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André
Petry
3328
(????-2004)
"Como
era para 3328 ficar anônimo, solitário,
perdido numa cidade de tantos milhões de
habitantes? Como era para 3309 permanecer
desconhecido, inominado e, simultaneamente,
não desfrutar um mínimo de privacidade?"
O título
acima é a expressão numérica de um desastre:
3328 é o número que identifica o laudo do Instituto
Médico Legal que atestou a morte de um dos moradores de rua
assassinados no centro de São Paulo. A vítima não
foi reclamada por nenhum parente, não foi reconhecida por
ninguém e não tinha documentos pessoais. Assim, como
um soldado desconhecido, mas sem honra nem glória, sem se
saber se era João ou José, Pedro ou Rui, ganhou, à
guisa de nome, o número 3328. Na expressão numérica
acima, entre parênteses estão as datas de nascimento
e morte de 3328, ficando as interrogações a indicar
que se desconhece também o ano de nascimento. Em situação
de idêntico anonimato, outras vítimas mortas no mesmo
massacre de rua foram rebatizadas e enterradas sob o número
de seus laudos cadavéricos.
Na terça-feira
da semana passada, junto com 3328, também aconteceu o sepultamento
de 3309 e 3333, todos no Cemitério Dom Bosco, situado na
Zona Norte de São Paulo. Noticiou-se que 3328, 3309 e 3333
foram enterrados na gleba 1, quadra 3, ao lado de outros quatro
cadáveres também identificados apenas por números
mas vítimas de outro massacre, o do Carandiru. De
3328, 3309 e 3333, nós, os vivos, sabemos apenas a data e
as circunstâncias da morte, e ainda assim muito por alto.
Apenas isso. Não se sabe onde nasceram, se estudaram, se
algum dia trabalharam, se tiveram alguma profissão. Como
será que se desgarraram da família? Como era para
3328 ficar anônimo, solitário, perdido numa cidade
de tantos milhões de habitantes? Como era para 3333 sentir
o coice da pobreza numa cidade tão pujante onde a força
do dinheiro é tão visível? Como era para 3309
permanecer desconhecido, inominado e, simultaneamente, não
desfrutar um mínimo de privacidade?
São
divagações que provavelmente jamais serão respondidas.
As vítimas 3328, 3309 e 3333, quase que certamente, nunca
serão reconhecidas. Ninguém há de se interessar
em fazer uma exumação para reconhecê-las. Mas,
numa cidade como São Paulo, imensa e rica, feérica
e lúgubre, mórbida e viva, repulsiva e formidável,
que diferença faz saber que as ruas do centro não
contam mais com a presença de 3328, 3309 e 3333? Que importa
que 3328, 3309 e 3333 tenham trocado, ainda que involuntariamente,
as calçadas do centro da cidade por uma cova de cemitério
na Zona Norte?
Talvez
haja, para quem está vivo, apenas uma diferença em
tudo isso: a de que, já habituados à pobreza, à
miséria e à indigência, já habituados
à violência e à brutalidade, temos agora de
nos habituar ao anonimato e à ignorância. Em outras
palavras, temos de nos habituar ao fato de que a barbárie
urbana do país não mata mais indivíduos
agora, mata exemplares.
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