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Diogo
Mainardi
O irlandês ajudou
"Se não fosse por Horan, Vanderlei
de Lima
não só não teria ganho a medalha de ouro
como teria chegado, pelos meus cálculos,
em sétimo lugar. O incidente com Horan
deu-lhe um gás a mais"
Alguns leitores me acusaram de estar por trás
de Cornelius Horan, o fanático religioso que, para anunciar
o fim do mundo, interrompeu a marcha do maratonista brasileiro Vanderlei
de Lima. Uma goiana disse que usei meus poderes vodus para assegurar
a vitória do "carcamano que surrupiou o ouro". Um paraense
disse que me irritei com o bom desempenho de nossos atletas e torci
contra Vanderlei de Lima, que só não ganhou a maratona
por causa daquele "maluco do Primeiro Mundo". Um rondoniense disse
que Horan foi criado por minha imaginação. Um gaúcho
disse que contratei o sujeito porque o Brasil estava ganhando medalhas
demais. Um paranaense disse que Horan, na realidade, sou eu, de
saiote, disposto a praticar qualquer indignidade para garantir a
ultrapassagem do maratonista americano, porque minha meta é
"derrubar o sonho dos brasileiros".
Primeiro: Horan está certo. O fim do
mundo é mais importante que uma maratona. Arrependa-se. Os
pecadores irão arder para sempre no fogo do inferno.
Segundo: se não fosse por Horan, Vanderlei
de Lima não só não teria ganho a medalha de
ouro como teria chegado, pelos meus cálculos, em sétimo
lugar. Àquela altura da maratona, ele estava perdendo mais
de vinte segundos por quilômetro. O incidente com Horan deu-lhe
um gás a mais. O italiano que ganhou a maratona disse que,
se tivesse acontecido com ele, simplesmente teria dado um safanão
no intruso e seguido em frente.
Terceiro: os brasileiros são muito
mais malucos que Horan. Sentem-se perseguidos pelo resto do mundo.
Vêem maquinações dos países ricos em
todos os seus fracassos. Acreditam que o episódio com Vanderlei
de Lima só ocorreu porque a maratona estava sendo dominada
por um brasileiro. Os vencedores das três últimas maratonas
olímpicas foram um coreano, um sul-africano e um etíope.
Ou seja, só atletas de países pobres. Nesta semana,
Lula alimentou a paranóia nacional com mais uma teoria conspiratória.
Disse que os países ricos, reunidos no G7, decidiram criar
o G8 somente depois que o Brasil perdeu a condição
de oitava economia do mundo, porque não podiam aceitar um
país latino-americano entre os mais desenvolvidos. A declaração
de Lula é uma mistura de delírio e ignorância.
Os países ricos ampliaram o G7 para incluir a Rússia,
que não é a oitava economia do mundo, mas uma superpotência
nuclear. Além disso, o Brasil foi a oitava economia do mundo
por umas poucas semanas em 1997, graças à moeda inflada
artificialmente. A renda per capita, na época, era de mais
de 4.700 dólares. Agora voltou
à miséria bem mais realista de 2.700.
Os brasileiros são doentes. Precisam se tratar.
Quarto: estou me lixando para as medalhas
do Brasil. Eu queria apenas poupar seu dinheiro. Reclamei da enormidade
que o governo gastou em propaganda ufanista durante o período
olímpico, para abocanhar seu voto. O governo ganhou. Eu perdi.
Você aí, no Pará, enrolado na bandeira, com
a mão no peito, também perdeu. Não sei se o
fim do mundo está chegando. Mas o fim do Brasil já
chegou.
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