"Um grito de protesto
da classe média é ilegítimo? É
ela hoje o verdadeiro 'negro' do Brasil. Ninguém a
protege: estado, ONG, igrejas, nada... Corajosa, sem líder,
sozinha, sem tucano, vaiou no Rio, vaiou em São Paulo,
quer vaiar no Brasil inteiro"
Fernando Pilatos/Gazeta
Press/AE
Lula, ao lado do governador
Sérgio Cabral, durante a vaia no Maracanã: a oposição
se faz de surda
Quem tem boca vaia
Lula. A frase é lema e divisa de um bom número
de inconformados. Os apupos explodiram primeiro no Maracanã,
na abertura dos Jogos Pan-Americanos. O presidente estava
lá. Foram reiterados na cerimônia de encerramento,
da qual ele se manteve a uma prudente distância. Em
São Paulo, milhares de pessoas enfrentaram o frio numa
passeata, unidas pela palavra "Cansei". As 75 000 vozes do
13 de Julho, no estádio carioca, eram um protesto e
uma premonição: quatro dias depois, 199 corpos
assariam na pira macabra da desídia. Não sei
quem se surpreendeu mais com o coro dos descontentes: o próprio
Lula, acostumado aos paparicos de seus bolsistas, ou as oposições,
em especial o PSDB, cujos líderes trocam bicadas para
ter o discutível privilégio de ser o preferido
do Estimado Líder.
Surpresa? Vaias
e passeata nada têm de inexplicável. Lula obteve
o segundo mandato com 58 milhões de votos e
isso significa que 66 milhões de eleitores não
o escolheram. Lanço aqui uma sombra de ilegitimidade
sobre o seu mandato? Não até porque acho
o voto obrigatório indecente. Relevo é o fato
de que o petista está longe de ser uma unanimidade.
A exemplo do que se viu no primeiro mandato, as dificuldades
políticas que ele enfrenta, no entanto, são
obra de seus próprios aliados e de sua administração,
jamais dos adversários. E por quê? Porque o Brasil
esqueceu e esta é uma tarefa das oposições
como se faz política sem crise econômica.
Desde a redemocratização,
é a tal crise, ou a ameaça dela, que pauta o
debate. Ela tem sido o elemento redutor de todas as divergências
e demandas. Ora, catorze anos de aposta na estabilidade, já
caminhando para quinze, expulsaram esse fantasma. Em algum
lugar, é certo, ele se esconde. Mas isso é verdade
para qualquer país a prosperidade perpétua
é uma utopia. Ocorre que não adianta mais anunciar
nem o apocalipse nem a redenção. Quem quiser
tomar a cadeira do PT vai ter de redescobrir a política,
que pauta os debates e divide opiniões nas outras democracias.
Antes que prossiga
na trilha do primeiro parágrafo, permitam-me uma digressão.
A Al Qaeda eletrônica do petismo e os colunistas que
jamais dizem "Epa!" apressam-se em abraçar duas explicações
distintas, mas combinadas, para os protestos: 1) partem da
classe média branca e incluída; 2) são
manifestações manipuladas por golpistas. Os
petistas estão indecisos, como se vê, entre o
arranca-rabo de classes e a teoria conspiratória. Os
terroristas cibernéticos células dormentes
da esquerdopatia despertadas para defender o chefe
atuam para tirar dos ombros de Lula a responsabilidade por
seu próprio governo.
Ainda que estivessem
certos, pergunto: um grito de protesto da classe média
é ilegítimo? É ela hoje o verdadeiro
"negro" do Brasil: paga impostos abusivos; não utiliza
um miserável serviço do estado, sendo obrigada
a arcar com os custos de saúde, educação
e segurança; tem perdido progressivamente a capacidade
de consumo e de poupança; é o esteio das políticas
ditas sociais do governo, e, por que não lembrar?,
ninguém a protege: estado, ONG, igrejas, nada... Está
entregue a si mesma: nas escolas, nas ruas, nos campos, nos
aeroportos. Pior: está proibida até de velar
os seus mortos. Quando um classe-média morre de bala
perdida ou assado num avião, o protesto é logo
abafado pela tese delinqüente de algum cientista social
ou jornalista que acusa a gritaria dos incluídos. Lula
foi vaiado no Maracanã porque era o nhonhô na
senzala dos escravos do seu regime.
Começo aqui
a juntar o fio da minha digressão com aquele que está
lá no início do texto. É possível,
sim, que houvesse no Maracanã e nas ruas de São
Paulo uma maioria de pessoas da classe média. São
os espoliados do regime lulista, mas também homens
livres porque não dependentes da caridade estatal,
da papa servida na senzala ou na casa-grande. Eu lhes apresento
o MSB: o Movimento dos Sem-Bolsa. Não são nem
os peixes grandes, que se alimentam da Bolsa-BNDES, nem os
peixes pequenos, que vivem do Bolsa Família. A classe
média, coitadinha, se financia é nos bancos
mesmo, sem taxa camarada.
Corajosa, sem líder,
sozinha, sem tucano, vaiou no Rio, vaiou em São Paulo,
quer vaiar no Brasil inteiro. Os oposicionistas estão
se fazendo de surdos. Se é para levar alguns espertalhões
para o Conselho de Ética, deixam a tarefa para o PSOL.
O governo debate a ampliação do aborto legal
e chega a adotar um método abortivo, contra a Constituição?
Eles ignoram. Lula veta uma emenda da Super-Receita e pode
provocar um desastre nas microempresas de serviços?
Quatro milhões de pessoas ficam ao relento, sem apoio.
Um grupinho de aloprados resolve recriar a censura prévia
no país? Não se ouve uma voz graduada em sinal
de protesto. A crise nos aeroportos mata? A reação
é não mais do que burocrática. Debate-se
a possibilidade de as Forças Armadas agirem no combate
ao crime, em vez de ficar internadas, engraxando baionetas
enferrujadas? Os líderes da oposição,
especialmente tucanos, nada têm a dizer. O país
cobra a maioridade penal aos 16 anos? Eles esperam passar
o clamor.
O austríaco
Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, perguntou,
certa feita, sem chegar a uma resposta definitiva: "Mas, afinal,
o que querem as mulheres?". Serei o barbudo de charuto do
PSDB e do DEM: "Mas, afinal, o que querem as oposições?".
Admito que elas não formem um grupo homogêneo,
o que as impede, sei bem, de desejar uma única coisa.
Se as mulheres vistas por Freud demonstravam uma inquietude
sem alvo ou ainda sem objeto definido (ao menos para ele),
as oposições padecem é de excessiva quietude
e condescendência com o lulismo. E gostam de se comportar
como a mulher do padre: deixam que o petista defina a sua
identidade e só exercem o papel que Lula lhes outorga.
Assim, vai-se fazendo
uma política que se manifesta como negação
da política: líderes oposicionistas, especialmente
os governadores, estão sempre ocupados em negar que
tal ou qual ação seja contra o governo federal
como se fosse um ato criminoso opor-se a ele. Cria-se
uma cisão, que é pura especulação
teórica, sem base empírica, entre "administrar"
e "fazer política". E qual é o marcador dessa
falsa disjunção? A economia. Como não
se vislumbra a possibilidade de uma crise nos três ou
quatro anos vindouros, os oposicionistas, sobretudo tucanos,
parecem ambicionar apresentar-se como a resposta necessária
para os desafios do pós-Lula mas de braços
dados com o lulismo.
Há nessa
pretensão uma formidável ilusão, que
consiste em supor que se possa ter um lulismo sem Lula; que
se possa apenas dar mais eficiência à economia,
mas preservando os fundamentos do estado patrão, assistencialista,
gigante e reparador. As oposições refugam todas
as chances que apareceram de ter uma agenda própria
e de falar àquela gente do Maracanã e dos aeroportos.
Gente capaz de, resistindo à gigantesca máquina
oficial de culto à personalidade, vaiar Lula. Os que
deveriam liderar a resistência tornam-se caudatários
e até propagandistas do assistencialismo, tentando
emular com aquele que deveria ser o seu antípoda. E
eu lhes digo: inexiste um lulismo virtuoso, universitário,
de barba feita e gramática no lugar. Inexiste o lulismo
sem Lula.
Sim, a vaia do
Maracanã era um protesto e uma premonição;
expressava um juízo sobre o passado e traduzia uma
expectativa, macabramente cumprida. O Maracanã e o
movimento "Cansei" não são o Brasil, sei bem.
Mas são bastante representativos da parcela que não
tem nem Bolsa Família nem Bolsa BNDES. Um Brasil que,
pasmem!, é a imensa maioria. Falta que se tenha essa
clareza. A crise política que aí está
é uma crise de liderança das oposições.
Ou alguém se apresenta ou já pode ir-se preparando
para entrar também na fila da vaia.