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| Entrevista:
Petros Levounis
O ecstasy mata
Especialista
em
dependência diz que
é tolice acreditar que drogas sintéticas
sejam menos letais

Roberta Salomone
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Alcir N. da Silva

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"Muitas
pessoas acham que dependente
é caso perdido. Esse pensamento é
um grave erro. Há
tratamentos eficientes, sim"
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O psiquiatra
grego Petros Levounis, de 42 anos, é um dos maiores especialistas
em dependência dos Estados Unidos. Há uma década
ele se dedica ao estudo dos distúrbios ligados ao consumo
de drogas legais e ilegais e, também, dos transtornos relacionados
à compulsão por sexo, jogo ou internet. No início
deste ano, ele assumiu a direção do Addiction Institute
of New York, um dos mais conceituados centros de estudo e tratamento
de dependência dos EUA. Levounis defende a tese segundo a
qual os dependentes de drogas não devem ser segregados, mas
tratados como qualquer paciente. Na semana passada, o psiquiatra
participou do Seminário Internacional sobre Dependência
Química, no Rio de Janeiro, coordenando a discussão
sobre drogas sintéticas problema, segundo ele, subestimado
pelos especialistas. Diz Levounis: "A maneira mais comum de usar
ecstasy em combinação com outras drogas, como
álcool, cigarro e maconha é perigosa, e o consumo
contínuo pode levar à morte". A entrevista:
Veja
O termo "dependência" é usado para designar
distúrbios provocados por fatores bem diferentes um do outro,
como consumo de drogas e compulsão sexual. Até que
ponto essa designação genérica é correta?
Levounis
As pesquisas recentes estão muito mais concentradas no que
há de semelhante entre os processos de dependência
do que nas diferenças entre eles. Os estudos mostram que
existem áreas específicas do cérebro nas quais
desenvolvemos esse tipo de distúrbio. Isso inclui desde problemas
relacionados ao consumo de substâncias químicas até
transtornos de comportamento, como compulsão por jogo ou
sexo, e de alimentação, como bulimia e anorexia. Também
abrem caminho para entendermos melhor novas questões, como
o vício de internet, que é um distúrbio pouquíssimo
explorado.
Veja
Do ponto de vista estritamente científico, não
há diferença entre a dependência de drogas legais
e ilegais?
Levounis
Não.
A questão é que, quando fazemos essa divisão,
estamos nos referindo ao componente social do vício, e é
aí que a maioria das diferenças se manifesta. Um exemplo:
o álcool pode provocar uma devastação física
e psicológica nos indivíduos muito maior do que a
que vemos com a cocaína. Mas isso não quer dizer que
uma seja pior que a outra, e sim que as complicações
e manifestações sociais da dependência são
muito diferentes justamente porque a cocaína é
ilegal e o álcool não é.
Veja
É possível consumir esporadicamente tabaco,
álcool ou drogas sem se tornar dependente?
Levounis
Algumas pessoas podem consumir álcool ou tabaco e não
se tornar viciadas. Mas é errado dizer que o álcool
e a nicotina não viciam. Algumas pessoas podem se tornar
dependentes de determinada substância, outras não.
Cada uma reage de uma maneira. E é impossível prever
isso. Todas as drogas podem causar dependência, e algumas
têm altíssimo poder viciante. É o caso dos estimulantes
em geral, como cocaína e anfetaminas.
Veja
Qual o maior entrave à recuperação
de um dependente de drogas?
Levounis
Um dos mais graves é a discriminação. Os dependentes
carregam um estigma que ocasiona problemas sociais gravíssimos
e dificulta o processo de reabilitação. São
discriminados como eram os epiléticos no século XIX.
Está errado. Eles devem ser tratados da mesma maneira que
as pessoas que sofrem de outros tipos de doença.
Veja
A discriminação não está relacionada
aos problemas que o dependente causa, inclusive com atos de violência?
Levounis
É claro que eles causam problemas dentro de casa e também
para a sociedade. Quem faz uso abusivo de álcool e cocaína
rouba dinheiro da família e leva muitos problemas para dentro
de casa. É difícil atender um dependente que não
tenha o vínculo cortado com os parentes mais próximos.
É uma situação triste, porque pouquíssimos
podem contar com a ajuda da família durante a recuperação.
Mas o vício de drogas não é, definitivamente,
o único distúrbio que pode envolver violência.
Alguns distúrbios neurológicos podem causar problemas
graves também. No entanto, o peso que o dependente carrega
é enorme. Acabamos discriminando-o e não lhe dando
o mesmo tratamento dispensado a outros doentes. Discriminá-los
só piora a situação.
Veja
Qual sua opinião sobre a legalização
da maconha?
Levounis
A legalização pode até reduzir o número
de crimes associados ao uso e ao tráfico de drogas, mas esse
é só um aspecto dentro de uma sociedade em que a dependência
é um problema de grande extensão. Não consegui
chegar a uma conclusão definitiva sobre o assunto. Não
sei se a legalização pode solucionar todos os problemas
que a droga ocasiona. Precisamos nos aprofundar ainda mais nos custos
e nos benefícios de uma medida como essa. Mas é fundamental
deixar claro um ponto: acho que usuários abusivos de drogas
devem ser encaminhados ao médico para receber tratamento
adequado, e não punidos. A prisão não é,
de maneira alguma, o melhor lugar para um dependente químico.
Veja
Muitos especialistas atribuem à maconha o papel
de porta de entrada para outras drogas. Qual sua opinião?
Levounis
Essa é uma teoria antiga e ainda bastante controversa. Há
quem defenda que a maconha abre as portas para drogas mais pesadas,
como a cocaína, e há quem seja absolutamente contra
essa idéia. Existem bons argumentos para concordar com essa
tese ou discordar dela. Mas não acho que isso seja mais importante
que saber que a maconha é viciante, sim, e pode trazer sérios
problemas para quem faz uso dela. Consumida durante um longo período,
ela causa distúrbios cognitivos e perda de memória.
Veja
Os consumidores de drogas podem ser responsabilizados
pelo tráfico?
Levounis
Não. É claro que, se há procura, as drogas
vão ser vendidas. Então, temos de nos preocupar em
reduzir essa demanda com campanhas educacionais e tratar de maneira
adequada os dependentes. Mas é preciso ficar claro que os
grupos envolvidos nessa questão são totalmente diferentes.
Há o usuário de drogas e os grandes traficantes. É
um erro confundi-los.
Veja
Qual é a ligação entre drogas e violência?
Levounis
Além da violência provocada pelo tráfico
em si e pelas brigas de gangues por pontos de drogas nos grandes
centros urbanos, existe aquela provocada diretamente pelo consumo
de determinadas substâncias, como a cocaína. Além
disso, não podemos nos esquecer da violência provocada
pelo álcool nas ruas, no trânsito e também dentro
de casa, desestruturando famílias por completo.
Veja
O consumo de drogas sintéticas, como o ecstasy,
está se expandindo rapidamente. Que riscos elas oferecem?
Levounis
O problema das drogas sintéticas é que elas não
parecem ter o poder de matar como a heroína, a cocaína
ou o álcool. Se você usa uma dose maior de heroína,
pode morrer subitamente, e, no caso do ecstasy, duvida-se que isso
ocorra. Mas trata-se de uma mentira. As pessoas podem até
não morrer subitamente por causa de ecstasy em uma pista
de dança, como acontece com maior freqüência com
a heroína ou a cocaína. Mas a maneira mais comum de
usar ecstasy em combinação com outras drogas,
como álcool, cigarro e maconha é perigosa,
e o uso contínuo pode levar à morte, sim. Além
disso, quem usa ecstasy tem depressão, distúrbios
de pânico e outros problemas ao longo da vida.
Veja
Outra crença difundida é que o ecstasy não
causa dependência.
Levounis
É outra mentira. Quando ouço isso, eu me lembro de
anos atrás, quando diziam que a cocaína não
era tão perigosa quando comparada com a heroína. Anos
depois constatamos que era altamente viciante e que provocava efeitos
psicológicos gravíssimos. A história é
similar quando falamos do ecstasy, que causa dependência e
pode provocar sérios danos psicológicos em quem o
consome.
Veja
O uso de drogas já foi símbolo de contestação.
Hoje, o que leva os jovens a buscar substâncias como o ecstasy?
Levounis
Quem faz uso de drogas sintéticas são adolescentes
e adultos jovens de classe média ou alta que abraçam
uma cultura própria, na qual o individualismo exacerbado
é o principal motor. É muito diferente das gerações
influenciadas pelos movimentos da década de 60, que acreditavam
ter o poder de mudar o mundo. A geração atual faz
uso do ecstasy pensando apenas no próprio prazer.
Veja
Existe algum tratamento realmente eficaz no combate à
dependência?
Levounis
A
melhor maneira de entender o processo do vício é por
meio dos modelos biológico, psicológico e social.
O médico deve compreender o peso de cada um desses componentes
em cada paciente. É fundamental. Isso aumenta a chance de
acerto na escolha do tratamento. O caminho que se tem revelado mais
eficaz é o de combinar procedimentos que contemplem os três
modelos. O paciente reage melhor quando indicamos a psicoterapia,
usamos medicamentos para tratar a ansiedade e a depressão
e, ao mesmo tempo, envolvemos a família (o aspecto social
do tratamento), conversando sobre o estado do paciente e estimulando-a
a participar do tratamento.
Veja
Fala-se muito na importância da família para
evitar que o jovem entre no caminho das drogas. Mas até que
ponto os pais têm esse poder, com tantos apelos externos em
sentido contrário?
Levounis
Proibir que o filho se envolva com drogas é impossível.
Mas há muito que fazer para reduzir os riscos. A família
deve estar sempre envolvida com os filhos, responder às perguntas
sobre drogas e álcool, ter conhecimento sobre quem são
os amigos e saber aonde costumam ir. É importante que os
pais participem da vida deles. Há uma informação
específica que nossa observação relaciona à
redução de riscos do envolvimento dos adolescentes
com as drogas: quanto mais vezes a família se reúne
para jantar, menor o risco de abuso de drogas dentro de casa.
Veja
Há pais que acham que essa convivência pode
incluir fumar maconha junto com os filhos. O que diz sua experiência?
Levounis
Nos Estados Unidos, há uma geração de pais
que tiveram experiências com maconha e outras drogas e hoje
têm muita dificuldade para dizer aos filhos que não
usem drogas. Alguns continuam usando, e eu acho que é uma
péssima idéia fumar na frente dos filhos. Por outro
lado, não penso que os pais devam mentir sobre as próprias
experiências. É preciso que haja um constante e aberto
debate sobre o uso de drogas e álcool entre pais e filhos.
Assim, as experiências passadas podem até servir para
alguma coisa. Independentemente disso, é crucial que os pais
jamais sejam coniventes com o consumo de drogas dos filhos.
Veja
Existem sinais específicos para que os pais consigam
identificar se os filhos estão usando drogas?
Levounis
Sim.
Se houve uma mudança significativa na rotina de vida, os
pais devem ficar mais atentos. Se as notas escolares começarem
a cair, se não há mais interesse nas atividades que
eram praticadas antes e se houve alguma mudança no grupo
de amigos, sugiro atenção redobrada. É claro
que todo mundo muda de amigos, de hobbies, de esportes e passa por
várias transformações, mas, se muitas dessas
coisas ocorrerem ao mesmo tempo, é um sinal vermelho. É
preciso agir rápido e procurar a ajuda de um especialista.
Veja
Como deve ser o combate ao tráfico de drogas?
Levounis
A
maior preocupação de nós, médicos, é
quanto ao esforço para reduzir a procura pelas drogas, tentar
evitar que adolescentes e jovens as consumam. Há muito discurso,
esforços e dinheiro na luta contra o fornecimento de drogas,
mas não há o mesmo interesse na redução
da procura. É impressionante como existem pessoas que acham
que se você se torna dependente não há mais
nada a fazer, é um caso perdido. Esse pensamento é
um grave erro. Existem tratamentos que funcionam, sim, e nossos
governantes precisam dar mais atenção a esse assunto.
Veja
A atuação no campo da redução
da procura costuma restringir-se a campanhas de alerta e prevenção
do consumo de drogas. Não é muito pouco?
Levounis
Normalmente nós achamos que essas campanhas educacionais
não adiantam nada. Nós, médicos e cientistas,
costumamos ridicularizar essas iniciativas, que expõem mensagens
como "Pare de fumar" ou "Pare de beber" em grandes outdoors. Não
costumamos acreditar que essas intervenções possam
ter algum resultado satisfatório e influenciar alguma grande
mudança. Mas não há dúvida de que ajudam
muito. Se forem feitas de forma correta e explicativa, podem ter
resultado significativo, como já ocorreu com o cigarro. Vinte
anos atrás, a campanha contra o tabaco resultou em grande
redução no consumo de cigarros nos Estados Unidos.
Veja
O senhor já usou drogas?
Levounis
Essa é uma questão secundária. Na relação
com os pacientes, é relevante o fato de nós, médicos,
termos tido experiências com drogas. Ao saberem disso, os
pacientes costumam demonstrar maior confiança. O que conta,
porém, é ser um bom médico. Você não
precisa ter tido câncer para ser um especialista em câncer.
Para ser um bom médico você não precisa necessariamente
ter tido alguma experiência com drogas.
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