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Pequenos
clássicos
Mal terminada a leitura dos "continhos"
de
Italo Calvino, já se quer recomeçar
Antonio
Gonçalves Filho
Os
clássicos, como escreveu o escritor Italo Calvino (1923-1985),
são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer "estou relendo"
e nunca "estou lendo". Pode-se concluir, então, que Um General
na Biblioteca (tradução de Rosa Freire D'Aguiar;
Companhia das Letras; 250 páginas; 24 reais), coletânea de
32 narrativas produzidas entre 1943 e 1984 pelo escritor italiano, já
nasceu clássico. Mal terminada a leitura de um conto, sente-se
o irresistível desejo de recomeçar do marco zero. E esses
contos e apólogos, que começaram a ser escritos quando o
autor não tinha 20 anos, constituem, de fato, um marco inaugural.
Com o fim da guerra, em 1945, Calvino anunciou que passaria do teatro
à narrativa, fazendo dessa uma extensão de sua militância
contra os fascistas. Contemporâneo da geração dos
neo-realistas, como Vittorini e Pavese, Calvino era um apaixonado pelo
palco. Teria sido, se insistisse na carreira, um nome tão poderoso
como Pirandello ou Dario Fo, mas sua rígida autocrítica
o fez recuar e desistir da dramaturgia.
Muitas das situações descritas nos "raccontini" (continhos)
da primeira parte do livro, que cobre o período de 1943 a 1958,
funcionariam perfeitamente no teatro. Um deles, O Homem que Chamava
Teresa, é um claro exemplo da síntese que se espera
dos dramaturgos. Escrito no ocaso do fascismo, em 1943, o conto elege
como personagem um homem que grita o nome de uma mulher, supostamente
residente no último andar de um prédio. Ajudado inicialmente
por um passante, que faz coro ao grito, o homem que chama Teresa acaba
por reunir a seu lado um grupo de vinte outros desesperados gritadores.
Em duas páginas, Calvino resume o que o teatro de Pirandello e
o cinema de Antonioni levaram anos para construir: uma parábola
da incomunicabilidade.
A economia de recursos dos "raccontini" e sua construção
elíptica respondem pelo melhor da produção do escritor.
Não é difícil perceber que o Calvino dessa primeira
fase é menos ambicioso do que o da segunda parte do livro, que
concentra os contos escritos entre 1968 e 1984. Mas há uma graça
nos "raccontini" que seria irremediavelmente eclipsada na maturidade.
Nessa, a fantasia cede lugar a discussões sobre produção
capitalista (uma entrevista inventada com Henry Ford) e genocídio
cultural (outra entrevista imaginária, dessa vez com Montezuma).
A desilusão com o Partido Comunista Italiano, com o qual rompeu
em 1956, conduziu Calvino para a rota da parábola.
Antes dos exercícios estilísticos com figuras como Ford
e Montezuma, houve uma assumida tentativa de apropriação
da herança deixada por autores como Conrad e Melville. Exemplo
disso é A Grande Bonança das Antilhas, alegoria política
sobre luta e imobilidade, em que os homens do almirante inglês Drake
enfrentam a frota espanhola. O conto foi escrito um ano depois da ruptura
com o PC. Calvino o releu em 1979. Não o tomou como uma metáfora
adequada à situação da Itália da época,
mas concluiu que o conto resistia independentemente da alegoria política.
Essa é uma observação que também poderia ser
aplicada ao conto que dá título ao livro, Um General
na Biblioteca (1953). Nele, um general invade uma biblioteca para
censurar livros contrários ao regime e acaba seduzido por eles.
Num outro conto, O Chamado da Água (1976), um homem reflete
sobre uma das conquistas da civilização (a água encanada)
e conclui que a abundância desfrutada até a última
chuveirada foi precária e ilusória. Calvino, obviamente,
não estava pensando no Brasil, mas tanto a história dos
generais como a do apagão os brasileiros conhecem bem demais para
não admitir que o homem era mesmo um profeta.
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