|
|
Brasil
Alguém segura este país?
O Planalto
aproveita sua melhor
semana e dá visibilidade a um novo
projeto:
a onda patriótica

Otávio Cabral
Ricardo Stuckert/PR
 |
|
Lula,
em visita pelo
interior do Brasil: popularidade
em bom patamar leva
presidente a fazer mais viagens
|
Com essa
frase, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou na
semana passada uma reunião com dois de seus principais ministros,
no Palácio do Planalto. Exultante com o anúncio de
que a taxa de crescimento econômico superou as previsões
otimistas, Lula comemorava um evento raríssimo em sua gestão:
a conjugação de boas notícias políticas,
como a dianteira de vários candidatos petistas nas pesquisas
eleitorais, com boas notícias econômicas, como a alta
de 4,2% do PIB no primeiro semestre deste ano e tudo isso
sem que o governo tivesse criado uma crise qualquer ou disparado
uma rajada de fogo amigo. A satisfação do presidente
também encontra apoio nas pesquisas de popularidade, nas
quais exibe a vistosa taxa de 35%. Com tamanha bonança às
vésperas da semana da pátria, o governo está
aproveitando o embalo para dar visibilidade a uma novidade inédita
desde os tempos do regime militar (1964-1985): o apelo ao patriotismo.
Um momento
alto da campanha nacionalista será encenado nesta semana
em que o Brasil comemora 182 anos de independência. Na segunda-feira
6, o presidente Lula planeja receber os atletas brasileiros que
obtiveram medalha nas Olimpíadas de Atenas, em que o país
conseguiu seu melhor desempenho com dez medalhas, das quais quatro
de ouro. No dia seguinte, os esportistas participam das festividades
do Dia da Independência na Esplanada dos Ministérios,
decorada para a comemoração desde a semana passada,
com gigantescas faixas verde-amarelas caindo do alto dos prédios
até o gramado. Em 2003, o governo transferiu a festa de um
bairro militar para a Esplanada dos Ministérios, retirando
assim certa conotação militaresca do evento e atraindo
um público maior. Nas arquibancadas havia lugar para 4 000
pessoas. Agora, mantendo a linha de popularizar as comemorações
da Semana da Pátria, o governo montou arquibancadas na Esplanada
com capacidade para receber até 15.000 pessoas. Com atletas
olímpicos como estrelas, é possível que o Sete
de Setembro deste ano seja realmente popular.
Para coroar
a iniciativa, o ministro da Secretaria de Comunicação,
Luiz Gushiken, um dos ideólogos da valorização
dos símbolos da pátria, despachou 2.000 cartas a empresas
de todo o país pedindo que se empenhem em popularizar o Sete
de Setembro. Nos folhetos, o governo informa seu objetivo: "Aproximar
o Brasil dos brasileiros. Resgatar o patriotismo cívico,
o orgulho e a auto-estima de nosso povo. É com esse objetivo
que o governo federal transformou o Dia da Independência do
Brasil numa data ainda mais especial". Em seguida, o folheto alinha
sugestões de como as empresas podem marcar a data: distribuição
de camisetas, adesivos e bandeiras ou, no caso de prestadores de
serviço, lançamento de promoções de
tarifas na Semana da Pátria. "Assisto ao que se faz hoje
com muito interesse. A área de comunicação
é vital e neste governo há muito talento, muitos recursos,
muita importância", elogia o coronel reformado Octávio
Costa, 84 anos, que coordenou as campanhas patrióticas lançadas
no governo Emílio Médici (1969-1974), nas quais se
popularizaram o slogan "Brasil, ame-o ou deixe-o" e a música
Pra Frente, Brasil.
 |
 |
|
A
campanha da parceria público-privada: o próximo
astro será um ex-menino de rua, hoje pedagogo
|
A história
mostra que esses apelos patrióticos funcionam, mas deve-se
recorrer a eles com parcimônia e por tempo limitado. A partir
de certo ponto, essas campanhas podem soar como manipulação
ou intimidação. O presidente americano George W. Bush
passou dos limites com sua pregação de que quem não
for a favor da guerra ao terrorismo está, automaticamente,
contra os Estados Unidos. Hermann Goering (1893-1946), chefe do
partido nazista de Adolf Hitler, sustentava que o povo em qualquer
regime pode ser facilmente submetido à vontade de seus líderes.
Goering ensinava: "Basta dizer ao povo que o país está
sendo atacado e denunciar os pacifistas como impatriotas que colocam
em risco a segurança da pátria". Na análise
de David Fleischer, cientista político e professor da Universidade
de Brasília (UnB), a intenção do atual governo
é levantar a auto-estima da população, despertar
o civismo. "Isso é legítimo", diz ele. Fleischer lembra
que todas as democracias fazem isso. França e Estados Unidos
o fazem com especial fervor em suas datas nacionais. O ministro
Gushiken quer levar a campanha também para o exterior. Terá
como mote "O Brasil é moda" e abordará aspectos que
fazem sucesso lá fora, como as belezas naturais, as modelos,
os jogadores de futebol, a gastronomia, a capoeira.
A adesão
de empresários à onda de patriotismo do governo, numa
espécie de parceria público-privada, não é
novidade. Desde julho passado a Associação Brasileira
de Anunciantes (ABA) está promovendo uma campanha no rádio
e na televisão com o objetivo de resgatar a auto-estima do
brasileiro. A oposição suspeita que, por trás
dos comerciais que tentam resgatar a confiança no país,
haja uma disfarçada propaganda oficial. Não é
isso, mas existe, sim, uma coincidência de interesses. No
ano passado, durante reunião com representantes de agências
de publicidade, o ministro Luiz Gushiken comentou seu desejo de
ver a publicidade brasileira com cores mais patrióticas.
Em março deste ano, a ABA, que congrega grandes grupos empresariais,
teve a mesmíssima idéia. Com base em pesquisas que
mostravam que o brasileiro é o povo com a mais baixa auto-estima
da América Latina, a entidade começou a planejar a
campanha entre as associadas. Os primeiros comerciais, veiculados
gratuitamente, tiveram o jogador Ronaldo e o cantor Herbert Vianna
como estrelas. A agência encarregada da campanha, a Lew Lara,
é a mesma que presta serviços à secretaria
do ministro Gushiken. O próximo astro a participar será
Roberto Carlos, um pedagogo que foi menino de rua e fugiu 120 vezes
da Febem.
|