Sem supervisão,
computadores nas escolas
brasileiras mais distraem do que ensinam
Camila Antunes
Alexandre Schneider
Escola Ernani Bruno, em São
Paulo: os professores não sabem usar os PCs
O computador é
uma poderosa ferramenta do aprendizado. Por meio dele, os
estudantes podem ingressar em redes virtuais, compartilhar
projetos de pesquisa e acessar gigantescos bancos de dados.
No entanto, não é o que tem ocorrido no Brasil.
Uma pesquisa do Ministério da Educação
(MEC) permite afirmar que o aparecimento de novos laboratórios
de computadores nas escolas brasileiras fez o ensino piorar.
Segundo a pesquisa, estudantes que usam computadores nas escolas
estão seis meses atrasados nas matérias curriculares
em relação aos alunos sem acesso ao equipamento.
Para chegarem a tais conclusões, os especialistas reuniram
as notas dos estudantes nas três últimas edições
do Saeb, prova aplicada pelo MEC para aferir a qualidade do
ensino básico. Por meio de recursos estatísticos,
eles conseguiram medir o grau de influência do computador
sobre o desempenho dos alunos com acesso ao aparelho
38% das escolas públicas já têm PCs instalados.
Outras pesquisas
já haviam mostrado que os computadores têm contribuído
pouco (ou nada) para a excelência nas escolas brasileiras.
Até esse momento, no entanto, nenhuma delas havia traçado
um retrato tão negativo. Analisa a especialista Fabiana
de Felício, autora do estudo: "Sem a supervisão
dos professores, as crianças perdem tempo em frente
ao computador com atividades sem nenhuma relevância
para o ensino". Leia-se: jogos e bate-papos virtuais. Países
onde os estudantes cultivam o hábito de usar o computador
na escola têm uma lição elementar a ensinar
ao Brasil. Tais projetos só foram adiante com sucesso
porque os professores receberam treinamento para fazer uso
dos PCs para fins pedagógicos. No Chile, é o
caso de 80% dos docentes. No Canadá, as escolas contratam
ainda especialistas encarregados de organizar bibliotecas
de softwares e orientar os professores sobre como aplicá-los
em sala de aula. As escolas brasileiras estão a anos-luz
dessa realidade. "Aqui os professores mal sabem ligar o computador",
resume Roseli Lopes, coordenadora no Núcleo de Sistemas
Integrados da Universidade de São Paulo (USP). Ela
é uma das responsáveis pela implantação
de um programa do governo federal cujo objetivo é distribuir
laptops aos 30 milhões de estudantes da rede pública.
Proporcionar às
crianças pobres acesso ao computador é um fato
positivo, e ninguém discorda disso. Mas não
basta jogar os aparelhos dentro das salas de aula para que
eles produzam milagres. É preciso treinar os professores,
adaptar os aparelhos a projetos pedagógicos e supervisionar
seu uso pelos estudantes. Numa visita à escola pública
Ernani Silva Bruno, de São Paulo, uma das cinco no
país que servem de piloto ao projeto, tem-se uma idéia
mais realista das dificuldades à vista. Enquanto uma
professora quer saber como aciona a letra maiúscula
no teclado do laptop, a estudante Giovana Gomes, de 11 anos,
expressa sua ambição em relação
à nova máquina: "Vou poder brincar no site da
Barbie e jogar games na escola". Sem supervisão, Giovana
e seus colegas não irão longe.