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A nova pirâmide
Nutricionistas contestam a dieta
tradicional e
apresentam uma versão
da pirâmide alimentar sem
tanto carboidrato
Cláudia
Granadeiro
Símbolo
de equilíbrio desde a Antiguidade, a pirâmide passou a ser
cultuada também por nutricionistas e praticantes de dieta do mundo
inteiro, a partir de 1992, quando o Departamento de Agricultura dos Estados
Unidos (Usda), equivalente a um ministério do setor, resolveu usá-la
como referência em programas de alimentação. A pirâmide
alimentar tradicional, essa que estava em vigor havia quase uma década,
aparecia com a base ampla formada por pão, cereais, arroz e macarrão.
No andar de cima, seguiam-se frutas, legumes e verduras. Depois, para
consumo mais restrito, vinham os laticínios (leite, queijo e iogurte),
ao lado do grupo da carne, frango, peixe, feijão e ovos. No topo,
pontudo e minguado, havia gorduras, doces e óleos. Dessa maneira,
estabelecia-se uma equação para a comida saudável,
rica em carboidratos.
Sucesso durante a década de 90, a pirâmide oficial está
agora sob um pesado bombardeio, que pode esfarinhar seus fundamentos.
O último tiro partiu de uma equipe de médicos liderada por
Walter Willett, chefe do departamento de nutrição da Escola
de Saúde Pública da Universidade Harvard, instituição
que empresta seu nome à contestação. As razões
estão explicadas em uma obra recém-lançada, misto
de libelo e manual, intitulada Coma, Beba e Seja Saudável
O Guia da Alimentação Saudável da Escola de Medicina
de Harvard, já em segundo lugar entre os mais vendidos da livraria
virtual Amazon.com. Ali, toma forma uma nova pirâmide alimentar
(confira
no quadro).
Na versão anterior, a base era constituída de alimentos
ricos em carboidratos, como arroz, batata e macarrão. Agora, esses
ingredientes vão para o topo da pirâmide, o que significa
que precisam ser comidos com parcimônia, na mesma proporção
franciscana em que se deve consumir carne vermelha e manteiga. Carne vermelha
igual a macarrão? Sim, é o que recomenda a nova pirâmide.
Indiretamente, a mudança desvaloriza um pouco a chamada "dieta
mediterrânea", baseada em massas e arroz, entre outros produtos.
Na velha pirâmide, laticínios, peixe, ovos e frango ocupavam
o mesmo patamar. Na nova, os laticínios foram para um ponto mais
alto e, portanto, passaram a sofrer restrições. Outra grande
novidade é o fato de que os exercícios físicos e
o controle de peso ganharam tamanha importância que ocupam a base
de tudo no novo desenho, com tanto relevo quanto a própria escolha
dos alimentos. Vitaminas e até uma dose moderada de bebida alcoólica
são bem-vindas. Praticamente fica na mesma o tópico de verduras,
legumes e frutas em ambos os modelos. Devem ser consumidos com entusiasmo.
Na origem dessas mudanças estão as críticas dos médicos
de Harvard ao Departamento de Agricultura, acusado de ceder ao lobby dos
produtores rurais e indústrias alimentícias, particularmente
nos setores de carne, laticínios e açúcares, estes
responsáveis pelos carboidratos simples. "É uma vergonha.
A pirâmide está errada", afirma Walter Willett. Segundo ele,
o desenho foi baseado em padrões científicos duvidosos antes
de 1992 e contribui para a obesidade, a saúde deficiente e mortes
precoces desnecessárias. O Departamento de Agricultura tem uma
posição olímpica diante da controvérsia. "Não
comentamos livros de dieta", limitou-se a dizer Jackie Haven, porta-voz
do órgão.
A restrição aos carboidratos vem da compreensão de
que alguns deles, presentes no arroz branco, no pão comum ou na
batata, são quebrados rapidamente no intestino, transformando-se
em açúcar. Os efeitos da alta taxa de glicemia podem levar
à compulsão alimentar e a problemas cardiovasculares. Por
essa razão, esses alimentos estão lá no alto da pirâmide.
O carboidrato do bem é encontrado em alimentos de grãos
integrais. Estes estão liberados. O problema é que todo
mundo elogia o trigo e o centeio integrais, mas ninguém quer consumi-los
metodicamente, a não ser os praticantes de dietas alternativas.
Tanto é assim que esses produtos são muito menos numerosos
nas prateleiras dos supermercados.
Consultados sobre a aplicação da pirâmide de Harvard
ao ambiente brasileiro, vários nutricionistas acham que isso é
possível, mas com adaptações, em virtude de hábitos
alimentares já arraigados. É o caso de Mônica Beyruti,
da clínica Alfredo Halpern, que cita o exemplo do arroz branco,
fundamental na mesa do brasileiro, ao lado do feijão. "O risco
de alto índice de glicemia é atenuado porque dificilmente
comemos o arroz isoladamente. Ele é saudável com feijão",
explica Mônica, que sugere a necessidade do esforço de tentar
substituí-lo, algumas vezes, pelo arroz integral. A carne vermelha
também não deve ser abolida devido ao efeito benéfico
do ferro, essencial para prevenir anemia e desnutrição.
"Há carnes magras que podem entrar na dieta com moderação",
diz a nutricionista Silvia Maria Franciscato Cozzolino, da Faculdade de
Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo
(USP). Adaptação sem avacalhação, pois há
o risco de a pirâmide ficar mais parecida com o morro do Pão
de Açúcar. Uma pirâmide arredondada, com a marca do
jeitinho brasileiro.

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