Edição 1870 . 8 de setembro de 2004

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NESTA REPORTAGEM
Gráfico: Tragédia na escola

NESTA EDIÇÃO
O massacre dos inocentes (parte 1)
A batalha de dois séculos
À sombra da Al Qaeda

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Terror Internacional
Galeria de fotos
Especial
O massacre
dos inocentes
(parte 2)

Não existe fé ou causa, por
mais justa, que justifique o
assassínio indiscriminado de
quase 200 crianças como o
perpetrado por terroristas
islâmicos chechenos e árabes
na semana passada em Beslan, na Rússia. A ousadia
crescente e a crueldade sem limites do terror são o
maior desafio enfrentado pelo mundo civilizado


José Eduardo Barella

 
Fotos Reuters

O REENCONTRO COM A VIDA
Tensão após o fim do seqüestro: socorro aos feridos e o choro do filho no colo do pai (acima, à direita); crianças seminuas por causa do calor recebem água (abaixo, à esquerda)

Fotos AP

Nada justifica a matança de quase duas centenas de crianças como a cometida por um grupo de terroristas islâmicos chechenos e árabes numa escola no interior da Rússia, na semana passada. Durante três dias, 1 200 pessoas, 70% delas crianças, professores e pais, foram submetidas a uma das piores atrocidades que um ser humano pode proporcionar a outro — a violência gratuita e a humilhação deliberada, planejadas nos detalhes para causar, a título de ação política, o máximo de dor e desespero. O assalto aos inocentes teve início na quarta-feira, quando três dezenas de terroristas invadiram o ginásio da escola, onde pais e alunos comemoravam o primeiro dia de aula do ano letivo russo, e terminou na sexta-feira, quando forças policiais russas mataram a maioria dos terroristas e libertaram os reféns sobreviventes. Em uma primeira contagem foram encontrados mais de 200 mortos, incluídos os adultos. Mais de 700 feridos foram atendidos em hospitais e tendas médicas improvisadas. As cenas pungentes de homens carregando crianças queimadas e dilaceradas e da fila de pequenos corpos mortos cobertos de lençóis, transmitidas para todo o mundo pela televisão, abrem um novo capítulo no entendimento da sombria ameaça representada pelo terrorismo ao mundo civilizado.

Os responsáveis pelo ataque eram na maioria chechenos, militantes separatistas vindos de uma republiqueta autônoma da Federação Russa. Havia também uma dezena de terroristas árabes entre eles, indício seguro da existência de uma conexão com a Al Qaeda, a central do terrorismo islâmico liderada por Osama bin Laden. Se a questão na Chechênia fosse só nacionalismo, já seria uma grande encrenca, mas se poderia encontrar uma solução no mundo racional. Veja-se o exemplo dos separatistas bascos, instalados numa das regiões mais prósperas e civilizadas da Espanha, e, ainda assim, dispostos a matar seus concidadãos pelo desejo de ter um país soberano. A maioria deles já abandonou a luta armada em troca de maior autonomia nos negócios regionais. O fundamentalismo islâmico, com sua pauta de destruição da civilização ocidental, coloca a luta dos chechenos num universo que a razão não consegue compreender. "A raiz dos grupos chechenos é nacionalista e secular, mas muitos deles perceberam que só obteriam dinheiro e apoio internacional para sua causa se incorporassem o discurso e o modo de ação da Al Qaeda", disse a VEJA a americana Jessica Stern, da Universidade Harvard, especialista em terrorismo religioso.

Por anos, o presidente russo, Vladimir Putin, rejeitou palpite externo na Chechênia, sobretudo dos que reclamam da violência de sua soldadesca na província, sob o argumento de que se tratava de um assunto doméstico da Rússia. O ataque da semana passada evidenciou que também aquele país foi engolfado pela ofensiva islâmica. Apesar de a Rússia já ter sido sacudida por atentados terríveis cometidos pelos chechenos, o ataque às crianças foi de tal ordem que significou, em muitos sentidos, o 11 de Setembro da Rússia. Desde o primeiro momento da invasão da escola ficou evidente que os terroristas estavam ali para matar os reféns — e, evidentemente, para morrer num banho de sangue infiel e, dessa forma repugnante, ganhar um lugar no paraíso das 72 virgens. As reivindicações eram do tipo que não pode ser atendido (retirada das forças russas da Chechênia e libertação de todos os terroristas presos). A experiência internacional nesses casos indica que os pedidos exorbitantes do primeiro momento são mais tarde abrandados em troca da sobrevivência dos seqüestradores. O governo russo aprendeu que esse desfecho nem sempre vale para fanáticos islâmicos, pois muitas vezes eles estão ansiosos pelo martírio.


Fotos EFE

TERROR NA ESCOLA
Nos momentos finais: o esforço para resgatar crianças mantidas como reféns; abaixo, soldado russo ao lado do corpo de um dos terroristas

AFP

As autoridades russas fazem uma conta negativa nesses casos. Registram todos os reféns como mortos e vão subtraindo desse total aqueles que conseguirem sobreviver aos terroristas e ao caos que costuma ocorrer durante as operações de resgate pelas forças especiais. No caso das crianças de Beslan, a cidadezinha de 30.000 habitantes da Ossétia do Norte onde ocorreu o massacre, contudo, nem o endurecido general oriundo da KGB aceitaria a idéia de invadir o ginásio e deixar nas mãos de Deus a decisão sobre qual daqueles loirinhos iria sobreviver. A data e o local do assalto terrorista foram escolhidos com cuidado para causar esse efeito devastador. A Chechênia e a Ossétia do Norte ficam na mesma região, o Cáucaso. A diferença marcante é que os chechenos são muçulmanos e acabaram misturando seus objetivos nacionalistas com os da guerra santa islâmica. Os ossetas são na maioria cristãos, convivem pacificamente uns com os outros e até usufruem certa prosperidade, apesar de sua república figurar entre as mais pobres da federação.

O assassinato começou já na tomada da escola. Mais de dez pessoas foram mortas nos primeiros minutos, incluindo um pai de aluno que esboçou reação e foi fuzilado na frente do filho. Diante da mobilização militar em torno do prédio, os terroristas perfilaram alunos nas janelas para que servissem de escudos humanos. Ameaçavam fuzilar cinqüenta crianças de uma vez para cada guerrilheiro morto por atiradores de elite postados do lado de fora. Depois que a polícia cortou o fornecimento de eletricidade, a falta de calefação elevou a temperatura para mais de 30 graus dentro do ginásio. Havia alunos de todas as séries, entre 7 e 17 anos. A maioria das crianças era do curso primário. Para enfrentar o calor, elas tiraram a roupa. Há relatos de crescente perversidade dos terroristas. Eles proibiram as crianças de comer e de tomar água. Podiam ir ao banheiro e aquelas que tentaram beber no vaso sanitário foram impedidas com tiros de metralhadora. Algumas beberam a própria urina, para suprir a falta de líquido. Quando foram resgatadas, estavam macilentas, famintas e desidratadas.

As forças russas estavam preparadas para estender as negociações por muitos dias. Por ordem do presidente, Vladimir Putin, as conversas com os separatistas começaram logo no primeiro dia. Na manhã seguinte, 26 mulheres com bebês de colo foram libertadas. Contaram que isso se devia sobretudo ao fato de o choro das crianças irritar os seqüestradores. As negociações continuaram na manhã de sexta-feira. As autoridades conseguiram autorização para retirar os corpos das pessoas que haviam sido mortas dois dias antes. A seqüência exata de eventos não é clara a partir desse momento. Ao meio-dia, a ambulância enviada para recolher os cadáveres foi recebida a tiros ao se aproximar do ginásio. Em seguida se ouviu uma explosão. Mais tarde, uma criança que escapou através de uma janela contou que uma das terroristas explodiu o cinturão de bombas que levava em torno do corpo, matando grande quantidade de crianças. Talvez tenha sido uma detonação acidental. A explosão precipitou a carnificina. Outra versão sobre os acontecimentos diz que alguns reféns conseguiram escapar e, na fuga, acionaram as minas que os seqüestradores haviam plantado na saída da escola. Na confusão, os terroristas saíram do prédio atirando nas crianças pelas costas.

A reação das forças especiais foi invadir o prédio e lutar com os terroristas de sala em sala. A escola virou um campo de batalha. Helicópteros e tanques do Exército russo enviados ao local foram recebidos com tiros de metralhadora e granadas. Bombas instaladas pelos terroristas dentro do prédio explodiram e derrubaram o teto do ginásio, onde os reféns estavam sendo mantidos sob a mira de armas. A queda do telhado foi, provavelmente, o evento isolado que causou o maior número de vítimas. O teto havia desaparecido inteiramente. A batalha na escola durou doze horas. Alguns terroristas tentaram fugir disfarçados entre os reféns ou se esconder em casas das redondezas e três deles buscaram refúgio no porão, mas acabaram todos capturados ou mortos. O cenário era de pesadelo. Um voluntário que entrou nos escombros do ginásio para ajudar a retirar os corpos contou que o piso estava coberto de cadáveres, uns sobre os outros, a maioria carbonizada. Na madrugada de sábado, novas explosões foram ouvidas na escola. Mas era apenas o trabalho de desativação das minas deixadas pelos separatistas chechenos. No total, 400 reféns foram libertados e 27 terroristas mortos, incluídos os dez árabes, identificados pelos documentos que levavam.

Os russos conquistaram a Chechênia há mais de 200 anos. Desde então enfrentam movimentos armados pela independência por lá, uns mais intensos que os outros. Na verdade, a república só foi independente por uns poucos anos, no caos que se seguiu à revolução bolchevique. No fim da II Guerra, Stalin acusou os chechenos de terem colaborado com os nazistas e deportou toda a população para a Sibéria. Puderam voltar depois da morte do ditador, nos anos 50. Em 1991, quando a União Soviética enrolou a bandeira, os chechenos aproveitaram para declarar a independência, que não foi reconhecida por nenhum país. Três anos depois, a Rússia tentou esmagar a rebelião, mas suas tropas foram vergonhosamente derrotadas. A situação teria ficado por aí se, em 1999, fanáticos muçulmanos saídos da Chechênia não tivessem tentado implantar um regime islâmico numa província vizinha. Desafiado, Putin invadiu novamente o país e, na luta, destruiu a capital chechena, Grozni. Os separatistas responderam dinamitando prédios inteiros na Rússia, matando todos os moradores. Putin, por sua vez, deu carta branca para suas tropas tratarem a Chechênia como território ocupado, com prisões em massa e fuzilamentos sem julgamento. Desde que passaram a contar com a assessoria técnica de terroristas chechenos e árabes treinados pela Al Qaeda, os separatistas cometeram atentados terríveis na Rússia, como a tomada de um teatro em Moscou, que terminou com a morte de 120 reféns. Nessa conversão às táticas da Al Qaeda, chama atenção a utilização de mulheres-bombas. Impressiona que a mesma mentalidade que valoriza o culto do martírio, típico do terrorismo fundamentalista islâmico, tenha sido incorporada por mulheres, visto que na religião muçulmana elas não têm direito ao paraíso, seja lá o que façam para merecê-lo. A maioria dos últimos atentados suicidas chechenos foi praticada por mulheres conhecidas como viúvas-negras. Elas levam esse nome por ter supostamente perdido o marido, filhos ou algum parente próximo em confrontos com as tropas russas ao longo do conflito. É nesse ponto terrível do pesadelo que estamos.

O terrorismo é, com freqüência, discutido sem ter sido definido ou qualificado. Muita gente trata o assunto com pudor, temerosa de que ao condenar a prática esteja ao mesmo tempo retirando legitimidade da causa em nome da qual os terroristas dizem agir. É um falso dilema, pois não há legitimidade em matar indefesos. O que distingue o terrorismo do combate convencional, e mesmo da luta revolucionária, é a ênfase no ataque a pessoas ou alvos sem justificativa da necessidade militar. A estratégia terrorista consiste em lançar ataques ao acaso contra a população, de preferência quando está indefesa em suas atividades cotidianas, em supermercados, estações de metrô, restaurantes, aeroportos, escolas. Faz isso porque seu objetivo não é conquistar, nem mesmo vencer. Sua intenção é apenas aterrorizar e, dessa forma, tentar dobrar pelo medo toda uma sociedade. Uma variação na teoria que justifica esses ataques aleatórios — amplamente utilizada pelo terror palestino contra os israelenses — é a de que todos os membros de uma determinada população (mulheres, crianças, velhos) partilham dos pecados do regime que combatem e devem pagar por isso. É dessa vertente que se alimentam os fanáticos do fundamentalismo islâmico que derrubaram as torres gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001, explodiram os trens em Madri no início deste ano e, agora, trucidaram criancinhas na Rússia.

 
 
 
 
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