A vida de presidiária
da socialite que sacudia Brasília com festas de arromba
e jantares temperados com pó de ouro
Alexandre Oltramari
Cristiano Mariz
"Eu me dei o direito
de me sentir em um spa, sabe? Minha cela
é um pouco apertada, mas as guardas parecem enfermeiras,
de tão limpinhas e arrumadinhas"
Hoje,
a socialite Wilma Magalhães, de 45 anos, é uma
submergente. Filha de um garçom e de uma dona-de-casa,
Wilma enriqueceu no início dos anos 90 ao montar duas
empresas (câmbio e factoring) no ramo de, digamos assim,
prestação de serviços. Principal símbolo
do colunismo social de Brasília, a então emergente
Wilma desfilava roupas de grifes caras, costumava ser vista
a bordo de carrões importados e recebia em sua mansão
alguns dos principais políticos do país, a quem
servia faustosos jantares regados a champanhe e temperados
com pó de ouro. A casa de Wilma caiu há dois
meses. A socialite foi condenada a uma pena de seis anos de
prisão sob a acusação de ter montado
um esquema criminoso para legalizar propinas recebidas por
um dos principais símbolos da corrupção
nacional, o ex-deputado João Alves, um dos célebres
anões do Orçamento. Divorciada, mãe de
dois filhos, Wilma teve de trocar a vida de badalação
por uma cela do tamanho do lavabo de sua casa. Depois de uma
temporada em regime fechado, ela foi liberada para trabalhar
de dia. Todas as noites, porém, volta para o xilindró.
Baixo-astral? Que nada. Wilma continua saltitante. "Sou chiquérrima",
diz ela, sem perder a pose.
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Dá para ser chique morando na cadeia?
Wilma Dá, sim. Fiz um enxoval para levar
para a penitenciária. Não pude comprar pessoalmente,
mas encomendei tudo. Toda a minha roupa é branca. Comprei
calças de moletom e blusas branquinhas, calcinhas novinhas,
sutiãs novos, cobertor novo, tudo novinho. É
óbvio que quando eu sair de lá não quero
levar nada. Vou doar tudo. Sou chiquérrima. Todo mundo
adora quando eu chego. As funcionárias abrem uma porta
bem pequena que tem na cela para perguntar se eu quero remédio.
Sei que fazem isso só para me ver.
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Seu lema, antes da prisão, era "A vida continua
uma festa". Continua?
Wilma Continua. Domingo fiz um programa diferente
na penitenciária. Encomendei uma lasanha e um suco
de uva. A lasanha era de caixinha. Esquentei no microondas.
Imaginei que estava comendo a lasanha na Itália e bebendo
um vinho tinto caríssimo em Bordeaux. Fiquei muito
feliz.
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O que a senhora sentiu ao ser presa?
Wilma Fiquei muito assustada quando a polícia
apareceu na minha casa, no Lago Sul. O policial falou que
havia uma ocorrência sobre um laptop. Ele me mostrou
um papel. Quando fui pegá-lo, recebi ordem de prisão.
Eu havia acabado de voltar da academia. Ainda estava com a
roupa de ginástica. Não entendi o que estava
acontecendo. Nunca pensei que fosse ser presa. Pedi ao policial
que me acompanhasse até o closet. Aí coloquei
uma calça e uma blusa sobre a roupa da academia. No
caminho, ele me disse que podia ter ido me buscar com uma
viatura e me algemado, mas, por consideração
a mim, estava me conduzindo daquele jeito. Agradeci.
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Como é a sua rotina no presídio?
Wilma Eu me dei o direito de me sentir em um
spa, sabe? É como se estivesse me tratando de um problema
em um hospital. Todos os quartos têm televisão
e chuveiro elétrico. Minha cela, que divido com outras
duas presas, é um pouco apertada. Tem o mesmo tamanho
do lavabo da minha casa. Mas as guardas parecem enfermeiras,
de tão limpinhas e arrumadinhas. Até um mês
atrás, quando eu não podia sair de lá
durante o dia, eu acordava às 7 e meia da manhã.
Tomava café, via televisão e ia para o pátio
tomar sol. Era pouco tempo, cerca de quinze minutos, mas dava
para fazer ginástica ou simplesmente deitar e ficar
viajando. Depois, almoçava, dormia muito à tarde,
tomava banho e voltava a ver um pouco de televisão.
Veja Mas
deve ter sido muito difícil trocar a vida confortável
que a senhora tinha por uma cela na penitenciária,
não?
Wilma Não. Vou dar um exemplo: dias atrás,
quando voltava para o presídio, liguei para uma amiga.
Ela estava chorando porque não arrumava namorado. Ela
é linda e bem de vida. Essa tristeza que existe no
coração de algumas pessoas não existe
no meu.
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Qual é a pior situação que a senhora
enfrentou na cadeia?
Wilma Nada pode na penitenciária. No
começo, eu não entendia por que não podia.
Um grampinho de cabelo do tamanho de uma formiguinha eles
não deixam entrar porque é perigoso. Todos os
meus sutiãs, que são da grife Victoria's Secret,
têm arame. Não pude levar nenhum. Tive de comprar
tudo novo. Também quis levar um repelente elétrico
para espantar mosquitos e não pude. Nenhum dos meus
xampus italianos pôde entrar. Eles dizem que tudo é
perigoso. Só permitiram a entrada de meus cremes da
Victoria's Secret porque as embalagens são transparentes.
Também é constrangedor tirar a roupa para a
inspeção toda vez que chego lá. Se eu
soubesse que seria tão revistada, que usaria tanto
este corpo, teria feito uma plástica antes.
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A senhora está cumprindo pena num país em
que rico praticamente não fica na cadeia. Não
se sente injustiçada?
Wilma Bobagem. O Paulo Maluf ficou mais de um
mês na cadeia. O Edemar Cid Ferreira, dono do Banco
Santos, também. Rico, quando pode, esconde que está
na cadeia. Diz que está passando uma temporada no exterior.
Pobre, em dia de visita, transforma a cadeia numa festa. Vai
filho, vai primo, vai tio... Você acha que rico vai
visitar outro rico na cadeia? Não vai. Fica esperando
ele sair.
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A senhora se sentiu discriminada na cadeia pelo fato de
ser rica? Wilma Não. Ao contrário:
as detentas adoram o fato de eu ser socialite. Elas dizem
que, se tivessem o dinheiro que eu tenho, pagavam o melhor
advogado e não ficavam presas nem mesmo por um minuto.
Mas a minha situação na cadeia não está
tão ruim assim para ficar gastando dinheiro à
toa. Um advogado me disse que liberdade não tem preço.
Tem, sim. Acho melhor cumprir a pena do que entregar a ele
quase tudo o que ganhei na vida.
Veja A
senhora foi condenada pela acusação de lavar
10 milhões de reais para o ex-deputado João
Alves, um dos integrantes da Máfia do Orçamento,
denunciada por VEJA em 1993. Como conheceu o ex-deputado?
Wilma Nunca vi o ex-deputado na minha vida.
Comprei e vendi dólares de um gerente de banco. Não
tinha idéia de que era dinheiro de caixa dois, de esquema
de anões do Orçamento. Conheci o ex-deputado
pela mídia.
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Que lições a senhora tirou desse episódio?
Wilma Os políticos têm de amadurecer.
Têm de aprender que é preciso pagar pelos seus
erros. Eu estou pagando porque fiz errado mesmo. Trabalhei
vendendo dólares sem autorização do Banco
Central e fui punida por isso. Ponto.
Veja Como
a senhora se tornou a mais badalada socialite de Brasília? Wilma Meu pai calçou o primeiro
sapato aos 18 anos. Ele era garçom de um hospital público
de Brasília e conseguiu que minha mãe fosse
fazer o parto lá. Comecei a trabalhar aos 15 anos.
Era caixa de uma loja de pneus. Ninguém me indicou
para nada. Bati de porta em porta até conseguir o emprego.
Aos 18 anos, comprei meu primeiro carro, uma Brasília
laranja. Cada centavo que ganhei foi com muito esforço.
Não tenho vergonha de não ter tido dinheiro
no começo e estar bem financeiramente agora. Sei quanto
custa um pastel e quanto custa uma Ferrari.
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Mas não foi como caixa de uma loja de pneus que
a senhora ganhou dinheiro, certo?
Wilma Trabalhei no mercado financeiro e fui
dona de uma casa de câmbio e aplicações
financeiras. Nunca dei uma bombada. Nunca joguei na loteria,
como João Alves. Ganhei dinheiro como formiguinha.
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Que importância o dinheiro tem na sua vida?
Wilma É uma questão de realização
pessoal. Quase tudo o que eu faço está relacionado
com dinheiro. Posso até estar fazendo um bom programa
de televisão, com boa audiência e tudo, mas,
se não está entrando dinheiro dos patrocinadores,
não estou contente. Dinheiro tem de estar na mão
certa. Tem de estar na mão de quem sabe gastar. Dinheiro
pequeno é que se gasta errado. É a bobagem que
sai toda hora do bolso. É o dinheiro que você
troca e desaparece. Dinheiro pequeno é gastar à
toa. Dinheiro grande eu gasto mesmo. Gosto de Rolex, de Mercedes-Benz,
de BMW... Já comprei dois Rolex no mesmo mês.
Um deles custou 6 000 dólares. Mas aí vi uma
amiga com outro, com fundo de brilhante, e não resisti.
Paguei 10 000 dólares por ele. Quando lançaram
o jipe Cherokee, na década de 90, eu estava prestes
a viajar para Arraial d'Ajuda, na Bahia. Comprei um por telefone.
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A senhora nunca sentiu culpa por tanta ostentação?
Wilma Não. Tudo o que tenho eu uso. Não
rasgo dinheiro. Na volta da viagem à Bahia, quando
vi quanto gastei de gasolina com o Cherokee, vendi o carro.
Não era um bom investimento.
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Existe algum segredo especial para se tornar um símbolo
da classe emergente?
Wilma É preciso viajar bastante, fazer
boas festas e cultivar bons relacionamentos. E não
precisa gastar demais, não. Tem muita socialite que
mora em casa alugada, tem carro financiado e faz tipo de milionária.
Eu, por exemplo, sou uma emergente pobre. Não tenho
ilha, Learjet nem apartamento em Nova York. Uma socialite
pobre que se preze vai a Buenos Aires, paga 300 dólares
pela passagem e compra um produto da Lâncome no free
shop. Aí, quando chega ao Brasil, dá o presentinho
ao cabeleireiro. O que ele vai dizer às outras clientes?
Que fulana de tal trouxe um presente do exterior para ele.
É um marketing que rende. E não custa quase
nada. O mesmo vale para colunista social. Uma camiseta em
Nova York custa 8 dólares. É pouco para quem
quer sair bem na foto.
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Como a senhora faz para conciliar seus hábitos de
consumo com a rotina da prisão?
Wilma Está difícil. Só
posso sair do presídio para ir ao trabalho. Além
disso, a gente não pode entrar com quase nada no presídio.
Sabão em pó tem de estar em saco plástico
transparente. Embalagem não entra nenhuma. Então
compro quase tudo lá mesmo. Tem um mercadinho lá
dentro que pertence a um policial e é administrado
por uma interna. Compro creme de cabelo, amaciante de roupa,
sabão... Estou achando o shopping da minha vida.
Veja A
senhora se tornou muito próxima de alguns dos principais
políticos do país. Qual deles mais admira?
Wilma O José Roberto Arruda, governador
do Distrito Federal. Ele dorme às 3 horas da madrugada,
acorda às 5 da manhã, era casado, tinha uma
amante e agora, depois de romper com as duas, está
de namorada nova. Ele consegue tudo o que eu não consigo.
Além disso, é charmoso e bonito.
Veja
A senhora acha mesmo o governador bonito?
Wilma Se até o Ronaldinho Gaúcho
ficou bonito, por que ele não ficaria? Poder e beleza
estão misturados, principalmente em Brasília.
E quem tem poder não precisa de dinheiro. É
convidado para as melhores festas, sempre tem um amigo com
o avião de tanque cheio. Eu mesma ganho tudo. Champanhe,
não tenho onde botar. Tenho uma adega com 3 000 garrafas.
São vinhos e mais vinhos, festas e mais festas. A gente
bebe tudo mesmo.
Veja
Como a senhora se define politicamente?
Wilma Votei no Lula, apesar de achar que foi
bom ele levar aquelas vaias. Como o presidente anda sempre
cercado de assessores, não deixam chegar a ele as notícias
do mundo real. Ele parece a Alice no País das Maravilhas!
Acho que tem vontade de fazer as coisas direito. Mas falta
ao presidente um braço mais forte. O problema é
que eu acho que ele não tem esse braço forte.
Veja
A senhora ficou famosa pelo hábito extravagante de
temperar seus jantares com pó de ouro. O metal também
aparece em seus vestidos, nos sapatos e nas jóias.
Por que tem tanta obsessão por ouro?
Wilma Ouro tem tudo a ver comigo. Brilha, é
alegre. Meu brilho é muito grande.
Veja O
closet de sua casa tem o tamanho de um apartamento de três
dormitórios. Não é um exagero?
Wilma É que tenho muitos sapatos. Nunca
contei, mas alguém já me disse que são
600 pares. Posso também passar um ano sem repetir uma
roupa.
Veja
A senhora está escrevendo um livro sobre sua experiência
na prisão. Que tipo de história pretende contar?
Wilma Vou contar cada vitória e cada
derrota que tive na vida. Darei ênfase maior às
mensagens de força e fé, pois espero ajudar
muitas famílias que estão passando pelo mesmo
que eu. Quero deixar claro que o importante é onde
a mente está, e não o corpo.
Veja
Qual é o seu livro de cabeceira?
Wilma Não tem cabeceira lá na
cadeia. Estou lendo a Bíblia.