O presidente do Senado,
Renan
Calheiros, usou laranjas e pagou
1,3 milhão de reais em dinheiro
vivo, parte em dólares, para virar
sócio oculto de uma empresa de
comunicação em Alagoas
Alexandre Oltramari
Clique
para ampliar
Fotos de Ana Araujo e
Ed Ferreira/AE
NEGÓCIO
MILIONÁRIO
Renan, a proposta de venda em seu nome e a sede das emissoras
de rádio em Maceió: nada declarado à
Receita
O presidente do
Congresso, senador Renan Calheiros, é um homem milionário.
Dono de fazendas, casa na praia, apartamento, carros de luxo
e os valorizados bois de Murici, seu patrimônio oficial
é estimado em cerca de 10 milhões de reais.
Descobriu-se agora que a fortuna do senador é ainda
maior. Além de pecuarista, Renan é um empresário
emergente do ramo das comunicações. Ele é
dono de duas emissoras de rádio em Alagoas que valem
cerca de 2,5 milhões de reais e, até dois anos
atrás, foi sócio de um jornal diário
cujo valor é de 3 milhões. Pouca gente em Alagoas
conhece essas atividades do senador. E por uma razão
elementar: os negócios de Renan são clandestinos,
irregulares, forjados de modo a manter o anonimato dos envolvidos.
Para que isso fosse possível, a compra das emissoras
de rádio e do jornal foi colocada em nome de laranjas,
formalizada por meio de contratos de gaveta e paga com dinheiro
vivo às vezes em dólares, às vezes
em reais. Tudo feito à margem da lei, com recursos
de origem desconhecida, a participação de funcionários
do Senado e, principalmente, visando a garantir que a identidade
do verdadeiro dono, o senador Renan Calheiros, ficasse encoberta.
Robson Lima/Gazeta de Alagoas
Marco Borelli/O Jornal
TAL PAI, TAL FILHO
Renanzinho é um fenômeno: seu patrimônio
se resumia a um Golf usado
FAMÍLIA UNIDA
Tito Uchôa, primo de Renan, é um dos laranjas
do senador na empresa de comunicação
VEJA teve acesso
a documentos que mostram como o senador criou uma empresa
de comunicação, incorporou emissoras de rádio
e escondeu tudo isso da Receita Federal, da Justiça
Eleitoral e do Congresso Nacional. No fim de 1998, Renan Calheiros
planejava se candidatar ao governo de Alagoas nas próximas
eleições, mas encontrava resistências,
principalmente de um ex-aliado, o ex-presidente Fernando Collor,
que lhe fazia uma oposição implacável
em suas emissoras de rádio, TV e por meio do maior
jornal do estado, a Gazeta de Alagoas. Renan Calheiros
soube que outro empresário do ramo, Nazário
Pimentel, estava querendo se desfazer de um jornal e de uma
rádio e vislumbrou a possibilidade de montar seu próprio
império de comunicação, comprando o grupo
O Jornal, que detinha a concessão de uma rádio,
a atual Rádio Correio, e o segundo jornal mais lido
do estado, O Jornal. O grupo estava avaliado em 2,6
milhões de reais. Como o valor era alto demais, Renan
Calheiros decidiu procurar um sócio para a empreitada.
O escolhido foi o usineiro João Lyra, sogro de Pedro
Collor, cujas denúncias acabaram resultando no impeachment
do irmão Fernando Collor. Lyra gostou da idéia.
Calheiros e Lyra fizeram um acordo pelo qual cada um entraria
com a metade. Renan, portanto, ficou de pagar 1,3 milhão
de reais mais do que o patrimônio total que ele
declarava possuir à época. Como Calheiros não
tinha todo o dinheiro disponível no momento, ficou
combinado que o usineiro lhe emprestaria 700.000 reais, quantia
que o senador, depois, saldaria em parcelas mensais.
Renan Calheiros
cumpriu o que foi acertado e saldou a dívida ao longo
de 1999. Mas nunca usou banco, cheques ou transferências
eletrônicas. A exemplo do que fez no caso do pagamento
da pensão de sua filha, quando pediu o apoio de um
lobista de empreiteira, ele, de novo, utilizou como tesoureiro
um intermediário com envelopes cheios de dinheiro.
Dessa vez, o pagador das mensalidades foi o assessor legislativo
Everaldo França Ferro, funcionário de confiança
do gabinete do senador. O assessor fez entregas em dinheiro
vivo que totalizaram 700.000 reais. Na maioria das vezes,
Everaldo Ferro fez os pagamentos em Brasília, mas houve
casos em que marcou encontros em São Paulo e em Alagoas.
As entregas não tinham regularidade absoluta. Renan
Calheiros chegava a atrasar dois meses. Certa vez, pediu paciência
ao sócio Lyra, justificando que o dinheiro estava vindo
do Rio Grande do Sul. Indício de que havia alguém
financiando a empreitada do senador? Talvez. Chama atenção
também a moeda utilizada por Renan Calheiros. "O dinheiro
às vezes chegava em dólares, às vezes
em reais", confirma um dos envolvidos na negociação.
Procurado, Everaldo Ferro não quis dar entrevista.
Lotado no gabinete de Renan Calheiros há anos, o assessor
é responsável pela agenda política do
senador junto aos ministérios. Em outras palavras,
ele acompanha a liberação de emendas, marca
audiências, conversa com empreiteiros. Por causa dessa
desenvoltura, o assessor está às voltas com
a Polícia Federal. Everaldo Ferro foi flagrado conversando
com o empreiteiro Zuleido Veras, da Gautama, o amigo de Renan
Calheiros que foi preso sob a acusação de corrupção
e fraude em licitações. A polícia suspeita
que os dois falavam da liberação de dinheiro
para uma obra-fantasma em Alagoas.
Clique
para ampliar
José Emilio Perillo
FIRMA
RECONHECIDA
VEJA obteve recibos referentes a uma parte do pagamento
feito pelo senador de sua parcela na sociedade que o transformou
em empresário oculto do setor de comunicação:
assinatura do primo
Com os 700.000 reais
emprestados do usineiro, Renan Calheiros precisava conseguir
os 650.000 reais restantes. Não se sabe de onde saiu
o dinheiro, mas seu portador foi o empresário Tito
Uchôa, primo do senador. Entre março e junho
de 1999, Tito Uchôa levou os 650.000 reais ao dono do
grupo O Jornal, Nazário Pimentel, em quatro parcelas,
sendo a primeira de 350.000 reais e três outras de 100.000
reais cada uma, conforme cópias de recibos obtidos
por VEJA (leia
na pág. 64). Em um dos recibos, datado
de março, está descrito que o pagamento é
pela cessão de cotas da Empresa Editora O Jornal e
da Rádio Manguaba do Pilar, atual Rádio Correio
dos Calheiros. Será que os 650.000 reais pertenciam
ao empresário e primo Tito Uchôa? Na ocasião,
Tito Uchôa nem empresário era. Dava expediente
na Delegacia Regional do Trabalho e tinha um salário
de 1 390 reais. Fora as referências à origem
geográfica do dinheiro o Rio Grande do Sul ,
Renan Calheiros nunca comentou nada sobre a fonte de tantos
recursos. Dessa forma, com um contrato de gaveta, laranjas
e pilhas de dólares e reais em envelopes pardos, o
senador iniciou sua incursão no mundo empresarial das
comunicações.
A sociedade secreta
de Renan Calheiros e João Lyra era ambiciosa. Usando
a influência política que tinha no governo federal,
Renan planejou montar uma rede de emissoras espalhadas por
Alagoas a partir das outorgas de concessões públicas
que suas relações conseguiriam garimpar em Brasília.
Para servir como uma espécie de holding do grupo e
ao mesmo tempo manter o anonimato, eles criaram a JR Radiodifusão
"J" de João e "R" de Renan , que seria
a dona das novas concessões que viriam de Brasília.
Apesar de a empresa ter as iniciais dos dois, os donos oficiais
eram laranjas. Da parte do senador, o laranja era Carlos Ricardo
Santa Ritta, funcionário de seu gabinete em Brasília
e ex-tesoureiro de sua campanha. Da parte de João Lyra,
o representante era o corretor de imóveis José
Carlos Paes, seu amigo de Maceió. A sociedade durou
até março de 2005. Divergências na maneira
de administrar o grupo levaram Renan Calheiros e João
Lyra a se separar. O usineiro ficou com O Jornal e
Renan Calheiros, com a Rádio Correio e a empresa JR
Radiodifusão. As evidências sobre o patrimônio
oculto do senador percorrem caminhos oficiais a partir da
separação.
Documentos registrados
na Junta Comercial de Alagoas revelam que, em março
de 2005, quando se deu o fim da sociedade, o corretor José
Carlos Paes, o representante de João Lyra, deixa a
JR. Em seu lugar, Renan Calheiros coloca o primo e empresário
Tito Uchôa, o mesmo que servira de pombo-correio do
negócio original. Dois meses depois, nova alteração
contratual. Carlos Santa Ritta, o laranja-funcionário
do gabinete, transfere sua participação na JR
para Renan Calheiros Filho, o Renanzinho, filho do senador.
Como estava previsto desde o início, a interação
dos negócios empresariais do senador Calheiros com
a política deu resultados. Em junho do ano passado,
o Ministério das Comunicações liberou
à JR a concessão de uma rádio FM para
operar na cidade de Joaquim Gomes, no interior de Alagoas.
É a Rádio Porto Real. A outorga foi aprovada
pelo Congresso, presidido por Renan Calheiros, no dia 13 de
abril deste ano. Apesar de ter o filho do senador e o primo
do senador como sócios na época da concessão,
a JR continua até hoje registrada no Ministério
das Comunicações em nome dos laranjas José
Carlos Pacheco Paes e Carlos Ricardo Nascimento Santa Ritta.
Ou seja, do ponto de vista formal, o Ministério das
Comunicações e o Congresso concederam uma rádio
FM a duas pessoas sem nenhuma relação familiar
com o senador Renan. Na prática, a sociedade montada
com dólares obtidos sabe-se lá como e oriundos
de sabe-se lá onde e que hoje pertence oficialmente
ao filho e ao primo do senador é bem tratada pelo Congresso
presidido pelo senador. Antes disso, em dezembro do ano passado,
o governo federal concedera à JR uma outorga para operar
uma emissora FM na cidade de Água Branca, também
em Alagoas. A autorização foi rejeitada pela
Câmara dos Deputados por falhas na documentação
e devolvida ao Executivo. Assim, ao menos por enquanto, Renan
Calheiros é proprietário de apenas duas emissoras
a Rádio Correio e a Rádio Porto Real
, cujo valor de mercado beira os 2,5 milhões
de reais.
Ueslei Marcelino/Folha
Imagem
SUSPEITAS
O assessor de Renan que transportava envelopes de dinheiro
já foi flagrado em conversas estranhas com o empreiteiro
Zuleido Veras (acima); abaixo, a polêmica
fazenda produtiva do senador
Dida Sampaio/AE
VEJA localizou o
antigo dono do grupo O Jornal, Nazário Ramos Pimentel.
Ele disse que vendeu suas empresas apenas a João Lyra,
mas admitiu que toda a negociação foi feita
com o senador Renan Calheiros. "Renan me procurou falando
do interesse do doutor João em comprar a rádio
e o jornal. Aí, depois de uns três, quatro meses
de conversa, fechamos a negociação", lembra
Pimentel. Qual o valor do negócio? "Não lembro
bem, mas somente as rotativas do jornal custavam algo em torno
de 1 milhão de reais." Segundo o empresário,
o senador atuou como uma espécie de intermediário.
"Eu sabia que havia um interesse pessoal dele, principalmente
na rádio, mas a compra foi fechada pelo doutor João."
A participação de Renan Calheiros no negócio
é tão evidente que a proposta comercial de venda
da rádio e do jornal foi entregue "em mãos"
ao senador, e não ao usineiro. O senador pode até
alegar que fez apenas o papel de intermediário no negócio,
mas isso não explica o milagre de ter feito com que
as empresas acabassem nas mãos dele próprio
ou melhor, de seu filho e seu primo...
Procurado por VEJA,
Renan Calheiros não quis se manifestar. O usineiro
João Lyra, que hoje é adversário político
do senador, também não quis falar. Mandou dizer
por meio de sua assessoria que os negócios entre ele
e Renan Calheiros são privados e que, por isso, não
tinha nada a comentar sobre a sociedade que manteve ao longo
de sete anos. Na semana passada, outros negócios estranhos
envolvendo o senador viraram alvo de investigação
no Congresso. O PSOL protocolou um pedido de abertura de processo
para apurar se ele fez lobby a favor da cervejaria Schincariol
junto a órgãos do governo. A Schincariol comprou
uma fábrica de refrigerantes da família Calheiros
em Alagoas por 27 milhões de reais, valor muito superior
ao de mercado, conforme revelou VEJA. Renan, antes do negócio,
fez um périplo pela Receita e pelo INSS em busca de
informações sobre multas e dívidas da
empresa. Na mesma representação, o partido pede
que o Conselho de Ética investigue se Renan Calheiros
participou de grilagem de terras em Alagoas, denúncia
que está sendo investigada pelo Ministério Público
e provocou intervenção no Cartório de
Registro de Imóveis de Murici, onde teria ocorrido
a fraude. Por último, as investigações
sobre a origem do dinheiro que o senador usou para pagar a
pensão de sua filha sofreram um novo revés.
O Frigorífico Mafrial, que Renan Calheiros alega estar
na origem de sua fortuna agropecuária, foi assaltado
na noite de quarta-feira. Documentos que seriam importantes
para a perícia da Polícia Federal teriam sido
levados por ladrões. Uma dessas coincidências
muito comuns em Alagoas.
OS
LARANJAS
Em janeiro de 2002, Ricardo Santa Ritta, assessor de Renan,
criou a JR Radiodifusão, juntamente com o empresário
José Carlos Paes, amigo de João Lyra. São
papéis de mentirinha. A sociedade real era entre
Renan e Lyra.
AMIZADE
ROMPIDA
Insatisfeitos com a parceria, Renan e Lyra decidem pôr
fim à sociedade nas rádios e no jornal,
em março de 2005. Tudo feito no mesmo dia. No papel,
a JR é transferida para Tito Uchôa, primo
do senador
NO
COLO DA FAMÍLIA Dois meses depois,
em maio de 2005, um dos filhos do presidente do Senado,
José Renan Calheiros Filho, é admitido na
JR como sócio. Pelo trato, João Lyra ficou
com o jornal e Renan com uma rádio