Edição 1870 . 8 de setembro de 2004

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Entrevista: Petros Levounis
O ecstasy mata

Especialista em dependência diz que
é tolice acreditar que drogas sintéticas
sejam menos letais


Roberta Salomone

 

Alcir N. da Silva

"Muitas pessoas acham que dependente é caso perdido. Esse pensamento é um grave erro. Há tratamentos eficientes, sim"

O psiquiatra grego Petros Levounis, de 42 anos, é um dos maiores especialistas em dependência dos Estados Unidos. Há uma década ele se dedica ao estudo dos distúrbios ligados ao consumo de drogas legais e ilegais e, também, dos transtornos relacionados à compulsão por sexo, jogo ou internet. No início deste ano, ele assumiu a direção do Addiction Institute of New York, um dos mais conceituados centros de estudo e tratamento de dependência dos EUA. Levounis defende a tese segundo a qual os dependentes de drogas não devem ser segregados, mas tratados como qualquer paciente. Na semana passada, o psiquiatra participou do Seminário Internacional sobre Dependência Química, no Rio de Janeiro, coordenando a discussão sobre drogas sintéticas – problema, segundo ele, subestimado pelos especialistas. Diz Levounis: "A maneira mais comum de usar ecstasy – em combinação com outras drogas, como álcool, cigarro e maconha – é perigosa, e o consumo contínuo pode levar à morte". A entrevista:  

Veja – O termo "dependência" é usado para designar distúrbios provocados por fatores bem diferentes um do outro, como consumo de drogas e compulsão sexual. Até que ponto essa designação genérica é correta?
Levounis – As pesquisas recentes estão muito mais concentradas no que há de semelhante entre os processos de dependência do que nas diferenças entre eles. Os estudos mostram que existem áreas específicas do cérebro nas quais desenvolvemos esse tipo de distúrbio. Isso inclui desde problemas relacionados ao consumo de substâncias químicas até transtornos de comportamento, como compulsão por jogo ou sexo, e de alimentação, como bulimia e anorexia. Também abrem caminho para entendermos melhor novas questões, como o vício de internet, que é um distúrbio pouquíssimo explorado.

Veja – Do ponto de vista estritamente científico, não há diferença entre a dependência de drogas legais e ilegais?
Levounis – Não. A questão é que, quando fazemos essa divisão, estamos nos referindo ao componente social do vício, e é aí que a maioria das diferenças se manifesta. Um exemplo: o álcool pode provocar uma devastação física e psicológica nos indivíduos muito maior do que a que vemos com a cocaína. Mas isso não quer dizer que uma seja pior que a outra, e sim que as complicações e manifestações sociais da dependência são muito diferentes – justamente porque a cocaína é ilegal e o álcool não é.

Veja – É possível consumir esporadicamente tabaco, álcool ou drogas sem se tornar dependente?
Levounis – Algumas pessoas podem consumir álcool ou tabaco e não se tornar viciadas. Mas é errado dizer que o álcool e a nicotina não viciam. Algumas pessoas podem se tornar dependentes de determinada substância, outras não. Cada uma reage de uma maneira. E é impossível prever isso. Todas as drogas podem causar dependência, e algumas têm altíssimo poder viciante. É o caso dos estimulantes em geral, como cocaína e anfetaminas.

Veja – Qual o maior entrave à recuperação de um dependente de drogas?
Levounis – Um dos mais graves é a discriminação. Os dependentes carregam um estigma que ocasiona problemas sociais gravíssimos e dificulta o processo de reabilitação. São discriminados como eram os epiléticos no século XIX. Está errado. Eles devem ser tratados da mesma maneira que as pessoas que sofrem de outros tipos de doença.

Veja – A discriminação não está relacionada aos problemas que o dependente causa, inclusive com atos de violência?
Levounis – É claro que eles causam problemas dentro de casa e também para a sociedade. Quem faz uso abusivo de álcool e cocaína rouba dinheiro da família e leva muitos problemas para dentro de casa. É difícil atender um dependente que não tenha o vínculo cortado com os parentes mais próximos. É uma situação triste, porque pouquíssimos podem contar com a ajuda da família durante a recuperação. Mas o vício de drogas não é, definitivamente, o único distúrbio que pode envolver violência. Alguns distúrbios neurológicos podem causar problemas graves também. No entanto, o peso que o dependente carrega é enorme. Acabamos discriminando-o e não lhe dando o mesmo tratamento dispensado a outros doentes. Discriminá-los só piora a situação.

Veja – Qual sua opinião sobre a legalização da maconha?
Levounis – A legalização pode até reduzir o número de crimes associados ao uso e ao tráfico de drogas, mas esse é só um aspecto dentro de uma sociedade em que a dependência é um problema de grande extensão. Não consegui chegar a uma conclusão definitiva sobre o assunto. Não sei se a legalização pode solucionar todos os problemas que a droga ocasiona. Precisamos nos aprofundar ainda mais nos custos e nos benefícios de uma medida como essa. Mas é fundamental deixar claro um ponto: acho que usuários abusivos de drogas devem ser encaminhados ao médico para receber tratamento adequado, e não punidos. A prisão não é, de maneira alguma, o melhor lugar para um dependente químico.

Veja – Muitos especialistas atribuem à maconha o papel de porta de entrada para outras drogas. Qual sua opinião?
Levounis – Essa é uma teoria antiga e ainda bastante controversa. Há quem defenda que a maconha abre as portas para drogas mais pesadas, como a cocaína, e há quem seja absolutamente contra essa idéia. Existem bons argumentos para concordar com essa tese ou discordar dela. Mas não acho que isso seja mais importante que saber que a maconha é viciante, sim, e pode trazer sérios problemas para quem faz uso dela. Consumida durante um longo período, ela causa distúrbios cognitivos e perda de memória.

Veja – Os consumidores de drogas podem ser responsabilizados pelo tráfico?
Levounis – Não. É claro que, se há procura, as drogas vão ser vendidas. Então, temos de nos preocupar em reduzir essa demanda com campanhas educacionais e tratar de maneira adequada os dependentes. Mas é preciso ficar claro que os grupos envolvidos nessa questão são totalmente diferentes. Há o usuário de drogas e os grandes traficantes. É um erro confundi-los.

Veja – Qual é a ligação entre drogas e violência?
Levounis – Além da violência provocada pelo tráfico em si e pelas brigas de gangues por pontos de drogas nos grandes centros urbanos, existe aquela provocada diretamente pelo consumo de determinadas substâncias, como a cocaína. Além disso, não podemos nos esquecer da violência provocada pelo álcool nas ruas, no trânsito e também dentro de casa, desestruturando famílias por completo.

Veja – O consumo de drogas sintéticas, como o ecstasy, está se expandindo rapidamente. Que riscos elas oferecem?
Levounis – O problema das drogas sintéticas é que elas não parecem ter o poder de matar como a heroína, a cocaína ou o álcool. Se você usa uma dose maior de heroína, pode morrer subitamente, e, no caso do ecstasy, duvida-se que isso ocorra. Mas trata-se de uma mentira. As pessoas podem até não morrer subitamente por causa de ecstasy em uma pista de dança, como acontece com maior freqüência com a heroína ou a cocaína. Mas a maneira mais comum de usar ecstasy – em combinação com outras drogas, como álcool, cigarro e maconha – é perigosa, e o uso contínuo pode levar à morte, sim. Além disso, quem usa ecstasy tem depressão, distúrbios de pânico e outros problemas ao longo da vida.

Veja – Outra crença difundida é que o ecstasy não causa dependência.
Levounis – É outra mentira. Quando ouço isso, eu me lembro de anos atrás, quando diziam que a cocaína não era tão perigosa quando comparada com a heroína. Anos depois constatamos que era altamente viciante e que provocava efeitos psicológicos gravíssimos. A história é similar quando falamos do ecstasy, que causa dependência e pode provocar sérios danos psicológicos em quem o consome.

Veja – O uso de drogas já foi símbolo de contestação. Hoje, o que leva os jovens a buscar substâncias como o ecstasy?
Levounis – Quem faz uso de drogas sintéticas são adolescentes e adultos jovens de classe média ou alta que abraçam uma cultura própria, na qual o individualismo exacerbado é o principal motor. É muito diferente das gerações influenciadas pelos movimentos da década de 60, que acreditavam ter o poder de mudar o mundo. A geração atual faz uso do ecstasy pensando apenas no próprio prazer.

Veja – Existe algum tratamento realmente eficaz no combate à dependência?
Levounis – A melhor maneira de entender o processo do vício é por meio dos modelos biológico, psicológico e social. O médico deve compreender o peso de cada um desses componentes em cada paciente. É fundamental. Isso aumenta a chance de acerto na escolha do tratamento. O caminho que se tem revelado mais eficaz é o de combinar procedimentos que contemplem os três modelos. O paciente reage melhor quando indicamos a psicoterapia, usamos medicamentos para tratar a ansiedade e a depressão e, ao mesmo tempo, envolvemos a família (o aspecto social do tratamento), conversando sobre o estado do paciente e estimulando-a a participar do tratamento.

Veja – Fala-se muito na importância da família para evitar que o jovem entre no caminho das drogas. Mas até que ponto os pais têm esse poder, com tantos apelos externos em sentido contrário?
Levounis – Proibir que o filho se envolva com drogas é impossível. Mas há muito que fazer para reduzir os riscos. A família deve estar sempre envolvida com os filhos, responder às perguntas sobre drogas e álcool, ter conhecimento sobre quem são os amigos e saber aonde costumam ir. É importante que os pais participem da vida deles. Há uma informação específica que nossa observação relaciona à redução de riscos do envolvimento dos adolescentes com as drogas: quanto mais vezes a família se reúne para jantar, menor o risco de abuso de drogas dentro de casa.

Veja – Há pais que acham que essa convivência pode incluir fumar maconha junto com os filhos. O que diz sua experiência?
Levounis – Nos Estados Unidos, há uma geração de pais que tiveram experiências com maconha e outras drogas e hoje têm muita dificuldade para dizer aos filhos que não usem drogas. Alguns continuam usando, e eu acho que é uma péssima idéia fumar na frente dos filhos. Por outro lado, não penso que os pais devam mentir sobre as próprias experiências. É preciso que haja um constante e aberto debate sobre o uso de drogas e álcool entre pais e filhos. Assim, as experiências passadas podem até servir para alguma coisa. Independentemente disso, é crucial que os pais jamais sejam coniventes com o consumo de drogas dos filhos.

Veja – Existem sinais específicos para que os pais consigam identificar se os filhos estão usando drogas?
Levounis – Sim. Se houve uma mudança significativa na rotina de vida, os pais devem ficar mais atentos. Se as notas escolares começarem a cair, se não há mais interesse nas atividades que eram praticadas antes e se houve alguma mudança no grupo de amigos, sugiro atenção redobrada. É claro que todo mundo muda de amigos, de hobbies, de esportes e passa por várias transformações, mas, se muitas dessas coisas ocorrerem ao mesmo tempo, é um sinal vermelho. É preciso agir rápido e procurar a ajuda de um especialista.

Veja – Como deve ser o combate ao tráfico de drogas?
Levounis – A maior preocupação de nós, médicos, é quanto ao esforço para reduzir a procura pelas drogas, tentar evitar que adolescentes e jovens as consumam. Há muito discurso, esforços e dinheiro na luta contra o fornecimento de drogas, mas não há o mesmo interesse na redução da procura. É impressionante como existem pessoas que acham que se você se torna dependente não há mais nada a fazer, é um caso perdido. Esse pensamento é um grave erro. Existem tratamentos que funcionam, sim, e nossos governantes precisam dar mais atenção a esse assunto.

Veja – A atuação no campo da redução da procura costuma restringir-se a campanhas de alerta e prevenção do consumo de drogas. Não é muito pouco?
Levounis – Normalmente nós achamos que essas campanhas educacionais não adiantam nada. Nós, médicos e cientistas, costumamos ridicularizar essas iniciativas, que expõem mensagens como "Pare de fumar" ou "Pare de beber" em grandes outdoors. Não costumamos acreditar que essas intervenções possam ter algum resultado satisfatório e influenciar alguma grande mudança. Mas não há dúvida de que ajudam muito. Se forem feitas de forma correta e explicativa, podem ter resultado significativo, como já ocorreu com o cigarro. Vinte anos atrás, a campanha contra o tabaco resultou em grande redução no consumo de cigarros nos Estados Unidos.

Veja – O senhor já usou drogas?
Levounis – Essa é uma questão secundária. Na relação com os pacientes, é relevante o fato de nós, médicos, termos tido experiências com drogas. Ao saberem disso, os pacientes costumam demonstrar maior confiança. O que conta, porém, é ser um bom médico. Você não precisa ter tido câncer para ser um especialista em câncer. Para ser um bom médico você não precisa necessariamente ter tido alguma experiência com drogas.

 
 
 
 
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