Ponto
de vista:Stephen
Kanitz Nosso Congresso
tem futuro?
"Se os senhores deputados
e senadores não
pararem para refletir sobre sua perigosa situação,
daqui a vinte anos o povo não apoiará mais
o Legislativo como instituição"
Como melhorar nosso
Legislativo? Aqueles que acreditam que a solução
é eleger pessoas mais honestas, mais inteligentes e
administrativamente competentes se enganam. Muitas das pessoas
com esse perfil não estão dispostas a se candidatar
porque percebem que nada poderão fazer.
Ilustração
Atômica Studio
O problema de nosso Legislativo começou com a ditadura
militar, que, para obter um semblante de legalidade, decidiu
manter um Congresso para inglês ver, pagando os salários
de deputados e senadores e permitindo que fossem eleitos,
mas para fazer absolutamente nada. A maioria das leis era
redigida por cinco ou seis economistas "iluminados", quando
não implantadas diretamente por decreto. Isso ainda
ocorre sob protestos justificados do "baixo clero", parlamentares
sem poder. Compare-se com o Congresso americano, em que a
maioria das leis é de autoria de um deputado democrata
e outro republicano. Como por exemplo a Lei Sarbanes-Oxley.
Mostre-me uma única lei brasileira que tenha sido submetida
conjuntamente por vários deputados, um de cada partido,
fora a Constituição! Se os senhores deputados
e senadores não pararem para refletir sobre essa perigosa
situação, prevejo que daqui a vinte anos nosso
povo não apoiará mais o Legislativo como instituição,
substituindo 592 parlamentares e seus 21 000 funcionários
por um novo militarismo, como na Venezuela.
Se o Congresso
quiser retomar sua importância e dignidade, proponho
uma série de discussões sobre os seguintes temas:
1. As atuais comissões
parlamentares de inquérito do Congresso dão
notoriedade e visibilidade, mas não prestígio.
Pelo contrário. Precisamos resgatar a verdadeira função
das CPIs, que se deturparam em delegacias de polícia,
em vez de ser fóruns de discussão prévia,
necessários para a elaboração de projetos
de lei. Vejam a experiência inglesa dos white papers,
em que por meses ou anos a fio deputados entrevistam professores,
acadêmicos, administradores e membros destacados da
sociedade para ouvir o relato dos problemas que requerem solução
legislativa. Uma das leis da ciência da administração
reza que "quem não faz parte da solução
fará parte do problema". Por isso, muitas de nossas
leis são mal elaboradas e não pegam. Depor numa
audiência do Congresso americano, num congressional
hearing, é uma honra. Aqui é uma desgraça.
Resgatar as CPIs seria uma forma de o Congresso Nacional reconhecer,
incentivar e se beneficiar das inúmeras pesquisas que
são feitas pelos nossos acadêmicos e universidades,
também desgastadas, e aumentar o prestígio de
ambos. Eu me lembro até hoje do famoso "Lord Robbins
Report" sobre educação, um white paper
emitido em 1963 pela Câmara inglesa, um primor de síntese
e clareza com 173 sugestões para uma reforma educacional.
Onde estão nossos white papers de 1963 ou de
1993 sobre aviação, matriz energética
ou sistema viário?
2. Uma comissão
parlamentar de inquérito, no sentido original das palavras,
daria respeitabilidade e divulgação aos assuntos
que a sociedade quer ouvir, e não esquecer, como acontece
agora. Pessoas de prestígio acadêmico e social
seriam ouvidas em plenário com propostas inteligentes,
e não os evasivos e mentirosos a que somos obrigados
a assistir, com proveito zero.
3. O povo seria
ouvido, finalmente. Os "poderosos" não mais mandariam
lobistas para representá-los nem apresentariam suas
propostas às escondidas. Todos teriam de relatar seus
problemas e expor as soluções em público,
diante das câmeras de TV.
4. O Congresso
retomaria sua função legislativa, propondo leis
que antecipam as demandas da sociedade. O Brasil não
cresce porque o Congresso não criou a tempo as leis
para as zonas de processamento de exportações,
para o factoring, o leasing, o private equity atividades
que surgiram sem o arcabouço jurídico necessário,
sem que fossem tropicalizadas para a realidade brasileira.
Estamos sempre a reboque dos fatos, corrigindo erros do passado.
Tenho mais algumas
sugestões que terei o prazer de relatar numa futura
CPI sobre Reforma do Congresso Nacional, com rede de TV e
participação de dezenas de cientistas políticos,
administradores e representantes de prestígio na sociedade.
Seria o primeiro passo para garantir o futuro da democracia
e desse Congresso em franca decadência perante os olhos
do povo brasileiro.
Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School
(www.kanitz.com.br)