Ensaio:Roberto
Pompeu de Toledo A polícia continua
sem policiar
Existe, além
do caos aéreo e do Renan,
um problema de segurança pública o
leitor se lembra?
"A polícia
não policia" era o título de uma entrevista
publicada nas páginas amarelas de VEJA em março
de 1999. O entrevistado era o coronel reformado da Polícia
Militar de São Paulo José Vicente da Silva,
então trabalhando em pesquisas sobre segurança
pública para o Instituto Fernand Braudel de Economia
Mundial. Oito anos passados, o coronel que nesse meio-tempo,
entre outras funções, foi secretário
nacional de Segurança Pública, no governo Fernando
Henrique enviou ao antigo entrevistador uma mensagem
em que faz um balanço do que melhorou e do que continuou
igual em relação a seu diagnóstico daquela
época (a
entrevista de 1999 pode ser lida aqui).
Melhorou, basicamente, a situação em São
Paulo, onde se registrou acentuada queda no número
de homicídios (no ano passado, 56% menos do que em
1999), e, em menor escala, em Minas Gerais. Quanto ao Brasil
como um todo, José Vicente faz as seguintes observações:
"As polícias
Civil e Militar continuam a se estranhar com seus padrões
profissionais e valores (e, na maioria dos estados, salários)
altamente diferenciados. Resultado: em praticamente todos
os estados, desempenho pífio no controle dos crimes
e da violência".
"Com honrosas
exceções, as polícias continuam a desvalorizar
o trabalho do policiamento territorial, aquele em que os policiais
se familiarizam com os bairros, as comunidades, seus problemas
e seus criminosos".
"As polícias
civis continuam a perseguir o modelo judiciário; a
maioria conseguiu nos estados a equiparação
salarial com as carreiras da magistratura, distanciando-se
cada vez mais dos colegas da PM. No Distrito Federal o presidente
do sindicato dos delegados encaminhou ofício ao secretário
da Segurança pleiteando o tratamento de 'excelência'
para a categoria".
"Com exceção
de São Paulo, os índices de esclarecimento de
crimes pelas polícias civis continuam abaixo de 5%;
apesar disso, elas pressionam o STF para declarar que o Ministério
Público não pode executar atividades de investigação".
"As polícias
continuam praticamente livres de cobrança e até
de planos de segurança para seus estados. A sociedade
reclama, faz passeatas, mas não há pressão
organizada e contínua. As autoridades explicam a violência
por muitas razões sociais, mas a polícia nunca
aparece como um dos responsáveis pela violência.
O secretário de Segurança de Pernambuco (O
Globo de 17 de junho) justifica a elevada taxa de mortalidade
pela questão social, pela invasão do crack e
pela proliferação das roças de maconha,
sem mencionar que a taxa de esclarecimento de homicídios
no estado é de 0,8%".
Como o país
é monotemático, ninguém está hoje
falando de segurança pública. Fala-se de crise
da aviação, assim como antes se falou de Renan
Calheiros e antes ainda da empreiteira Gautama. Será
preciso aguardar outro episódio como o do menino João
Hélio para o assunto voltar à tona. Então
esqueceremos os aviões, os aeroportos e o grooving
e aos poucos tudo voltará como dantes em Congonhas,
na Anac e nas salas de controle de vôo.
Como profissional
da área, José Vicente continua, mesmo nesta
época, digamos, de entressafra (em que nem mais as
batalhas no Morro do Alemão emocionam), a debruçar-se
sobre a questão, insistindo sempre que ela tem menos
a ver com nosso caos social do que com uma calamidade política
e administrativa. Recentemente, ele preparou um estudo sobre
o Rio de Janeiro. Para citar apenas um dos dados que ilustravam
esse trabalho, a cidade do Rio concentra 37% da população
do estado, 42% dos homicídios, 64% dos furtos e roubos
de veículos e 64% dos assaltos a pedestres mas
são mantidos em seus limites apenas 6 000 dos 38 000
PMs fluminenses, ou 16% do total. Mais fascinante, só
outra descoberta recente de José Vicente a de
que o governo do Ceará vai comprar 300 luxuosas Toyota
Hilux para sua polícia. "Não conheço
polícia americana que tenha um carro desses", ele comenta.
O dinheiro a ser gasto, segundo José Vicente, daria
para comprar 1 000 viaturas comuns.
Aos desastres estaduais
soma-se a pantomima federal de fingir, de tempos em tempos,
que desta vez vai, deixa comigo para ao palanfrório
habitual seguir-se, como no caso da bagunça aérea
ou das estradas, zero de ação. Ao iniciar-se,
o governo Lula lançou um tal Susp, ou Sistema Único
de Segurança Pública. Não deu em nada,
claro, e então ele promete agora um tal Pronasci, ou
Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania.
É uma velha síndrome nacional, radicalizada
na era Lula: se um plano caduca porque é insuficiente,
porque não se conforma à realidade, porque esbarrou
com resistências corporativas ou porque se teve preguiça
de implementá-lo, faz-se outro. Até que, pelos
mesmos motivos, também ele caduque, e então
se faz um terceiro. O crime provoca perto de 50.000 mortes
por ano no Brasil, segundo o Mapa da Violência, da Unesco.
No Iraque não se chega a tanto; foram 34.000 em 2006,
em estimativa da ONU.