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Por
baixo do pano
O
Círculo desvenda o cotidiano
de proibições e pavor em que
vivem as mulheres iranianas
Isabela
Boscov
Fotos Christophel
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| Duas
das protagonistas fogem do abuso de desconhecidos: cena que os iranianos
não puderam ver |
Na
primeira cena de O Círculo (Dayereh, Irã,
2000), uma enfermeira anuncia a uma senhora que ela acaba de se tornar
avó de uma menina perfeitamente saudável. A notícia
é recebida sem um traço de alegria. Pelo contrário:
embora mal se possa ver a protagonista sob o pesado xador, seu desespero
é palpável. Ela treme, indaga vezes seguidas, insiste
não será um menino? É mais do que sabido que não
é fácil ser mulher no mundo do fundamentalismo islâmico.
O inusitado é que uma crítica tão direta à
exclusão feminina seja encontrada numa produção vinda
do Irã onde o crivo da censura, habitualmente duríssimo,
costuma obrigar os cineastas a achar saídas alegóricas para
abordar temas difíceis. A ousadia e a "autenticidade", porém,
estão longe de ser as maiores virtudes de O Círculo,
desde sexta-feira em cartaz em São Paulo. Magistralmente dirigido
por Jafar Panahi, o filme evoca como nenhum outro até aqui o horror
de viver um cotidiano alicerçado em proibições e
negativas.
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| "É
uma menina": notícia de nascimento recebida com pesar e sem
nenhuma alegria |
Durante
uma hora e meia, Panahi segue uma série de mulheres que trafegam,
ansiosas, pelas ruas movimentadas da capital, Teerã, evadindo-se
da polícia ou de qualquer tipo de autoridade masculina. Aos poucos,
percebe-se que três delas acabam de sair da prisão. O diretor
não deixa claro se fugiram ou foram libertadas, nem explica por
que teriam sido postas atrás das grades. Mas dá pistas de
quais poderiam ter sido seus "crimes". Acender um cigarro, tentar vender
um objeto de valor ou embarcar num ônibus sem a companhia de um
homem são atitudes que põem suas personagens em risco. Alguns
casos são desesperadores. Uma das moças é escorraçada
pelos irmãos por estar grávida. Empenhada em conseguir um
aborto, ela procura uma amiga enfermeira, que diz viver um casamento feliz
mas entra em pânico ao imaginar que seu marido possa descobrir
que ela já esteve presa. Outra mulher é vista tentando abandonar
a filha pequena nas ruas. É provável que tenha sido vítima
da mesma injustiça destinada à parturiente da primeira cena
o divórcio compulsório por não ter gerado
um varão.
O
Círculo ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza,
mas está proibido no Irã como várias das fitas
vindas de lá que fazem sucesso nos festivais internacionais. É,
porém, uma prova de maturidade para o cinema do país e para
Panahi. Em seus dois filmes anteriores, O Balão Branco e
O Espelho, o diretor tinha como protagonistas meninas pequenas
e muito determinadas. É como se, agora, ele imaginasse o destino
paradoxal que as espera. Se lá é assim, imagine no Afeganistão.
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