O "lado B"

Uma homenagem ao mestre
do rock que ficou na sombra

O irlandês Van Morrison, de 53 anos, é uma espécie de "lado B" da geração de ouro que deu, entre outros, Bob Dylan e os Rolling Stones. Ele não tem pose de popstar, não rebola no palco, não faz turnês milionárias, mas poucos roqueiros são tão respeitados — inclusive entre seus pares — quanto ele. Além de ter passado boa parte da carreira se esquivando das malhas da indústria fonográfica, Morrison tem algo mais que o diferencia. Ele é um virtuose, nos instrumentos e na composição, em diferentes estilos. Ele próprio conta que em Belfast, sua cidade natal, aprendeu a tocar guitarra como um negro americano do Mississippi, enquanto ouvia a coleção de discos de jazz e blues de seu pai. Nessa época, tinha 10 anos. O que absorveu ali não foram apenas "influências". Morrison compõe blues e rhythm & blues, compõe jazz, compõe rock, country e até algumas pérolas de música céltica. Prova dessa versatilidade é o recém-lançado CD duplo The Philosopher's Stone, que reúne trinta faixas gravadas entre 1971 e 1988 e agora remixadas.

No disco, há canções inéditas e arranjos alternativos para velhos sucessos. Assim, descobrimos que em 1973 Van Morrison já cantava seu sucesso Wonderful Remark, que só viria a público dez anos mais tarde, na trilha sonora do filme O Rei da Comédia, de Martin Scorsese. Nesta versão recuperada, o naipe de metais e a levada rhythm & blues são substituídos por uma flauta "paz e amor" e um arranjo delicado e suave. Outro clássico, The Street Only Knew Your Name, aparece no CD com roupagem elaboradíssima, bem diferente daquela do álbum Inarticulate Speech of the Heart (1983). Entre as preciosidades que não constavam de discos estão a empolgante Western Plains, a suingada Street Theory, pontuada por um belíssimo solo de trompete, e, finalmente, For Mr. Thomas, que homenageia o poeta galês Dylan Thomas.

Um aspecto interessante desta coletânea é que ela permite observar como a voz e o canto de Morrison evoluíram. Depois de deixar o grupo Them, em meados da década de 60, Morrison lançou seu primeiro trabalho solo em 1968: Astral Weeks, considerado um dos melhores discos de rock de todos os tempos. Naquela época, a crítica se surpreendeu com a força de suas interpretações e alguns chegaram a dizer que Morrison transformava em música "o grito primitivo". Com o correr dos anos, o timbre do cantor se tornou mais grave e a voz mais encorpada. Mas Morrison não perdeu potência, pelo contrário, até se aperfeiçoou nas improvisações vocais. É claro que nem tudo são rosas neste CD que revisa a carreira de um grande músico. Showbusiness é uma dispensável investida contra o mundo do espetáculo. Contemplation Rose, I Have Finally Come to Realise e Song of Being a Child mostram o lado "espiritual", suntuoso e chato de Van Morrison. Mesmo assim, não há dúvida de que estes "restos", que ele recuperou de décadas passadas, ainda são melhores do que boa parte do rock atual.

C.G.




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