Edição 1870 . 8 de setembro de 2004

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Lya Luft
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Brasil
Alguém segura este país?

O Planalto aproveita sua melhor
semana e dá visibilidade a um novo
projeto:
a onda patriótica


Otávio Cabral

 
Ricardo Stuckert/PR

Lula, em visita pelo interior do Brasil: popularidade em bom patamar leva presidente a fazer mais viagens



NESTA REPORTAGEM
Quadro: Lula está feliz
da vida com...

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Notícias diárias sobre o governo Lula

Com essa frase, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou na semana passada uma reunião com dois de seus principais ministros, no Palácio do Planalto. Exultante com o anúncio de que a taxa de crescimento econômico superou as previsões otimistas, Lula comemorava um evento raríssimo em sua gestão: a conjugação de boas notícias políticas, como a dianteira de vários candidatos petistas nas pesquisas eleitorais, com boas notícias econômicas, como a alta de 4,2% do PIB no primeiro semestre deste ano – e tudo isso sem que o governo tivesse criado uma crise qualquer ou disparado uma rajada de fogo amigo. A satisfação do presidente também encontra apoio nas pesquisas de popularidade, nas quais exibe a vistosa taxa de 35%. Com tamanha bonança às vésperas da semana da pátria, o governo está aproveitando o embalo para dar visibilidade a uma novidade inédita desde os tempos do regime militar (1964-1985): o apelo ao patriotismo.

Um momento alto da campanha nacionalista será encenado nesta semana em que o Brasil comemora 182 anos de independência. Na segunda-feira 6, o presidente Lula planeja receber os atletas brasileiros que obtiveram medalha nas Olimpíadas de Atenas, em que o país conseguiu seu melhor desempenho com dez medalhas, das quais quatro de ouro. No dia seguinte, os esportistas participam das festividades do Dia da Independência na Esplanada dos Ministérios, decorada para a comemoração desde a semana passada, com gigantescas faixas verde-amarelas caindo do alto dos prédios até o gramado. Em 2003, o governo transferiu a festa de um bairro militar para a Esplanada dos Ministérios, retirando assim certa conotação militaresca do evento e atraindo um público maior. Nas arquibancadas havia lugar para 4 000 pessoas. Agora, mantendo a linha de popularizar as comemorações da Semana da Pátria, o governo montou arquibancadas na Esplanada com capacidade para receber até 15.000 pessoas. Com atletas olímpicos como estrelas, é possível que o Sete de Setembro deste ano seja realmente popular.

Para coroar a iniciativa, o ministro da Secretaria de Comunicação, Luiz Gushiken, um dos ideólogos da valorização dos símbolos da pátria, despachou 2.000 cartas a empresas de todo o país pedindo que se empenhem em popularizar o Sete de Setembro. Nos folhetos, o governo informa seu objetivo: "Aproximar o Brasil dos brasileiros. Resgatar o patriotismo cívico, o orgulho e a auto-estima de nosso povo. É com esse objetivo que o governo federal transformou o Dia da Independência do Brasil numa data ainda mais especial". Em seguida, o folheto alinha sugestões de como as empresas podem marcar a data: distribuição de camisetas, adesivos e bandeiras ou, no caso de prestadores de serviço, lançamento de promoções de tarifas na Semana da Pátria. "Assisto ao que se faz hoje com muito interesse. A área de comunicação é vital e neste governo há muito talento, muitos recursos, muita importância", elogia o coronel reformado Octávio Costa, 84 anos, que coordenou as campanhas patrióticas lançadas no governo Emílio Médici (1969-1974), nas quais se popularizaram o slogan "Brasil, ame-o ou deixe-o" e a música Pra Frente, Brasil.

 

A campanha da parceria público-privada: o próximo astro será um ex-menino de rua, hoje pedagogo

A história mostra que esses apelos patrióticos funcionam, mas deve-se recorrer a eles com parcimônia e por tempo limitado. A partir de certo ponto, essas campanhas podem soar como manipulação ou intimidação. O presidente americano George W. Bush passou dos limites com sua pregação de que quem não for a favor da guerra ao terrorismo está, automaticamente, contra os Estados Unidos. Hermann Goering (1893-1946), chefe do partido nazista de Adolf Hitler, sustentava que o povo em qualquer regime pode ser facilmente submetido à vontade de seus líderes. Goering ensinava: "Basta dizer ao povo que o país está sendo atacado e denunciar os pacifistas como impatriotas que colocam em risco a segurança da pátria". Na análise de David Fleischer, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB), a intenção do atual governo é levantar a auto-estima da população, despertar o civismo. "Isso é legítimo", diz ele. Fleischer lembra que todas as democracias fazem isso. França e Estados Unidos o fazem com especial fervor em suas datas nacionais. O ministro Gushiken quer levar a campanha também para o exterior. Terá como mote "O Brasil é moda" e abordará aspectos que fazem sucesso lá fora, como as belezas naturais, as modelos, os jogadores de futebol, a gastronomia, a capoeira.

A adesão de empresários à onda de patriotismo do governo, numa espécie de parceria público-privada, não é novidade. Desde julho passado a Associação Brasileira de Anunciantes (ABA) está promovendo uma campanha no rádio e na televisão com o objetivo de resgatar a auto-estima do brasileiro. A oposição suspeita que, por trás dos comerciais que tentam resgatar a confiança no país, haja uma disfarçada propaganda oficial. Não é isso, mas existe, sim, uma coincidência de interesses. No ano passado, durante reunião com representantes de agências de publicidade, o ministro Luiz Gushiken comentou seu desejo de ver a publicidade brasileira com cores mais patrióticas. Em março deste ano, a ABA, que congrega grandes grupos empresariais, teve a mesmíssima idéia. Com base em pesquisas que mostravam que o brasileiro é o povo com a mais baixa auto-estima da América Latina, a entidade começou a planejar a campanha entre as associadas. Os primeiros comerciais, veiculados gratuitamente, tiveram o jogador Ronaldo e o cantor Herbert Vianna como estrelas. A agência encarregada da campanha, a Lew Lara, é a mesma que presta serviços à secretaria do ministro Gushiken. O próximo astro a participar será Roberto Carlos, um pedagogo que foi menino de rua e fugiu 120 vezes da Febem.

 
 
 
 
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