Foi divulgada a transcrição
dos diálogos ocorridos na cabine de comando do Airbus
A320 da TAM durante os trinta minutos que antecederam a explosão
da aeronave. Nas conversas, o comandante Kleyber Lima e o
co-piloto Henrique Stephanini Di Sacco trocam informações
sobre a situação dos equipamentos e perguntam
à torre do Aeroporto de Congonhas sobre as condições
da pista. As gravações mostram que, até
o momento do pouso, tudo ia bem no vôo 3054 da TAM.
Apenas nos segundos finais, depois que o A320 toca o solo,
é que os pilotos percebem que o avião está
fora de controle. Os diálogos que se seguem a partir
daí chocam pela dramaticidade. Mas, cruzados com as
informações registradas pela segunda caixa-preta,
a que contém os dados do vôo, eles ajudam a entender
melhor as causas que levaram ao acidente. Essa segunda caixa-preta
informa, claramente, que o manete da turbina direita do avião
(aquela com o reverso travado) estava no lugar errado no momento
em que o Airbus tocou a pista, e lá ficou até
o momento do acidente, como VEJA antecipou em sua edição
passada. Esse manete foi deixado na posição
de "aceleração", incompatível com o procedimento
de pouso. Segundo disse aos parlamentares o brigadeiro Jorge
Kersul Filho, chefe do Centro de Investigação
e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos
(Cenipa), a posição errada da alavanca, ao que
tudo indica, fez com que o avião "entendesse" que o
piloto não pretendia parar, mas arremeter -- ou seja,
fazer uma nova decolagem. Com isso, o computador bloqueou
o sistema automático de freios, que inclui os spoilers,
e jogou potência máxima na turbina direita do
Airbus. Acabou empurrando-o para a tragédia. Ao executar
essa operação, o computador apenas obedeceu
à sua programação.
Mesmo depois da divulgação
das primeiras investigações, aventou-se a hipótese
de que, no lugar de falha humana, poderia ter ocorrido um
erro não especificado nos computadores de bordo, ou
ainda na caixa-preta. Por essa versão, o piloto teria
colocado o manete direito na posição correta,
mas algo fez com que a caixa-preta registrasse um movimento
diferente. VEJA conversou com Raymond Auffray, ex-chefe da
comissão francesa de investigação de
acidentes aeronáuticos e uma das maiores autoridades
do mundo no assunto. Diz ele: "Nos mais de 3.000 casos que
já investiguei, nunca vi uma caixa-preta registrar
dados de maneira errada. Se há uma pane de transmissão,
por exemplo, ela pode deixar de receber informações.
Mas, se o registro existe, ele será absolutamente fiel
à ação ocorrida". Questionado se o computador
de bordo não poderia ter "lido" errado um comando manual
corretamente executado pelo piloto, o especialista respondeu:
"Jamais encontrei um caso em que o sistema de computadores
tenha desobedecido a um comando do manete. Desconheço
um caso similar na história da Aeronáutica".
Para reforçar a hipótese
de falha nos computadores, chegou-se a afirmar que um profissional
experiente como Kleyber Lima, com mais de 14.000 horas de
vôo, jamais cometeria um erro na operação
dos manetes, considerado primário. Seria tranqüilizador
se a premissa fosse verdadeira, mas não é. Em
um dos acidentes semelhantes ao da TAM ocorridos com aviões
A320 da Airbus -- o de Taipei, em 2004 --, o piloto também
era experiente. E cometeu o mesmo erro. O comandante do vôo
de Taipei tinha 12.900 horas de vôo, sendo 8.700 em
A320 e A321. É compreensível que, num momento
de grande comoção como este, se resista a admitir
que uma tragédia como a do avião da TAM possa
ter tido origem no equívoco de uma ou duas pessoas.
O fato, contudo, é que todas as informações
conhecidas até agora mostram que houve erro na operação
dos manetes -- e não há nenhum dado concreto
que aponte para ocorrência de falha eletrônica
ou mecânica. Enfatize-se que isso não torna o
comandante o único responsável pela tragédia.
A lógica do transporte aéreo não pode
ignorar a possibilidade de que pilotos, em algum momento,
cometam equívocos. Pelo contrário, essa possibilidade
está computada no momento em que se projetam, por exemplo,
sistemas de alarme que avisam os pilotos sobre um erro em
curso, ou que se constroem áreas de segurança
em pistas de pouso para evitar, inclusive, que equívocos
porventura cometidos por comandantes impeçam as aeronaves
de parar onde deveriam. O A320 da TAM não dispunha
de um sistema eficiente de alarme contra erros, tampouco a
pista em que ele se acidentou oferecia alguma margem de segurança.
Tudo indica que houve erro do piloto, sim. Mas outros o precederam.