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| Especial
A batalha de dois séculos
O movimento
separatista checheno
vem do tempo dos czares. Hoje, é Putin
que o combate com mão de ferro

Okky de Souza
AP
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TERROR
NO TEATRO
Atentado
em Moscou em 2002: morte por gás misterioso
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A tragédia
da semana passada na escola da cidade de Beslan mostrou a extensão
de um dos conflitos regionais mais longos e violentos da história.
Há mais de dois séculos, a Chechênia, localizada
no Cáucaso, uma região montanhosa entre os mares Negro
e Cáspio, é palco de sangrentas batalhas. A primeira
investida dos russos para subjugar os chechenos e outros povos caucasianos,
no fim do século XVIII, fracassou as tropas czaristas
não conseguiram impor-se diante do emaranhado de clãs
de origem persa que formavam a sociedade local.
A
dominação russa foi estabelecida, ainda assim de maneira
precária, ao cabo de uma guerra de mais de trinta anos, na
primeira metade do século XIX. As atrocidades das tropas
czaristas e a resistência chechena comandada pelo imã
Shamil foram descritas nos romances do escritor Leon Tolstoi. A
resistência das populações locais a invasores
só teve um momento de distensão durante os 75 anos
em que a província esteve sob o jugo da União Soviética.
Os comunistas soviéticos suprimiam com extrema eficiência
e máxima violência as insurgências contra Moscou
tudo feito longe dos olhos do mundo, atrás da Cortina
de Ferro. Em 1944, o ditador Josef Stalin deportou a maioria da
população para a Sibéria, sob a acusação
de colaboração com os nazistas. Os chechenos só
puderam voltar para sua terra natal nos anos 50, após a morte
do ditador.
O
esfacelamento do império soviético, em 1991, abriu
uma brecha para os chechenos declararem sua independência.
A iniciativa foi prontamente rechaçada por Moscou, que via
na reivindicação separatista um péssimo exemplo
para as outras vinte repúblicas e 68 regiões autônomas
que compõem a Federação Russa. Além
disso, a Chechênia tem importância estratégica
é um importante centro de refinação
de petróleo e abriga os oleodutos que levam o produto até
a Ásia Central. O impasse se estendeu até 1994, quando
o então presidente russo Boris Ieltsin despachou tropas para
esmagar o movimento separatista. A guerra durou dois anos e terminou
de forma melancólica para Moscou. Os bombardeios arrasaram
a capital, Grozni, mas o Exército russo foi incapaz de derrotar
todos os grupos rebeldes. O governo russo deixou os chechenos desfrutarem
de uma independência relativa. Durou pouco. Em 1999, as tropas
russas ocuparam a Chechênia. Antes e depois dessa ação,
os chechenos deflagraram uma série de ações
terroristas. Numa delas, mataram mais de 100 pessoas num hospital
do sul da Rússia. Noutra, ataques a bomba perpetrados ao
longo de três semanas produziram três centenas de cadáveres.
Meses incessantes de bombardeios praticamente riscaram do mapa o
que restava de Grozni e deixaram clara a intenção
do presidente russo, Vladimir Putin, de combater as aspirações
separatistas dos chechenos a todo custo, mesmo sacrificando a vida
de civis russos.
A
disposição intransigente de Moscou de manter a Chechênia
como parte integrante da Federação Russa reativou
o ódio ancestral. A maioria islâmica da Chechênia
e sua luta contra o poder central atraíram a atenção
da rede terrorista Al Qaeda, que viu na região um bom caldo
de cultura para suas ações contra o Ocidente. Em 2002,
um grupo de terroristas islâmicos chechenos ocupou um teatro
em Moscou e manteve 700 pessoas como reféns. O Exército
russo ocupou o local e 120 deles foram mortos, por tiros ou pela
ação de um gás paralisante cuja fórmula
ainda é um mistério. Os dois grupos rebeldes mais
numerosos da Chechênia são comandados por antigos líderes
nacionalistas. Eles têm, pelo menos aparentemente, um certo
distanciamento do fundamentalismo islâmico. A inteligência
russa, no entanto, tem dados que comprovam o envolvimento profundo
da internacional terrorista Al Qaeda com os insurgentes chechenos.
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