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Trivial fino
Você
poderia viver essas
histórias. Difícil seria
narrá-las
tão bem quanto Richard Ford
Ana Maria Machado*
O
título do livro que aqui se resenha, Mulheres com Homens
(tradução de Beatriz Horta e Neuza Capelo; Record;
255 páginas; 30 reais), é uma piscadela cúmplice
que o autor, o americano Richard Ford, lança em direção
ao leitor. Ele traz à memória Homens sem Mulheres,
uma das mais famosas coletâneas de contos de Ernest Hemingway. Irônica
alusão. Nem as histórias de Hemingway tratavam de heróis
solitários, nem essas tratam de heroínas acompanhadas. A
não ser que se relativize bastante a noção de companhia.
O volume é uma reunião de três contos, dois dos quais
se passam em Paris, enquanto o terceiro tem como cenário um lugarejo
no interior dos Estados Unidos. Mais precisamente, no Estado de Montana,
onde Ford vive um cotidiano que o faz ser conhecido quase como um caubói
que escreve. Em nenhum deles há uma mulher que possa realmente
dizer que conta com um homem a seu lado. E todos são narrados de
um ponto de vista masculino. Entretanto, poucas vezes um autor contemporâneo
se revelou tão perceptivo em relação às coisas
miúdas do cotidiano e conseguiu recriar com tanta acuidade situações
de que as mulheres se queixam, porque as fazem se sentir sozinhas.
A idéia do americano em Paris, em viagem de trabalho, serve de
ponto de partida para O Mulherengo e Ocidentais. Em ambos
os casos, o protagonista se entrega a devaneios sobre a possibilidade
de envolver-se em novas experiências e isso justamente acaba
por afastá-lo das vivências genuínas que poderia ter
ao lado de uma mulher. Os dois contos são estudos do egocentrismo.
Num deles, o personagem, um executivo casado, fica tão voltado
para dentro de si mesmo que se desliga do mundo e põe em risco
a vida de uma criança. Não demonstra a menor capacidade
para perceber o que sua mulher está vivendo no casamento ou para
entender o que se passa com a amante em perspectiva. No outro relato,
um ex-professor divorciado, que escreveu um livro prestes a ser traduzido
para o francês, viaja com a namorada para conhecer seu editor em
Paris. Está tão preocupado em viver de acordo com um papel
que inventa para si ironicamente, o de um personagem que "não
quer ser o centro das coisas" que nem ao menos aprecia o que a
cidade lhe oferece ou se dá conta de que sua companheira está
vivendo uma experiência radical.
O terceiro conto, Ciúme, é narrado na primeira pessoa
por um garoto adolescente, que vive no campo com o pai, recém-separado,
e está partindo em viagem para passar um feriadão com a
mãe em outro Estado. Esse não é um personagem egocêntrico,
é só muito jovem, e passa por acontecimentos graves com
uma certa perplexidade e estranheza que atordoam sua compreensão,
mas não conseguem embotar sua sensibilidade. Nos três contos,
é impossível não admirar as qualidades com que o
autor maneja a narrativa, a economia com que escreve, sem apelação
nem virtuosismo. Não é sempre que se encontra um autor americano
contemporâneo que não está preocupado em demonstrar
uma idéia ou conquistar o máximo de público possível.
Prestando atenção ao que é miúdo e trivial,
Richard Ford retrata pessoas comuns, em situações corriqueiras,
mas a um passo de acontecimentos altamente significativos que elas não
percebem. Pode ocorrer com qualquer um. Difícil é contar
tão bem.
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SEXO
SEM USAR AS MÃOS
Nancy Crampton
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| O
americano Richard
Ford: estudos do egocentrismo |
"Não queria se deitar. Helen não estaria disposta
para
bobagens sexuais, mas se ele estivesse na cama quando
ela saísse do banheiro, isso poderia indicar que estava querendo
e provocar problemas de natureza imprevisível. Helen tinha
feito algumas observações desagradáveis sobre
o desejo que ele sentia pelo tipo de sexo em que ela se especializou
"sexo-adulto", como ela chamava, ou "sexo sem usar as mãos".
Mas ele estava pouco interessado no assunto. Por alguma razão,
as mulheres agora pareciam sexualmente insaciáveis. Na faculdade,
uma professora de Economia com quem ele saiu uma vez quis fazer
sexo sem parar, e ele não gostou muito disso. Ficou confuso."
Trecho do conto Ocidentais
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*
Ana Maria Machado é escritora, autora
de Para Sempre, entre outros livros.
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