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Especial
O massacre
dos inocentes
(parte
2)
Não
existe fé ou causa, por
mais justa, que justifique o
assassínio indiscriminado de
quase 200 crianças como o
perpetrado por terroristas
islâmicos chechenos e árabes
na semana passada em Beslan, na Rússia. A ousadia
crescente e a crueldade sem limites do terror são o
maior desafio enfrentado pelo mundo civilizado

José Eduardo Barella
Fotos Reuters
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O
REENCONTRO COM A VIDA
Tensão
após o fim do seqüestro: socorro aos feridos e o choro do
filho no colo do pai (acima, à direita); crianças
seminuas por causa do calor recebem água (abaixo, à esquerda)
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Fotos AP
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Nada justifica a matança de quase duas
centenas de crianças como a cometida por um grupo de terroristas
islâmicos chechenos e árabes numa escola no interior
da Rússia, na semana passada. Durante três dias, 1
200 pessoas, 70% delas crianças, professores e pais, foram
submetidas a uma das piores atrocidades que um ser humano pode proporcionar
a outro a violência gratuita e a humilhação
deliberada, planejadas nos detalhes para causar, a título
de ação política, o máximo de dor e
desespero. O assalto aos inocentes teve início na quarta-feira,
quando três dezenas de terroristas invadiram o ginásio
da escola, onde pais e alunos comemoravam o primeiro dia de aula
do ano letivo russo, e terminou na sexta-feira, quando forças
policiais russas mataram a maioria dos terroristas e libertaram
os reféns sobreviventes. Em uma primeira contagem foram encontrados
mais de 200 mortos, incluídos os adultos. Mais de 700 feridos
foram atendidos em hospitais e tendas médicas improvisadas.
As cenas pungentes de homens carregando crianças queimadas
e dilaceradas e da fila de pequenos corpos mortos cobertos de lençóis,
transmitidas para todo o mundo pela televisão, abrem um novo
capítulo no entendimento da sombria ameaça representada
pelo terrorismo ao mundo civilizado.
Os responsáveis pelo ataque eram na
maioria chechenos, militantes separatistas vindos de uma republiqueta
autônoma da Federação Russa. Havia também
uma dezena de terroristas árabes entre eles, indício
seguro da existência de uma conexão com a Al Qaeda,
a central do terrorismo islâmico liderada por Osama bin Laden.
Se a questão na Chechênia fosse só nacionalismo,
já seria uma grande encrenca, mas se poderia encontrar uma
solução no mundo racional. Veja-se o exemplo dos separatistas
bascos, instalados numa das regiões mais prósperas
e civilizadas da Espanha, e, ainda assim, dispostos a matar seus
concidadãos pelo desejo de ter um país soberano. A
maioria deles já abandonou a luta armada em troca de maior
autonomia nos negócios regionais. O fundamentalismo islâmico,
com sua pauta de destruição da civilização
ocidental, coloca a luta dos chechenos num universo que a razão
não consegue compreender. "A raiz dos grupos chechenos é
nacionalista e secular, mas muitos deles perceberam que só
obteriam dinheiro e apoio internacional para sua causa se incorporassem
o discurso e o modo de ação da Al Qaeda", disse a
VEJA a americana Jessica Stern, da Universidade Harvard, especialista
em terrorismo religioso.
Por anos, o presidente russo, Vladimir Putin,
rejeitou palpite externo na Chechênia, sobretudo dos que reclamam
da violência de sua soldadesca na província, sob o
argumento de que se tratava de um assunto doméstico da Rússia.
O ataque da semana passada evidenciou que também aquele país
foi engolfado pela ofensiva islâmica. Apesar de a Rússia
já ter sido sacudida por atentados terríveis cometidos
pelos chechenos, o ataque às crianças foi de tal ordem
que significou, em muitos sentidos, o 11 de Setembro da Rússia.
Desde o primeiro momento da invasão da escola ficou evidente
que os terroristas estavam ali para matar os reféns
e, evidentemente, para morrer num banho de sangue infiel e, dessa
forma repugnante, ganhar um lugar no paraíso das 72 virgens.
As reivindicações eram do tipo que não pode
ser atendido (retirada das forças russas da Chechênia
e libertação de todos os terroristas presos). A experiência
internacional nesses casos indica que os pedidos exorbitantes do
primeiro momento são mais tarde abrandados em troca da sobrevivência
dos seqüestradores. O governo russo aprendeu que esse desfecho
nem sempre vale para fanáticos islâmicos, pois muitas
vezes eles estão ansiosos pelo martírio.
Fotos EFE
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TERROR
NA ESCOLA
Nos
momentos finais: o esforço para resgatar crianças mantidas
como reféns; abaixo, soldado russo ao lado do corpo de um
dos terroristas
|
AFP
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As autoridades russas fazem uma conta negativa
nesses casos. Registram todos os reféns como mortos e vão
subtraindo desse total aqueles que conseguirem sobreviver aos terroristas
e ao caos que costuma ocorrer durante as operações
de resgate pelas forças especiais. No caso das crianças
de Beslan, a cidadezinha de 30.000 habitantes
da Ossétia do Norte onde ocorreu o massacre, contudo, nem
o endurecido general oriundo da KGB aceitaria a idéia de
invadir o ginásio e deixar nas mãos de Deus a decisão
sobre qual daqueles loirinhos iria sobreviver. A data e o local
do assalto terrorista foram escolhidos com cuidado para causar esse
efeito devastador. A Chechênia e a Ossétia do Norte
ficam na mesma região, o Cáucaso. A diferença
marcante é que os chechenos são muçulmanos
e acabaram misturando seus objetivos nacionalistas com os da guerra
santa islâmica. Os ossetas são na maioria cristãos,
convivem pacificamente uns com os outros e até usufruem certa
prosperidade, apesar de sua república figurar entre as mais
pobres da federação.
O assassinato começou já na
tomada da escola. Mais de dez pessoas foram mortas nos primeiros
minutos, incluindo um pai de aluno que esboçou reação
e foi fuzilado na frente do filho. Diante da mobilização
militar em torno do prédio, os terroristas perfilaram alunos
nas janelas para que servissem de escudos humanos. Ameaçavam
fuzilar cinqüenta crianças de uma vez para cada guerrilheiro
morto por atiradores de elite postados do lado de fora. Depois que
a polícia cortou o fornecimento de eletricidade, a falta
de calefação elevou a temperatura para mais de 30
graus dentro do ginásio. Havia alunos de todas as séries,
entre 7 e 17 anos. A maioria das crianças era do curso primário.
Para enfrentar o calor, elas tiraram a roupa. Há relatos
de crescente perversidade dos terroristas. Eles proibiram as crianças
de comer e de tomar água. Podiam ir ao banheiro e aquelas
que tentaram beber no vaso sanitário foram impedidas com
tiros de metralhadora. Algumas beberam a própria urina, para
suprir a falta de líquido. Quando foram resgatadas, estavam
macilentas, famintas e desidratadas.
As forças russas estavam preparadas
para estender as negociações por muitos dias. Por
ordem do presidente, Vladimir Putin, as conversas com os separatistas
começaram logo no primeiro dia. Na manhã seguinte,
26 mulheres com bebês de colo foram libertadas. Contaram que
isso se devia sobretudo ao fato de o choro das crianças irritar
os seqüestradores. As negociações continuaram
na manhã de sexta-feira. As autoridades conseguiram autorização
para retirar os corpos das pessoas que haviam sido mortas dois dias
antes. A seqüência exata de eventos não é
clara a partir desse momento. Ao meio-dia, a ambulância enviada
para recolher os cadáveres foi recebida a tiros ao se aproximar
do ginásio. Em seguida se ouviu uma explosão. Mais
tarde, uma criança que escapou através de uma janela
contou que uma das terroristas explodiu o cinturão de bombas
que levava em torno do corpo, matando grande quantidade de crianças.
Talvez tenha sido uma detonação acidental. A explosão
precipitou a carnificina. Outra versão sobre os acontecimentos
diz que alguns reféns conseguiram escapar e, na fuga, acionaram
as minas que os seqüestradores haviam plantado na saída
da escola. Na confusão, os terroristas saíram do prédio
atirando nas crianças pelas costas.
A reação das forças especiais
foi invadir o prédio e lutar com os terroristas de sala em
sala. A escola virou um campo de batalha. Helicópteros e
tanques do Exército russo enviados ao local foram recebidos
com tiros de metralhadora e granadas. Bombas instaladas pelos terroristas
dentro do prédio explodiram e derrubaram o teto do ginásio,
onde os reféns estavam sendo mantidos sob a mira de armas.
A queda do telhado foi, provavelmente, o evento isolado que causou
o maior número de vítimas. O teto havia desaparecido
inteiramente. A batalha na escola durou doze horas. Alguns terroristas
tentaram fugir disfarçados entre os reféns ou se esconder
em casas das redondezas e três deles buscaram refúgio
no porão, mas acabaram todos capturados ou mortos. O cenário
era de pesadelo. Um voluntário que entrou nos escombros do
ginásio para ajudar a retirar os corpos contou que o piso
estava coberto de cadáveres, uns sobre os outros, a maioria
carbonizada. Na madrugada de sábado, novas explosões
foram ouvidas na escola. Mas era apenas o trabalho de desativação
das minas deixadas pelos separatistas chechenos. No total, 400 reféns
foram libertados e 27 terroristas mortos, incluídos os dez
árabes, identificados pelos documentos que levavam.
Os russos conquistaram a Chechênia há
mais de 200 anos. Desde então enfrentam movimentos armados
pela independência por lá, uns mais intensos que os
outros. Na verdade, a república só foi independente
por uns poucos anos, no caos que se seguiu à revolução
bolchevique. No fim da II Guerra, Stalin acusou os chechenos de
terem colaborado com os nazistas e deportou toda a população
para a Sibéria. Puderam voltar depois da morte do ditador,
nos anos 50. Em 1991, quando a União Soviética enrolou
a bandeira, os chechenos aproveitaram para declarar a independência,
que não foi reconhecida por nenhum país. Três
anos depois, a Rússia tentou esmagar a rebelião, mas
suas tropas foram vergonhosamente derrotadas. A situação
teria ficado por aí se, em 1999, fanáticos muçulmanos
saídos da Chechênia não tivessem tentado implantar
um regime islâmico numa província vizinha. Desafiado,
Putin invadiu novamente o país e, na luta, destruiu a capital
chechena, Grozni. Os separatistas responderam dinamitando prédios
inteiros na Rússia, matando todos os moradores. Putin, por
sua vez, deu carta branca para suas tropas tratarem a Chechênia
como território ocupado, com prisões em massa e fuzilamentos
sem julgamento. Desde que passaram a contar com a assessoria técnica
de terroristas chechenos e árabes treinados pela Al Qaeda,
os separatistas cometeram atentados terríveis na Rússia,
como a tomada de um teatro em Moscou, que terminou com a morte de
120 reféns. Nessa conversão às táticas
da Al Qaeda, chama atenção a utilização
de mulheres-bombas. Impressiona que a mesma mentalidade que valoriza
o culto do martírio, típico do terrorismo fundamentalista
islâmico, tenha sido incorporada por mulheres, visto que na
religião muçulmana elas não têm direito
ao paraíso, seja lá o que façam para merecê-lo.
A maioria dos últimos atentados suicidas chechenos foi praticada
por mulheres conhecidas como viúvas-negras. Elas levam esse
nome por ter supostamente perdido o marido, filhos ou algum parente
próximo em confrontos com as tropas russas ao longo do conflito.
É nesse ponto terrível do pesadelo que estamos.
O terrorismo é, com freqüência,
discutido sem ter sido definido ou qualificado. Muita gente trata
o assunto com pudor, temerosa de que ao condenar a prática
esteja ao mesmo tempo retirando legitimidade da causa em nome da
qual os terroristas dizem agir. É um falso dilema, pois não
há legitimidade em matar indefesos. O que distingue o terrorismo
do combate convencional, e mesmo da luta revolucionária,
é a ênfase no ataque a pessoas ou alvos sem justificativa
da necessidade militar. A estratégia terrorista consiste
em lançar ataques ao acaso contra a população,
de preferência quando está indefesa em suas atividades
cotidianas, em supermercados, estações de metrô,
restaurantes, aeroportos, escolas. Faz isso porque seu objetivo
não é conquistar, nem mesmo vencer. Sua intenção
é apenas aterrorizar e, dessa forma, tentar dobrar pelo medo
toda uma sociedade. Uma variação na teoria que justifica
esses ataques aleatórios amplamente utilizada pelo
terror palestino contra os israelenses é a de que
todos os membros de uma determinada população (mulheres,
crianças, velhos) partilham dos pecados do regime que combatem
e devem pagar por isso. É dessa vertente que se alimentam
os fanáticos do fundamentalismo islâmico que derrubaram
as torres gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001,
explodiram os trens em Madri no início deste ano e, agora,
trucidaram criancinhas na Rússia.
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