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São só bonecos

Final Fantasy tenta romper
uma barreira:
a de criar atores
virtuais que pareçam reais

Isabela Boscov

Fotos Square Pictures
Aki Ross, a heroína de Final Fantasy: certinha demais para ser de verdade

A doutora Aki Ross tem uma pele jovem e bonita, em que mal se notam uma ou outra pintinha e os indícios de uma ruga futura. Se há algo de estranho nela, é ser quase perfeita. O mesmo se pode dizer dos 60.000 fios de cabelo em sua cabeça – são um tantinho sedosos demais e não "amarrotam". Seus movimentos, ora muito leves, ora rígidos, também causam estranheza. Isso ocorre porque Aki, a heroína do filme Final Fantasy (Final Fantasy: the Spirits Within, Japão/Estados Unidos, 2001), nasceu num computador, onde foi meticulosamente projetada para simular um ser humano. Por pouco não consegue. Mas esses, digamos, 5% que a separam da verossimilhança absoluta equivalem a um abismo, como se pode conferir na aventura que estréia nesta sexta-feira no país. Em nenhum instante o espectador esquece que está diante de uma animação e mergulha completamente na história.

Não que o enredo mereça muita concentração. Baseado na série homônima de games, Final Fantasy tem uma trama típica desse gênero: a Terra está sob ameaça de alienígenas, e um grupo de cientistas precisa achar uma solução para a sobrevivência da espécie humana. Produzido pela mesma equipe – quase toda japonesa – do game, o filme consumiu quatro anos de trabalho. Só os protagonistas exigiram a dedicação de 200 animadores. É, de fato, uma conquista do ponto de vista tecnológico. Até aqui, todos os longas-metragens que se valeram de elencos integralmente "sintéticos" – como Toy Story ou Shrek – eram fantasias explícitas. Isso garante aos artistas uma enorme liberdade, já que o público não tem idéias preconcebidas sobre como um caubói de pano ou um ogro devem se comportar. Atingir o fotorrealismo é uma tarefa infinitamente mais complexa. "A evolução nos treinou para identificar até os mais mínimos movimentos do rosto e do corpo humano. Por isso é tão difícil iludir o olhar da platéia", explicou à revista Discover o especialista Eric Haseltine, que chefia a divisão de pesquisa da Disney.

Não que a equipe de Final Fantasy não se tenha esmerado. Boa parte dos 150 milhões de dólares investidos no filme se destinou à criação de programas que reproduzissem a miríade de leis que regem o comportamento físico dos seres humanos. Para resolver a questão do movimento, usou-se um truque eficiente. Contrataram-se atores de verdade, que encenavam o que o roteiro pedia. Enquanto isso, câmaras dispostas em círculo registravam a ação e transferiam suas coordenadas para o computador. Mas o maior desafio foi animar o rosto dos "atores". A face tem áreas muito móveis e outras em que a pele e a musculatura estão tensionadas sobre os ossos. Imitar essa dinâmica é uma dor de cabeça. Deve-se somar a isso a dificuldade de dar à pele as rugas, marcas e linhas de expressão que ela adquire com o tempo – a computação gráfica é uma ferramenta mais adequada a criar personagens e ambientes limpos do que a "sujá-los" da forma como existem na natureza. Ainda falta muito – felizmente – para que os produtores de Hollywood possam realizar o sonho de trocar seus astros caros e mimados por similares dóceis, que obedeçam sem reclamar às ordens do teclado e do mouse. Mas, na soma de seus triunfos e defeitos, Final Fantasy é indispensável para quem se interessa pelos rumos que a tecnologia pode abrir para o cinema.

 

Nascida no computador

Modelar uma figura humana, como nas duas primeiras fotos, é um processo que os artistas da computação gráfica já dominam. Depois, "pinta-se" digitalmente o rosto. Essa etapa consome 80% do trabalho. É preciso fazer com que a face se movimente com todas as nuances de que disporia na realidade e dotar a pele de imperfeições. No caso de Aki (repare na foto maior), as sardas e as ruguinhas sob os olhos

 

 

   
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