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Edição 1 712 - 8 de agosto de 2001
Entrevista: TONY BLAIR

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Caos não é socialismo

Primeiro-ministro inglês diz que a
busca de
justiça social e o apoio à
iniciativa privada
andam lado a lado

Eduardo Salgado

 
Milton Michida/AE

"Quem disse que adotar políticas fiscais irresponsáveis e bagunçar a economia é ser socialista?"

Com a morte do francês François Mitterrand, a desgraça do alemão Helmut Kohl e a saída de Bill Clinton da Casa Branca, o Primeiro Mundo estaria órfão de líderes carismáticos não fosse Tony Blair, primeiro-ministro da Inglaterra desde 1997. Advogado, ex-cantor amador de rock, aficionado das peladas de fim de semana, ele se transformou na nova cara do socialismo amigo dos negócios que passou a ser conhecido como terceira via. Ao chegar ao poder, depois de dezoito anos de governo conservador, Blair também arejou a política inglesa. No plano dos costumes, abriu espaço para homossexuais e deficientes físicos em seu ministério. No manejo da economia, não mexeu nas privatizações realizadas pela primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher, mas fez pesados investimentos em saúde e educação. Nestes quatro anos de governo (ele foi reeleito com facilidade em junho), Blair tem-se esforçado para criar um clima favorável à iniciativa privada e atrair investimentos. Aos 48 anos, com três filhos adolescentes e um temporão, nascido há um ano, ele lamenta não ter mais tempo para a família. Na semana passada, acompanhado da mulher, a bem-sucedida advogada Cherie, ele visitou as Cataratas do Iguaçu. Lá, foi entrevistado por VEJA:

Veja – Quando o senhor estava em Gênova, no mês passado, no encontro dos países mais ricos do mundo (G-8), em algum momento sentiu vontade de sair do Palazzo Ducale e se unir às pessoas que estavam protestando?
Blair – Unir-me às pessoas, não. Dialogar com aquelas que protestavam de maneira pacífica, sim. É uma pena que uma minoria tenha se manifestado violentamente. Como um líder, não posso abordar esse assunto na defensiva. Antes de essas pessoas tomarem a decisão de protestar em nome dos países mais pobres, deveriam falar com os representantes dessas nações. Foi exatamente isso que os líderes do G-8 fizeram. Todos os chefes de Estado africanos pedem que nossos mercados sejam mais acessíveis a seus produtos. E eles têm toda a razão. Nesse ponto, sou irredutível. As pessoas têm o direito de protestar, mas não de arruinar um encontro do G-8. Será desastroso se atingirmos o ponto em que os principais líderes mundiais cheguem à conclusão de que não podem se reunir.

Veja – E os protestos pacíficos?
Blair – Vivemos em democracias. Fui eleito, assim como foi o presidente Fernando Henrique Cardoso e como será o próximo presidente do Brasil. Nós representamos milhões de cidadãos. É inaceitável que pessoas que não foram eleitas para nada prejudiquem o trabalho de representantes legítimos do povo. Protestos pacíficos, tudo bem. Quanto à violência que vimos recentemente em Gênova e Gotemburgo, não tenho o menor temor em dizer que é ilegal, típica de vândalos e está completamente errada.

Veja – De que forma os últimos protestos mudaram as prioridades dos países mais ricos do mundo?
Blair – Essa é uma questão que exige muito cuidado. A violência, de forma alguma, abriu meus olhos para os problemas do mundo. Já tratávamos de problemas como o combate à pobreza e Aids antes dos protestos violentos. Uma das primeiras ações do meu governo foi aumentar a ajuda humanitária e as verbas para desenvolvimento no Terceiro Mundo. Fizemos isso por acreditar ser o certo. De alguma forma, fomos pioneiros no tema do perdão da dívida dos países mais pobres. Dito isso, acho justo dar crédito aos protestos pacíficos. Há três anos, houve protestos pacíficos num encontro do G-8 em Birmingham, na Inglaterra, e é óbvio que eles tiveram uma influência importante. Apressaram as ações para o perdão da dívida das nações mais pobres do mundo. Esse tipo de manifestação é parte de uma democracia saudável.

Veja – Por que os jovens do Primeiro Mundo decidiram protestar contra a globalização?
Blair – Reconheço que muita gente, não apenas os jovens, está preocupada com o impacto da globalização. Critico apenas a incapacidade desse pessoal de ver que a abertura de mercados ajudará os países pobres muito mais do que qualquer programa de ajuda humanitária.

Veja – O senhor é socialista?
Blair – Acredito nos valores socialistas de solidariedade, busca da justiça social e igualdade de oportunidades para todos. Não acredito em pesadas intervenções estatais e grandes planejamentos. Meus objetivos são socialistas: diminuição da pobreza infantil, combate ao desemprego entre os jovens, grandes investimentos em educação e saúde. Estou buscando alcançá-los de uma nova maneira. Tenho orgulho em dizer que meu governo apóia a iniciativa privada, é a favor da eficiência das empresas inglesas, tem uma posição de firmeza contra o crime e acredita na justiça social. Na minha opinião, esse é o caminho certo para os partidos de centro-esquerda hoje.

Veja – A melhor receita para gerenciar a economia é a da direita?
Blair – Quando cheguei ao poder, em 1997, enfrentei muitos problemas decorrentes de dezoito anos de governo conservador. Há quatro anos, estávamos gastando mais com o pagamento da dívida interna do que em educação. Consertamos os erros feitos no passado e concedemos independência ao banco central, algo que os conservadores não aceitavam. Os resultados são o menor índice de inflação da União Européia e uma taxa de juros que é a metade do que foi no tempo dos conservadores. Por fim, os gastos em educação totalizam 14 bilhões de dólares a mais do que o pagamento da dívida. Alguns políticos de centro-esquerda dizem que responsabilidade fiscal é coisa da direita. Eles estão completamente equivocados. Estão, na verdade, concedendo o mérito à direita. Quem foi que disse que adotar políticas fiscais irresponsáveis e bagunçar a economia de um país é ser socialista? A grande diferença entre direita e esquerda aparece na hora de decidir o que fazer com a riqueza gerada pelo país. Justiça social e apoio à iniciativa privada andam lado a lado.

Veja – Quais são as causas para o crescente fosso entre ricos e pobres?
Blair – A exclusão social tem várias causas. Na Inglaterra, muitas pessoas não têm as chances que são corriqueiras para outras. Nascem na pobreza, sem acesso à educação, à saúde e ao trabalho. É por isso que estou lutando para aumentar o número de empregos e diminuir a pobreza infantil. Também quero elevar o nível do ensino e do sistema de saúde. Ainda estou longe de meu objetivo, mas já consegui tirar mais de 1 milhão de crianças da pobreza na Inglaterra e criar 1 milhão de novos postos de trabalho para os jovens. Também dei início a um programa de investimentos na área da educação e da saúde que é recorde. Tomei o cuidado de condicionar os investimentos a reformas que melhorem os serviços. Investimento e modernização são cruciais para que se consiga combater a exclusão social na Inglaterra e em outras partes do mundo.

Veja – Os países em desenvolvimento estão tirando proveito da globalização?
Blair – A globalização é extremamente vantajosa para os países em desenvolvimento, apesar de também criar problemas. Graças à globalização, países em desenvolvimento têm cada vez mais acesso aos mercados dos países ricos, acesso a investimentos e à tecnologia. O caso da Embraer, onde estive, é emblemático. A abertura dos mercados permitiu que a empresa formasse associações com companhias estrangeiras e se lançasse ao exterior.

Veja – Países como o Brasil abriram seu mercado aos produtos industrializados do Primeiro Mundo. Já os países ricos mantiveram entraves às importações de produtos agrícolas. Ora, produtos da agricultura são exatamente o que o Terceiro Mundo tem para vender. Isso é justo?
Blair – O sistema de comércio atual não é justo. Temos de organizar uma nova rodada de negociações dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC) e abrir o mercado europeu para produtos de outros países. No caso específico da Europa, precisamos reformar a política agrícola. Os agricultores europeus vão passar por dificuldades com a redução dos impostos de importação. Mas não devemos esquecer que também vamos ganhar muito. Se a próxima rodada de negociações multilaterais da OMC tiver sucesso, estima-se que o fluxo de comércio internacional vai aumentar em 400 bilhões de dólares, dos quais 100 bilhões irão beneficiar os países mais pobres. Isso demonstra como está equivocado quem luta contra o livre comércio. Não há por que frear o processo de globalização, que já atinge os setores financeiro, de comunicações, tecnológico e da cultura.

Veja – O senhor é otimista com relação à próxima rodada de negociações sobre o comércio mundial?
Blair – Otimista não é bem a palavra. Não tenho dúvidas de que a abertura do mercado europeu aos produtos agrícolas é a melhor medida a tomar. O fato de a Inglaterra e o Brasil concordarem nesse ponto aumenta as chances de sucesso.

Veja – Como o senhor pretende convencer os países europeus mais protecionistas, como a França, a abrir seus mercados para produtos agrícolas do Terceiro Mundo?
Blair – Já reordenamos a política econômica da União Européia em função da decisão de concretizar reformas estruturais. A França e outros países vão reconhecer que é sensato mudar. As empresas francesas estão entre as mais dinâmicas do mundo. No meu distrito eleitoral, no norte da Inglaterra, as companhias da França são fortíssimas nas áreas de eletricidade e saneamento.

Veja – A imagem da Inglaterra como o país onde reina a tradição e se pode acertar o relógio pelo horário dos trens ainda é correta?
Blair –
Não existe apenas uma imagem da Inglaterra, assim como não há uma para o Brasil. Tenho orgulho da tradição, da história e dos valores de meu país. E também das contribuições tremendas que tem feito nas áreas científicas, na música e nas artes. Não compartilho da idéia de que a época áurea da Inglaterra já passou. Acho que a modéstia inglesa é algo positivo, mas algumas vezes faz com que se desconsidere nosso potencial. Com relação aos trens, eles já não andam tão bons. Estou tentando resolver problemas nas ferrovias criados pela falta de investimento no passado.

Veja – O Parlamento inglês não é apenas o mais tradicional do mundo, mas também um dos mais elogiados pela conduta ética de seus membros. O que os parlamentares brasileiros poderiam aprender com seus colegas ingleses?
Blair – Tenho muito orgulho do Parlamento inglês, que influenciou a formação de instituições semelhantes em várias partes do mundo. Mas não pretendo dizer aos brasileiros o que fazer. O que funciona na Inglaterra talvez não dê certo aqui. Observando a reação das pessoas e de líderes de várias partes do mundo, já percebi que existe um grande interesse pelo que chamamos de "hora de fazer perguntas ao primeiro-ministro". Toda semana, por meia hora, tenho de responder a perguntas de qualquer membro do Parlamento. De qualquer forma, é o Congresso brasileiro que tem de decidir o que é melhor para o Brasil.

Veja – Como fazer para aumentar o interesse de jovens pela política?
Blair – É verdade que há um certo desinteresse, mas também é certo que nunca antes se viu os jovens tão preocupados com temas como o meio ambiente e a justiça social. O desafio para os políticos é fazer com que um número crescente de jovens se envolva no processo político tradicional. Isso só pode ser alcançado se se mostrar a conexão que existe entre a escolha feita no dia da eleição e as mudanças reais na vida dessas pessoas. É preciso mostrar que o voto faz, sim, diferença.

Veja – O senhor é a favor da descriminação da maconha?
Blair – Não. Algumas pesquisas dizem que a maconha não é o primeiro degrau para drogas mais pesadas. Outras dizem o contrário. Essa questão precisa ser mais debatida. Tenho filhos adolescentes e não gostaria que eles usassem drogas. Reconheço que existem bons argumentos a favor da descriminação, mas eles ainda não conseguiram me convencer.

Veja – O senhor já fumou maconha?
Blair – Nunca me meti com drogas na época da universidade. Sei que essa postura parece fora do comum para quem tocava numa banda de rock, mas foi assim.

Veja – O senhor tem tempo para participar da criação de seus quatro filhos?
Blair – Não tenho todo o tempo que gostaria, mas aproveito o que tenho. É ótimo ser pai e primeiro-ministro. Tenho três filhos em diferentes fases da adolescência, o que é uma experiência bastante interessante. E também o Leo, que acabou de completar 1 ano e é maravilhoso. Ou seja, estou começando tudo de novo com ele. É muito importante para um político ter bases familiares sólidas e estáveis. Somos uma família muito unida.

Veja – O senhor tem a chance de tornar-se o primeiro líder trabalhista a completar dois mandatos à frente do governo inglês. Como gostaria de ser lembrado nos livros de história em 100 anos?
Blair – Como o socialista que mudou o socialismo, como o primeiro-ministro que levou a Inglaterra à união monetária com os demais países europeus, como o líder trabalhista que se empenhou pela redução da dívida externa das nações mais pobres do mundo. Também gostaria de ser lembrado como o político que ajudou o Partido Trabalhista a tornar-se uma organização séria e apta a governar. Acredito que o futuro da Inglaterra é tornar-se um membro forte da União Européia. Para meu país, o isolamento é um grande erro. Quero que o Partido Trabalhista busque a justiça social na Inglaterra e no exterior.

 
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