Edição 1870 . 8 de setembro de 2004

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Em foco: Sérgio Abranches
O ocaso da elite

"É boa notícia saber que renovaremos, quase
integralmente, nossa elite política. Mas não
há garantia alguma de que a elite
emergente
esteja à altura dos desafios que enfrentará"

Quem fizer uma lista dos cinqüenta políticos mais influentes do Brasil hoje terá uma surpresa: a maioria deixará a política, em breve, por antiguidade. Poucos, por merecimento. Pertencem à geração que está na ativa desde os anos 60. Uma parte prosperou à sombra dos militares. Outra amargou os dissabores de ser oposição em um regime de intolerância. Com a democratização, passaram a dividir o mesmo espaço. No entremeio, viram-se todos forçados a fazer as alianças mais heterodoxas, como os encontros e desencontros entre FHC e ACM ou o namoro inebriado do deputado Delfim Neto com o governo Lula.

Ficará mais surpreso ainda quem, ao anotar a idade dessa liderança, verificar que mais da metade estará de saída entre a eleição presidencial de 2006 e a de 2010. Se tentar substituir os que saem por expoentes que já estejam despontando no horizonte da política, pode ter dificuldade. Há substituições ainda fáceis: troca José Sarney (80 anos, em 2010) por Roseana (57 anos) e põe, de quebra, um Zequinha (53). Troca um ACM (83 anos, em 2010), por um ACM Neto (31). Encaixa Geraldo Alckmin (58 anos, em 2010) e Aécio Neves (50). Soma as neo-elites do PT, que ainda não demonstraram se terão longevidade na política eleitoral – João Paulo Cunha, 52 anos, Antônio Palocci, 50 anos, José Dirceu, 64 anos, todas essas idades em 2010 –, mantém na lista Ciro Gomes (55) e traz de Goiás Marconi Perillo (60). Já começamos a entrar no terreno de lideranças regionais, que ainda não mostraram o alcance de seu vôo nacional.

Ilustração Ale Setti


Se estendermos nosso horizonte para a eleição de 2014, que está logo ali, aumentam a lista dos que saem e a dos invisíveis, aqueles que estarão à frente da liderança amanhã mas não conseguimos apontar hoje. Diminui o número de apostas firmes.

A essa altura, alguns leitores devem estar respirando de alívio. É boa notícia saber que renovaremos, quase integralmente, nossa elite política. Outros podem estar roendo as unhas de ansiedade. Afinal, não há garantia alguma de que a elite emergente esteja à altura dos desafios que enfrentará. Essa é a grande questão com relação ao futuro próximo do Brasil. Que elite será essa?

A que está saindo viu o desenvolvimentismo de JK, a renúncia de Jânio, o golpe de 64, a ditadura, o aprofundamento da estatização, o falso milagre do Delfim, seu preço, a hiperinflação, a estabilização, a democratização, a privatização e a globalização. Lendo toda essa contabilidade histórica, parece o fim da história. É mesmo, da história dessa elite, pré-global e pré-responsabilidade fiscal. Ela nasceu em um Brasil e se aposenta em outro, totalmente diferente. Um lutava para se urbanizar e industrializar, era pré-democrático, autoritário a maior parte do tempo, vivia de inflação. Sua população, repleta de analfabetos, crescia a taxas terceiro-mundistas, com uma mortalidade infantil africana. O de hoje é demograficamente maduro, urbano, industrial, democrático e prefere a moeda estável.

Quando seus antecessores estavam no auge, a vanguarda da nova geração já era conhecida. Os canais de recrutamento político eram poucos. Os políticos surgiam, na maioria, das faculdades nobres, das profissões imperiais, como as batizou o sociólogo Edmundo Campos: direito, medicina e engenharia. Engalfinhavam-se nas disputas pelos diretórios e pela UNE, que era pluralista. Nela disputavam udenistas, pessedistas, petebistas e comunistas. Hoje, ela é quase clandestina. Uma parcela considerável herdava a política de pais ou parentes próximos. A maior parte dos que se encontram no poder, governo ou oposição, já não está lá por herança. A política vem ficando muito competitiva, o que impede a preservação de linhagens. Com o progresso sumirão as últimas famílias dominantes.

A nova elite não tem formação política democrática, embora deva seu sucesso à democracia. Há razão para duvidar de sua representatividade. Os canais de recrutamento político hoje são sindicatos, entidades patronais, movimentos sociais, igrejas. Não representam recorte pluralista da sociedade. Refletem visões segmentares do mundo e do país.

Faltará o político genérico. Podem sobrar os políticos carimbados: metalúrgico, bancário, professor, sem-terra, da CNI, da Fiesp, da Fecomércio, evangélico. Mas sou genérico e, como eu, uma vasta maioria da geração de meus filhos. Na política, o genérico é o pluralista. Somos representados pelos genéricos, por visões não tribais ou não corporativas do mundo. Esses remanescentes de uma espécie criticamente ameaçada de extinção.


Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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