristas de futebol, ele é considerado vaidoso e arrogante por pessoas do meio. Quando fala sobre seu passado e sua carreira, contudo, Milton Neves, de 53 anos, revela um sentimentalismo inesperado. Ele chora. Numa tarde de entrevista, fez isso nada menos que cinco vezes. O apresentador nasceu em Muzambinho, no interior de Minas Gerais. Decidiu ser locutor de rádio aos 15 anos, quando o animador de uma quermesse pediu que ele o ajudasse a testar o microfone e sua voz agradou. Em 1972, mudou-se para São Paulo e realizou o desejo de ser locutor. No ano seguinte, entrou no lugar de Fausto Silva, o Faustão da Rede Globo, como plantonista de esportes na Jovem Pan. "Faustão dizia que não cabia na cadeira e deixou o lugar para mim", conta Neves. Mas as coisas só começaram a entrar nos eixos nove anos mais tarde, quando estreou o Terceiro Tempo. "Antes disso, passei períodos muito duros", lembra ele, com lágrimas nos olhos.

Ainda hoje o rádio é importante para Milton Neves. Todos os dias ele bate ponto na Jovem Pan. Literalmente. Além dos empregos principais, Neves faz vários "bicos": colabora com jornais, mantém um site na internet e aparece em outras emissoras e canais. Ele grava a cada quinze dias um informe para a TV AmBev, canal interno da fabricante de bebidas, que é uma de suas grandes patrocinadoras. Também grava um programa semanal para a TV Assembléia de São Paulo. Faz isso porque é escrivão de polícia concursado. "Prestei o concurso nos anos 70, numa época de vacas magras em que não conseguia pagar as prestações da casa própria", conta ele. Em vez de cumprir expediente numa delegacia, ele grava o programa (e doa o salário de 2.500 reais a uma instituição de caridade). Aos domingos, dia de futebol, sua jornada é estafante. Ele sai de casa de manhã – e não volta. Ocupa-se com as locuções de rádio e com a apresentação do Terceiro Tempo. Quando o programa acaba, por volta da meia-noite, ele acomoda o corpanzil de 1,90 metro na caminha de solteiro de um camarim da Record e passa a noite ali mesmo.

A obsessão com o trabalho cobrou seu preço na vida pessoal. "Quem criou meus filhos foi minha mulher. Fui um péssimo pai, tão ausente que os três garotos são são-paulinos", diz Milton Neves, que torce para o Santos. Nos últimos tempos, o apresentador vem tentando dedicar mais tempo à família, que acaba de se mudar para um casarão de 2 000 metros quadrados em São Paulo. "Ele faz mesa-redonda com os meninos para discutir as questões da casa", diz Lenice, sua mulher desde 1978. "Além disso, está apaixonado pela primeira neta." Lenice duvida, porém, que o marido vá reduzir o ritmo. De fato, ele tem mais dois anos de contrato com a Record. E, na semana passada, estava negociando um programa diário na Rede Mulher. "Ele não consegue ficar longe de um microfone. Fez até um canteiro em formato de microfone aqui no jardim", diz Lenice.

 
Fotos Claudio Rossi
Ele bate cartão na Jovem Pan e dorme num quartinho na Record: viciado em trabalho

 

 
 
 
 
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