Estrada no interior da Bahia:
paisagem de bombardeio
O Brasil enfrenta uma guerra dentro das próprias fronteiras.
O inimigo interno cobra seu quinhão – e que quinhão!
na forma de atraso no desenvolvimento, custos absurdos,
exaspero dos cidadãos e até mesmo sacrifício
de milhares de vidas a cada ano. O nome desse inimigo é
infra-estrutura. Quando intacta e moderna, ela está
longe de ser um monstro, pois se trata da coluna vertebral
do sistema produtivo. Dá-lhe sustentação
e velocidade. Em frangalhos, vira um bicho-papão e
é causa das distorções e enormidades
citadas acima. Estradas esburacadas como se tivessem sido
bombardeadas, aeroportos mal equipados, com terminais insuficientes
e pistas inseguras para aviões de grande porte, portos
reduzidos e sem maquinário suficiente para escoar a
produção agrícola e industrial, ferrovias
que são verdadeiras sucatas, setor energético
à beira de um novo apagão tudo isso compõe
um quadro de desastre só comparável ao de nações
paupérrimas, que não podem sequer sonhar em
entrar nos trilhos do progresso econômico e social.
A reportagem especial
que começa na página 80 desta edição
traduz, por meio de quadros comparativos, o grau de esfacelamento
a que o país chegou em matéria de infra-estrutura.
Ela também mostra o que pode ser feito já, de
acordo com especialistas. As ações preconizadas
têm um caráter emergencial, mas não de
improviso. Apontam um caminho de racionalização
e abertura para a iniciativa privada. É preciso não
só investir mais dinheiro no setor, como melhorar a
qualidade do investimento. Até o início da década
de 80, o Brasil destinava anualmente à infra-estrutura
o equivalente a 6% de seu produto interno bruto (PIB). Desde
então, os gastos no setor foram sendo reduzidos dramaticamente
ao que se acompanhou, é claro, uma queda no
crescimento econômico. Hoje, estradas, aeroportos, portos,
ferrovias e hidrelétricas recebem cerca de 3% do PIB.
A diferença parece pouca, mas não é.
Para se ter uma idéia, estudiosos calculam que, não
fosse a falta de investimentos em infra-estrutura nos últimos
vinte anos, o total de riquezas produzidas pelo país
poderia ser hoje entre 10% e 12% maior. É como se uma
economia do tamanho da do Chile nos tivesse sido extirpada.
Não há dúvida de que o Brasil precisa
vencer essa guerra. O Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC), anunciado pelo governo, é um
bom primeiro passo. Urge, no mínimo, implementá-lo.