Edição 1870 . 8 de setembro de 2004

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Diogo Mainardi
O irlandês ajudou

"Se não fosse por Horan, Vanderlei de Lima
não só não teria ganho a medalha de ouro
como teria chegado, pelos meus cálculos,
em sétimo lugar. O incidente com Horan
deu-lhe um gás a mais"

NA INTERNET
Arquivo de áudio, colunas anteriores e outras informações em www.veja.com.br/diogomainardi

Alguns leitores me acusaram de estar por trás de Cornelius Horan, o fanático religioso que, para anunciar o fim do mundo, interrompeu a marcha do maratonista brasileiro Vanderlei de Lima. Uma goiana disse que usei meus poderes vodus para assegurar a vitória do "carcamano que surrupiou o ouro". Um paraense disse que me irritei com o bom desempenho de nossos atletas e torci contra Vanderlei de Lima, que só não ganhou a maratona por causa daquele "maluco do Primeiro Mundo". Um rondoniense disse que Horan foi criado por minha imaginação. Um gaúcho disse que contratei o sujeito porque o Brasil estava ganhando medalhas demais. Um paranaense disse que Horan, na realidade, sou eu, de saiote, disposto a praticar qualquer indignidade para garantir a ultrapassagem do maratonista americano, porque minha meta é "derrubar o sonho dos brasileiros".

Primeiro: Horan está certo. O fim do mundo é mais importante que uma maratona. Arrependa-se. Os pecadores irão arder para sempre no fogo do inferno.

Segundo: se não fosse por Horan, Vanderlei de Lima não só não teria ganho a medalha de ouro como teria chegado, pelos meus cálculos, em sétimo lugar. Àquela altura da maratona, ele estava perdendo mais de vinte segundos por quilômetro. O incidente com Horan deu-lhe um gás a mais. O italiano que ganhou a maratona disse que, se tivesse acontecido com ele, simplesmente teria dado um safanão no intruso e seguido em frente.

Terceiro: os brasileiros são muito mais malucos que Horan. Sentem-se perseguidos pelo resto do mundo. Vêem maquinações dos países ricos em todos os seus fracassos. Acreditam que o episódio com Vanderlei de Lima só ocorreu porque a maratona estava sendo dominada por um brasileiro. Os vencedores das três últimas maratonas olímpicas foram um coreano, um sul-africano e um etíope. Ou seja, só atletas de países pobres. Nesta semana, Lula alimentou a paranóia nacional com mais uma teoria conspiratória. Disse que os países ricos, reunidos no G7, decidiram criar o G8 somente depois que o Brasil perdeu a condição de oitava economia do mundo, porque não podiam aceitar um país latino-americano entre os mais desenvolvidos. A declaração de Lula é uma mistura de delírio e ignorância. Os países ricos ampliaram o G7 para incluir a Rússia, que não é a oitava economia do mundo, mas uma superpotência nuclear. Além disso, o Brasil foi a oitava economia do mundo por umas poucas semanas em 1997, graças à moeda inflada artificialmente. A renda per capita, na época, era de mais de 4.700 dólares. Agora voltou à miséria bem mais realista de 2.700. Os brasileiros são doentes. Precisam se tratar.

Quarto: estou me lixando para as medalhas do Brasil. Eu queria apenas poupar seu dinheiro. Reclamei da enormidade que o governo gastou em propaganda ufanista durante o período olímpico, para abocanhar seu voto. O governo ganhou. Eu perdi. Você aí, no Pará, enrolado na bandeira, com a mão no peito, também perdeu. Não sei se o fim do mundo está chegando. Mas o fim do Brasil já chegou.

 
 
 
 
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