Edição 1870 . 8 de setembro de 2004

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Especial
A batalha de dois séculos

O movimento separatista checheno
vem do tempo dos czares. Hoje, é Putin
que o combate com mão de ferro


Okky de Souza

 
AP

TERROR NO TEATRO
Atentado em Moscou em 2002: morte por gás misterioso


NESTA EDIÇÃO
O massacre dos inocentes (parte 1)
O massacre dos inocentes (parte 2)
À sombra da Al Qaeda

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Em Profundidade: Terror Internacional
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A tragédia da semana passada na escola da cidade de Beslan mostrou a extensão de um dos conflitos regionais mais longos e violentos da história. Há mais de dois séculos, a Chechênia, localizada no Cáucaso, uma região montanhosa entre os mares Negro e Cáspio, é palco de sangrentas batalhas. A primeira investida dos russos para subjugar os chechenos e outros povos caucasianos, no fim do século XVIII, fracassou — as tropas czaristas não conseguiram impor-se diante do emaranhado de clãs de origem persa que formavam a sociedade local.

A dominação russa foi estabelecida, ainda assim de maneira precária, ao cabo de uma guerra de mais de trinta anos, na primeira metade do século XIX. As atrocidades das tropas czaristas e a resistência chechena comandada pelo imã Shamil foram descritas nos romances do escritor Leon Tolstoi. A resistência das populações locais a invasores só teve um momento de distensão durante os 75 anos em que a província esteve sob o jugo da União Soviética. Os comunistas soviéticos suprimiam com extrema eficiência e máxima violência as insurgências contra Moscou — tudo feito longe dos olhos do mundo, atrás da Cortina de Ferro. Em 1944, o ditador Josef Stalin deportou a maioria da população para a Sibéria, sob a acusação de colaboração com os nazistas. Os chechenos só puderam voltar para sua terra natal nos anos 50, após a morte do ditador.

O esfacelamento do império soviético, em 1991, abriu uma brecha para os chechenos declararem sua independência. A iniciativa foi prontamente rechaçada por Moscou, que via na reivindicação separatista um péssimo exemplo para as outras vinte repúblicas e 68 regiões autônomas que compõem a Federação Russa. Além disso, a Chechênia tem importância estratégica — é um importante centro de refinação de petróleo e abriga os oleodutos que levam o produto até a Ásia Central. O impasse se estendeu até 1994, quando o então presidente russo Boris Ieltsin despachou tropas para esmagar o movimento separatista. A guerra durou dois anos e terminou de forma melancólica para Moscou. Os bombardeios arrasaram a capital, Grozni, mas o Exército russo foi incapaz de derrotar todos os grupos rebeldes. O governo russo deixou os chechenos desfrutarem de uma independência relativa. Durou pouco. Em 1999, as tropas russas ocuparam a Chechênia. Antes e depois dessa ação, os chechenos deflagraram uma série de ações terroristas. Numa delas, mataram mais de 100 pessoas num hospital do sul da Rússia. Noutra, ataques a bomba perpetrados ao longo de três semanas produziram três centenas de cadáveres. Meses incessantes de bombardeios praticamente riscaram do mapa o que restava de Grozni e deixaram clara a intenção do presidente russo, Vladimir Putin, de combater as aspirações separatistas dos chechenos a todo custo, mesmo sacrificando a vida de civis russos.

A disposição intransigente de Moscou de manter a Chechênia como parte integrante da Federação Russa reativou o ódio ancestral. A maioria islâmica da Chechênia e sua luta contra o poder central atraíram a atenção da rede terrorista Al Qaeda, que viu na região um bom caldo de cultura para suas ações contra o Ocidente. Em 2002, um grupo de terroristas islâmicos chechenos ocupou um teatro em Moscou e manteve 700 pessoas como reféns. O Exército russo ocupou o local e 120 deles foram mortos, por tiros ou pela ação de um gás paralisante cuja fórmula ainda é um mistério. Os dois grupos rebeldes mais numerosos da Chechênia são comandados por antigos líderes nacionalistas. Eles têm, pelo menos aparentemente, um certo distanciamento do fundamentalismo islâmico. A inteligência russa, no entanto, tem dados que comprovam o envolvimento profundo da internacional terrorista Al Qaeda com os insurgentes chechenos.

 
 
 
 
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