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Caos
não é socialismo
Primeiro-ministro inglês diz
que a
busca de justiça
social e o apoio à
iniciativa privada andam
lado a lado
Eduardo Salgado
Milton Michida/AE
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"Quem
disse que adotar políticas fiscais irresponsáveis
e bagunçar a
economia é
ser socialista?"
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Com
a morte do francês François Mitterrand, a desgraça
do alemão Helmut Kohl e a saída de Bill Clinton da Casa
Branca, o Primeiro Mundo estaria órfão de líderes
carismáticos não fosse Tony Blair, primeiro-ministro da
Inglaterra desde 1997. Advogado, ex-cantor amador de rock, aficionado
das peladas de fim de semana, ele se transformou na nova cara do socialismo
amigo dos negócios que passou a ser conhecido como terceira via.
Ao chegar ao poder, depois de dezoito anos de governo conservador, Blair
também arejou a política inglesa. No plano dos costumes,
abriu espaço para homossexuais e deficientes físicos em
seu ministério. No manejo da economia, não mexeu nas privatizações
realizadas pela primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher, mas
fez pesados investimentos em saúde e educação. Nestes
quatro anos de governo (ele foi reeleito com facilidade em junho), Blair
tem-se esforçado para criar um clima favorável à
iniciativa privada e atrair investimentos. Aos 48 anos, com três
filhos adolescentes e um temporão, nascido há um ano, ele
lamenta não ter mais tempo para a família. Na semana passada,
acompanhado da mulher, a bem-sucedida advogada Cherie, ele visitou as
Cataratas do Iguaçu. Lá, foi entrevistado por VEJA:
Veja Quando o senhor estava em Gênova, no mês
passado, no encontro dos países mais ricos do mundo (G-8), em algum
momento sentiu vontade de sair do Palazzo Ducale e se unir às pessoas
que estavam protestando?
Blair
Unir-me
às pessoas, não. Dialogar com aquelas que protestavam de
maneira pacífica, sim. É uma pena que uma minoria tenha
se manifestado violentamente. Como um líder, não posso abordar
esse assunto na defensiva. Antes de essas pessoas tomarem a decisão
de protestar em nome dos países mais pobres, deveriam falar com
os representantes dessas nações. Foi exatamente isso que
os líderes do G-8 fizeram. Todos os chefes de Estado africanos
pedem que nossos mercados sejam mais acessíveis a seus produtos.
E eles têm toda a razão. Nesse ponto, sou irredutível.
As pessoas têm o direito de protestar, mas não de arruinar
um encontro do G-8. Será desastroso se atingirmos o ponto em que
os principais líderes mundiais cheguem à conclusão
de que não podem se reunir.
Veja E os protestos pacíficos?
Blair
Vivemos em democracias. Fui eleito, assim como foi o presidente Fernando
Henrique Cardoso e como será o próximo presidente do Brasil.
Nós representamos milhões de cidadãos. É inaceitável
que pessoas que não foram eleitas para nada prejudiquem o trabalho
de representantes legítimos do povo. Protestos pacíficos,
tudo bem. Quanto à violência que vimos recentemente em Gênova
e Gotemburgo, não tenho o menor temor em dizer que é ilegal,
típica de vândalos e está completamente errada.
Veja De que forma os últimos protestos mudaram as
prioridades dos países mais ricos do mundo?
Blair
Essa é uma questão que exige muito cuidado. A violência,
de forma alguma, abriu meus olhos para os problemas do mundo. Já
tratávamos de problemas como o combate à pobreza e Aids
antes dos protestos violentos. Uma das primeiras ações do
meu governo foi aumentar a ajuda humanitária e as verbas para desenvolvimento
no Terceiro Mundo. Fizemos isso por acreditar ser o certo. De alguma forma,
fomos pioneiros no tema do perdão da dívida dos países
mais pobres. Dito isso, acho justo dar crédito aos protestos pacíficos.
Há três anos, houve protestos pacíficos num encontro
do G-8 em Birmingham, na Inglaterra, e é óbvio que eles
tiveram uma influência importante. Apressaram as ações
para o perdão da dívida das nações mais pobres
do mundo. Esse tipo de manifestação é parte de uma
democracia saudável.
Veja Por que os jovens do Primeiro Mundo decidiram protestar
contra a globalização?
Blair
Reconheço que muita gente, não apenas os jovens, está
preocupada com o impacto da globalização. Critico apenas
a incapacidade desse pessoal de ver que a abertura de mercados ajudará
os países pobres muito mais do que qualquer programa de ajuda humanitária.
Veja O senhor é socialista?
Blair
Acredito
nos valores socialistas de solidariedade, busca da justiça social
e igualdade de oportunidades para todos. Não acredito em pesadas
intervenções estatais e grandes planejamentos. Meus objetivos
são socialistas: diminuição da pobreza infantil,
combate ao desemprego entre os jovens, grandes investimentos em educação
e saúde. Estou buscando alcançá-los de uma nova maneira.
Tenho orgulho em dizer que meu governo apóia a iniciativa privada,
é a favor da eficiência das empresas inglesas, tem uma posição
de firmeza contra o crime e acredita na justiça social. Na minha
opinião, esse é o caminho certo para os partidos de centro-esquerda
hoje.
Veja A melhor receita para gerenciar a economia é
a da direita?
Blair
Quando
cheguei ao poder, em 1997, enfrentei muitos problemas decorrentes de dezoito
anos de governo conservador. Há quatro anos, estávamos gastando
mais com o pagamento da dívida interna do que em educação.
Consertamos os erros feitos no passado e concedemos independência
ao banco central, algo que os conservadores não aceitavam. Os resultados
são o menor índice de inflação da União
Européia e uma taxa de juros que é a metade do que foi no
tempo dos conservadores. Por fim, os gastos em educação
totalizam 14 bilhões de dólares a mais do que o pagamento
da dívida. Alguns políticos de centro-esquerda dizem que
responsabilidade fiscal é coisa da direita. Eles estão completamente
equivocados. Estão, na verdade, concedendo o mérito à
direita. Quem foi que disse que adotar políticas fiscais irresponsáveis
e bagunçar a economia de um país é ser socialista?
A grande diferença entre direita e esquerda aparece na hora de
decidir o que fazer com a riqueza gerada pelo país. Justiça
social e apoio à iniciativa privada andam lado a lado.
Veja Quais são as causas para o crescente fosso entre
ricos e pobres?
Blair
A exclusão social tem várias causas. Na Inglaterra, muitas
pessoas não têm as chances que são corriqueiras para
outras. Nascem na pobreza, sem acesso à educação,
à saúde e ao trabalho. É por isso que estou lutando
para aumentar o número de empregos e diminuir a pobreza infantil.
Também quero elevar o nível do ensino e do sistema de saúde.
Ainda estou longe de meu objetivo, mas já consegui tirar mais de
1 milhão de crianças da pobreza na Inglaterra e criar 1
milhão de novos postos de trabalho para os jovens. Também
dei início a um programa de investimentos na área da educação
e da saúde que é recorde. Tomei o cuidado de condicionar
os investimentos a reformas que melhorem os serviços. Investimento
e modernização são cruciais para que se consiga combater
a exclusão social na Inglaterra e em outras partes do mundo.
Veja Os países em desenvolvimento estão tirando
proveito da globalização?
Blair
A globalização é extremamente vantajosa para os países
em desenvolvimento, apesar de também criar problemas. Graças
à globalização, países em desenvolvimento
têm cada vez mais acesso aos mercados dos países ricos, acesso
a investimentos e à tecnologia. O caso da Embraer, onde estive,
é emblemático. A abertura dos mercados permitiu que a empresa
formasse associações com companhias estrangeiras e se lançasse
ao exterior.
Veja Países como o Brasil abriram seu mercado aos
produtos industrializados do Primeiro Mundo. Já os países
ricos mantiveram entraves às importações de produtos
agrícolas. Ora, produtos da agricultura são exatamente o
que o Terceiro Mundo tem para vender. Isso é justo?
Blair
O sistema de comércio atual não é justo. Temos de
organizar uma nova rodada de negociações dentro da Organização
Mundial do Comércio (OMC) e abrir o mercado europeu para produtos
de outros países. No caso específico da Europa, precisamos
reformar a política agrícola. Os agricultores europeus vão
passar por dificuldades com a redução dos impostos de importação.
Mas não devemos esquecer que também vamos ganhar muito.
Se a próxima rodada de negociações multilaterais
da OMC tiver sucesso, estima-se que o fluxo de comércio internacional
vai aumentar em 400 bilhões de dólares, dos quais 100 bilhões
irão beneficiar os países mais pobres. Isso demonstra como
está equivocado quem luta contra o livre comércio. Não
há por que frear o processo de globalização, que
já atinge os setores financeiro, de comunicações,
tecnológico e da cultura.
Veja O senhor é otimista com relação
à próxima rodada de negociações sobre o comércio
mundial?
Blair
Otimista não é bem a palavra. Não tenho dúvidas
de que a abertura do mercado europeu aos produtos agrícolas é
a melhor medida a tomar. O fato de a Inglaterra e o Brasil concordarem
nesse ponto aumenta as chances de sucesso.
Veja Como o senhor pretende convencer os países europeus
mais protecionistas, como a França, a abrir seus mercados para
produtos agrícolas do Terceiro Mundo?
Blair
Já reordenamos a política econômica da União
Européia em função da decisão de concretizar
reformas estruturais. A França e outros países vão
reconhecer que é sensato mudar. As empresas francesas estão
entre as mais dinâmicas do mundo. No meu distrito eleitoral, no
norte da Inglaterra, as companhias da França são fortíssimas
nas áreas de eletricidade e saneamento.
Veja A imagem da Inglaterra como o país onde reina a
tradição e se pode acertar o relógio pelo horário
dos trens ainda é correta?
Blair Não
existe apenas uma imagem da Inglaterra, assim como não há
uma para o Brasil. Tenho orgulho da tradição, da história
e dos valores de meu país. E também das contribuições
tremendas que tem feito nas áreas científicas, na música
e nas artes. Não compartilho da idéia de que a época
áurea da Inglaterra já passou. Acho que a modéstia
inglesa é algo positivo, mas algumas vezes faz com que se desconsidere
nosso potencial. Com relação aos trens, eles já não
andam tão bons. Estou tentando resolver problemas nas ferrovias
criados pela falta de investimento no passado.
Veja O Parlamento inglês não é apenas
o mais tradicional do mundo, mas também um dos mais elogiados pela
conduta ética de seus membros. O que os parlamentares brasileiros
poderiam aprender com seus colegas ingleses?
Blair
Tenho muito orgulho do Parlamento inglês, que influenciou a formação
de instituições semelhantes em várias partes do mundo.
Mas não pretendo dizer aos brasileiros o que fazer. O que funciona
na Inglaterra talvez não dê certo aqui. Observando a reação
das pessoas e de líderes de várias partes do mundo, já
percebi que existe um grande interesse pelo que chamamos de "hora de fazer
perguntas ao primeiro-ministro". Toda semana, por meia hora, tenho de
responder a perguntas de qualquer membro do Parlamento. De qualquer forma,
é o Congresso brasileiro que tem de decidir o que é melhor
para o Brasil.
Veja Como fazer para aumentar o interesse de jovens pela
política?
Blair
É
verdade que há um certo desinteresse, mas também é
certo que nunca antes se viu os jovens tão preocupados com temas
como o meio ambiente e a justiça social. O desafio para os políticos
é fazer com que um número crescente de jovens se envolva
no processo político tradicional. Isso só pode ser alcançado
se se mostrar a conexão que existe entre a escolha feita no dia
da eleição e as mudanças reais na vida dessas pessoas.
É preciso mostrar que o voto faz, sim, diferença.
Veja O senhor é a favor da descriminação
da maconha?
Blair
Não.
Algumas pesquisas dizem que a maconha não é o primeiro degrau
para drogas mais pesadas. Outras dizem o contrário. Essa questão
precisa ser mais debatida. Tenho filhos adolescentes e não gostaria
que eles usassem drogas. Reconheço que existem bons argumentos
a favor da descriminação, mas eles ainda não conseguiram
me convencer.
Veja O senhor já fumou maconha?
Blair
Nunca me meti com drogas na época da universidade. Sei que essa
postura parece fora do comum para quem tocava numa banda de rock, mas
foi assim.
Veja O senhor tem tempo para participar da criação
de seus quatro filhos?
Blair
Não tenho todo o tempo que gostaria, mas aproveito o que tenho.
É ótimo ser pai e primeiro-ministro. Tenho três filhos
em diferentes fases da adolescência, o que é uma experiência
bastante interessante. E também o Leo, que acabou de completar
1 ano e é maravilhoso. Ou seja, estou começando tudo de
novo com ele. É muito importante para um político ter bases
familiares sólidas e estáveis. Somos uma família
muito unida.
Veja O senhor tem a chance de tornar-se o primeiro líder
trabalhista a completar dois mandatos à frente do governo inglês.
Como gostaria de ser lembrado nos livros de história em 100 anos?
Blair
Como o socialista que mudou o socialismo, como o primeiro-ministro que
levou a Inglaterra à união monetária com os demais
países europeus, como o líder trabalhista que se empenhou
pela redução da dívida externa das nações
mais pobres do mundo. Também gostaria de ser lembrado como o político
que ajudou o Partido Trabalhista a tornar-se uma organização
séria e apta a governar. Acredito que o futuro da Inglaterra é
tornar-se um membro forte da União Européia. Para meu país,
o isolamento é um grande erro. Quero que o Partido Trabalhista
busque a justiça social na Inglaterra e no exterior.

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