Quem é Jorvan
Vieira, o brasileiro que
levou o Iraque à vitória na Copa da Ásia
Duda Teixeira
Reuters
Vieira, festejado após a vitória:
conversas em árabe para unir o time
Desde a queda de Saddam Hussein, os iraquianos não
faziam tanta festa. Pela primeira vez, a seleção
do país conquistou a Copa da Ásia. O time iraquiano,
zebra da competição, venceu a Arábia
Saudita por 1 a 0 na final em Jacarta, na Indonésia,
no domingo 29. O herói da conquista foi o técnico
Jorvan Vieira, um brasileiro até então praticamente
desconhecido no Brasil. Em apenas seis semanas, ele transformou
uma equipe de jogadores desunidos e fora de forma em um time
motivado e campeão, o que fez com que a imprensa européia
o chamasse de "milagreiro".
Vieira aceitou
o desafio de treinar a seleção depois de vários
técnicos iraquianos terem declinado da proposta devido
a ameaças de morte. Sua primeira impressão ao
ver o time em campo foi péssima. Curdos não
passavam a bola para os xiitas, que não tabelavam com
sunitas. Vieira, que fala árabe com fluência,
começou por conversar demoradamente com os jogadores.
"Deixei claro que a missão principal deles era mostrar
ao povo iraquiano que é possível conviver com
as diferenças", disse o técnico a VEJA. Vieira
tem um currículo pouco comum entre os técnicos
brasileiros. Estudou educação física
no Rio de Janeiro, fez pós-graduação
na Alemanha e é capaz de se expressar em sete idiomas.
A carreira internacional começou quase trinta anos
atrás. Preparador físico da Portuguesa carioca,
ele foi convidado a trabalhar no Catar. Pesou na proposta
o fato de ele ser, então, um dos poucos profissionais
do futebol brasileiro a falar inglês.
O técnico
nunca mais voltou a viver no Brasil, onde tem uma filha do
primeiro casamento. Em 1993, casou-se com uma aeromoça
marroquina, Khadija Fahim. O casal tem um filho de 10 anos
e vive em Casablanca, no Marrocos. A integração
de Vieira ao mundo árabe incluiu a conversão
ao islamismo, em 1990. Hoje, ele reza cinco vezes por dia,
como manda a religião, mesmo que precise interromper
o treino. O brasileiro só aceitou o comando da seleção
do Iraque depois de receber a garantia de que não seria
preciso ir a Bagdá. A equipe concentrou-se em Amã,
na vizinha Jordânia. A distância não impediu
que o time fosse afetado pelo conflito iraquiano. Cada jogador
perdeu pelo menos um parente no conflito. Na comemoração
pela vitória nas semifinais contra a Coréia
do Sul, dois atentados mataram mais de cinqüenta torcedores
que festejavam a conquista. Em memória a eles, Vieira
e os jogadores passaram a usar uma faixa negra no braço.
No momento, ele estuda propostas de trabalho da Coréia
do Sul e da Arábia Saudita. Mas seu sonho é
ser treinador na Espanha.
A FICHA DE JORVAN
Idade:
53 anos
Onde nasceu:
Duque de Caxias, RJ
Onde mora:
Casablanca, Marrocos
Deixou
o Brasil em: 1978, para atuar no Catar
Principal
conquista: técnico da seleção
iraquiana, campeã da Copa da Ásia
Idiomas
em que se expressa: português, árabe,
inglês, francês, espanhol, italiano, darija
(dialeto marroquino). Entende o alemão e o malaio
Países
onde trabalhou: Brasil, Catar, Jordânia, Malásia,
Kuwait, Omã, Egito, Marrocos, Portugal e Iraque