Edição 1870 . 8 de setembro de 2004

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André Petry
3328 (????-2004)

"Como era para 3328 ficar anônimo, solitário,
perdido numa cidade de tantos milhões de
habitantes? Como era para 3309 permanecer
desconhecido, inominado e, simultaneamente,
não desfrutar um mínimo de privacidade?"

O título acima é a expressão numérica de um desastre: 3328 é o número que identifica o laudo do Instituto Médico Legal que atestou a morte de um dos moradores de rua assassinados no centro de São Paulo. A vítima não foi reclamada por nenhum parente, não foi reconhecida por ninguém e não tinha documentos pessoais. Assim, como um soldado desconhecido, mas sem honra nem glória, sem se saber se era João ou José, Pedro ou Rui, ganhou, à guisa de nome, o número 3328. Na expressão numérica acima, entre parênteses estão as datas de nascimento e morte de 3328, ficando as interrogações a indicar que se desconhece também o ano de nascimento. Em situação de idêntico anonimato, outras vítimas mortas no mesmo massacre de rua foram rebatizadas e enterradas sob o número de seus laudos cadavéricos.

Na terça-feira da semana passada, junto com 3328, também aconteceu o sepultamento de 3309 e 3333, todos no Cemitério Dom Bosco, situado na Zona Norte de São Paulo. Noticiou-se que 3328, 3309 e 3333 foram enterrados na gleba 1, quadra 3, ao lado de outros quatro cadáveres também identificados apenas por números – mas vítimas de outro massacre, o do Carandiru. De 3328, 3309 e 3333, nós, os vivos, sabemos apenas a data e as circunstâncias da morte, e ainda assim muito por alto. Apenas isso. Não se sabe onde nasceram, se estudaram, se algum dia trabalharam, se tiveram alguma profissão. Como será que se desgarraram da família? Como era para 3328 ficar anônimo, solitário, perdido numa cidade de tantos milhões de habitantes? Como era para 3333 sentir o coice da pobreza numa cidade tão pujante onde a força do dinheiro é tão visível? Como era para 3309 permanecer desconhecido, inominado e, simultaneamente, não desfrutar um mínimo de privacidade?

São divagações que provavelmente jamais serão respondidas. As vítimas 3328, 3309 e 3333, quase que certamente, nunca serão reconhecidas. Ninguém há de se interessar em fazer uma exumação para reconhecê-las. Mas, numa cidade como São Paulo, imensa e rica, feérica e lúgubre, mórbida e viva, repulsiva e formidável, que diferença faz saber que as ruas do centro não contam mais com a presença de 3328, 3309 e 3333? Que importa que 3328, 3309 e 3333 tenham trocado, ainda que involuntariamente, as calçadas do centro da cidade por uma cova de cemitério na Zona Norte?

Talvez haja, para quem está vivo, apenas uma diferença em tudo isso: a de que, já habituados à pobreza, à miséria e à indigência, já habituados à violência e à brutalidade, temos agora de nos habituar ao anonimato e à ignorância. Em outras palavras, temos de nos habituar ao fato de que a barbárie urbana do país não mata mais indivíduos – agora, mata exemplares.

 
 
 
 
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