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Em
foco: Sérgio Abranches
O ocaso da elite
"É boa notícia
saber que renovaremos, quase
integralmente, nossa elite política. Mas não
há garantia alguma de que a elite
emergente
esteja à altura dos desafios que enfrentará"
Quem fizer
uma lista dos cinqüenta políticos mais influentes do
Brasil hoje terá uma surpresa: a maioria deixará a
política, em breve, por antiguidade. Poucos, por merecimento.
Pertencem à geração que está na ativa
desde os anos 60. Uma parte prosperou à sombra dos militares.
Outra amargou os dissabores de ser oposição em um
regime de intolerância. Com a democratização,
passaram a dividir o mesmo espaço. No entremeio, viram-se
todos forçados a fazer as alianças mais heterodoxas,
como os encontros e desencontros entre FHC e ACM ou o namoro inebriado
do deputado Delfim Neto com o governo Lula.
Ficará
mais surpreso ainda quem, ao anotar a idade dessa liderança,
verificar que mais da metade estará de saída entre
a eleição presidencial de 2006 e a de 2010. Se tentar
substituir os que saem por expoentes que já estejam despontando
no horizonte da política, pode ter dificuldade. Há
substituições ainda fáceis: troca José
Sarney (80 anos, em 2010) por Roseana (57 anos) e põe, de
quebra, um Zequinha (53). Troca um ACM (83 anos, em 2010), por um
ACM Neto (31). Encaixa Geraldo Alckmin (58 anos, em 2010) e Aécio
Neves (50). Soma as neo-elites do PT, que ainda não demonstraram
se terão longevidade na política eleitoral
João Paulo Cunha, 52 anos, Antônio Palocci, 50 anos,
José Dirceu, 64 anos, todas essas idades em 2010 ,
mantém na lista Ciro Gomes (55) e traz de Goiás Marconi
Perillo (60). Já começamos a entrar no terreno de
lideranças regionais, que ainda não mostraram o alcance
de seu vôo nacional.
Ilustração Ale Setti
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Se estendermos nosso horizonte para a eleição de 2014,
que está logo ali, aumentam a lista dos que saem e a dos
invisíveis, aqueles que estarão à frente da
liderança amanhã mas não conseguimos apontar
hoje. Diminui o número de apostas firmes.
A essa
altura, alguns leitores devem estar respirando de alívio.
É boa notícia saber que renovaremos, quase integralmente,
nossa elite política. Outros podem estar roendo as unhas
de ansiedade. Afinal, não há garantia alguma de que
a elite emergente esteja à altura dos desafios que enfrentará.
Essa é a grande questão com relação
ao futuro próximo do Brasil. Que elite será essa?
A que está
saindo viu o desenvolvimentismo de JK, a renúncia de Jânio,
o golpe de 64, a ditadura, o aprofundamento da estatização,
o falso milagre do Delfim, seu preço, a hiperinflação,
a estabilização, a democratização, a
privatização e a globalização. Lendo
toda essa contabilidade histórica, parece o fim da história.
É mesmo, da história dessa elite, pré-global
e pré-responsabilidade fiscal. Ela nasceu em um Brasil e
se aposenta em outro, totalmente diferente. Um lutava para se urbanizar
e industrializar, era pré-democrático, autoritário
a maior parte do tempo, vivia de inflação. Sua população,
repleta de analfabetos, crescia a taxas terceiro-mundistas, com
uma mortalidade infantil africana. O de hoje é demograficamente
maduro, urbano, industrial, democrático e prefere a moeda
estável.
Quando
seus antecessores estavam no auge, a vanguarda da nova geração
já era conhecida. Os canais de recrutamento político
eram poucos. Os políticos surgiam, na maioria, das faculdades
nobres, das profissões imperiais, como as batizou o sociólogo
Edmundo Campos: direito, medicina e engenharia. Engalfinhavam-se
nas disputas pelos diretórios e pela UNE, que era pluralista.
Nela disputavam udenistas, pessedistas, petebistas e comunistas.
Hoje, ela é quase clandestina. Uma parcela considerável
herdava a política de pais ou parentes próximos. A
maior parte dos que se encontram no poder, governo ou oposição,
já não está lá por herança. A
política vem ficando muito competitiva, o que impede a preservação
de linhagens. Com o progresso sumirão as últimas famílias
dominantes.
A nova
elite não tem formação política democrática,
embora deva seu sucesso à democracia. Há razão
para duvidar de sua representatividade. Os canais de recrutamento
político hoje são sindicatos, entidades patronais,
movimentos sociais, igrejas. Não representam recorte pluralista
da sociedade. Refletem visões segmentares do mundo e do país.
Faltará
o político genérico. Podem sobrar os políticos
carimbados: metalúrgico, bancário, professor, sem-terra,
da CNI, da Fiesp, da Fecomércio, evangélico. Mas sou
genérico e, como eu, uma vasta maioria da geração
de meus filhos. Na política, o genérico é o
pluralista. Somos representados pelos genéricos, por visões
não tribais ou não corporativas do mundo. Esses remanescentes
de uma espécie criticamente ameaçada de extinção.
Sérgio Abranches é cientista
político
(sergioabranches@sda.com.br)
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