Como você não curtiu?

Os motivos que levam o espectador a
esconder sua opinião sobre certos filmes

João Gabriel de Lima

Foto: Paramount Pictures

Entra em cartaz nesta semana, em cópia restaurada, Morangos Silvestres, do sueco Ingmar Bergman. Morangos Silvestres é um filme adorado por uma minoria e estoicamente engolido pela imensa maioria que viu e não gostou. Esses que não gostaram escondem essa verdade simples dos outros que também não gostaram e, no fim, ninguém fica sabendo qual a real opinião das pessoas a respeito de Morangos Silvestres. Acontece que o complicado filme sueco pertence a um grupo específico: o dos "filmes que você diz que gosta mas não consegue assistir até o fim". Por que existe essa categoria? É simples: os críticos elogiam, os jornais dão páginas inteiras, os acadêmicos escrevem teses enaltecendo determinados filmes. O massacre é tão violento que, quando você os assiste e pega no sono, se sente culpado. É possível fazer uma lista enorme de filmes pertencentes a esse grupo. Pode-se começar pela obra de cineastas como o russo Andrei Tarkovski e o suíço Jean-Luc Godard, mais a filmografia quase completa de países como Irã, Macedônia ou Grécia. Maior que essa lista, só a oposta: a dos "filmes que você adora mas tem vergonha de admitir". Os mesmos críticos que escrevem verdadeiros ensaios sobre filmes chatérrimos dão bola preta para produções de ação de Arnold Schwarzenegger, comédias românticas de Meg Ryan e filmes de terror arrepiantes como os da série Sexta-Feira 13. Será que você é insensível e não consegue gostar do que é realmente bom? Ou há algo de errado?

Foto: United Artists

Sim, há algo de errado, e não é com você. O engano começa por uma idéia que vem sendo disseminada desde os anos 50: a de que cinema é arte de verdade. Junto com ela surgiu o mito de que diretor de cinema é uma espécie de pensador. São idéias falsas. Quem gosta de filosofia ou reflexões profundas deve comprar livros, e mesmo assim com muito critério. O cinema, pelas próprias limitações do meio, consegue, no máximo, contar bem uma história. E, somente quando faz isso muito bem, atinge um status próximo ao da arte. Estão nessa categoria Ludwig, de Lucchino Visconti, Jules e Jim, de François Truffaut, ou Amarcord, de Federico Fellini. O problema é que a maior parte dos filmes de que você se sente obrigado a gostar não conta história alguma. Uma parte da crítica adora elogiar filmes cheios de silêncios, frases sem sentido ou imagens banais que querem significar mais do que são: um amontoado de baboseiras na tela para disfarçar a falta de um bom roteiro. Essa prática começou com o movimento conhecido como nouvelle vague (nova onda, em francês) e perdura até hoje.

Retórica vazia — O grande clássico dessa tendência é o suíço Jean-Luc Godard. Salvo exceções como seu primeiro filme, Acossado, ele tem uma enorme dificuldade em contar uma história. Enche seus filmes de diálogos supostamente densos e uma montagem enlouquecedora, em que tudo parece acontecer de trás para a frente. O filme mais famoso dessa família dos que você não pode dizer que não gosta é de outro dos papas da nouvelle vague, o francês Alain Resnais: Ano Passado em Marienbad. Baseada num roteiro do escritor Alain Robbe-Grillet, figura de proa do movimento conhecido como nouveau roman — que tinha, entre suas pedras de toque, o trabalho com narrativas não lineares —, a fita é uma prova acabada de que recursos da literatura não são adaptáveis às telas. Cheio de frases truncadas, é chato, chato, chato e ininteligível — mais aborrecido até do que os livros de Robbe-Grillet. Mas foi a partir dele que surgiu a máxima, cara a muitos críticos de cinema, de que qualquer bobagem dita em francês vira filosofia.

Foto: Divulgação Cia Cinematográfica Franco Brasileira

Com o tempo, passaram a valer bobagens ditas em todas as línguas. Entre os reis da palavra vazia, estão o grego Theo Angelopoulos, o espanhol Vicente Aranda e o russo Andrei Tarkovski — cujo filme O Sacrifício, com seus silêncios e planos longuíssimos, tem pelo menos o mérito do título acertado, pelo suplício que inflige ao espectador. Os mesmos críticos que vinte anos atrás gostavam de filmes sem pé nem cabeça começaram a admirar fitas vindas de longe, como os chatíssimos O Cheiro da Papaia Verde (vietnamita) e o iraniano Gosto de Cereja. Um filme, claro, não é necessariamente bom ou ruim por causa do selo do passaporte. Em um país pobre e em guerra como a Macedônia surgiu uma obra de fôlego como Underground, de Emir Kusturica. Mas o endeusamento da produção de países do Terceiro Mundo vem, na verdade, de uma vertente politicamente correta que acha que um filme é bom por causa do país que representa.

Foto: F. J. Lucas

Roleta-russa — Nessa mesma linha, comete-se também o equívoco de acreditar que uma produção é suficientemente boa por causa da idéia que defende. Por isso foram tão elogiadas bombas como Amargo Regresso, Síndrome da China (ambos com Jane Fonda) e, mais recentemente, Nascido a Quatro de Julho, de Oliver Stone, que pretende ser um libelo pacifista ao contar a história de um herói de guerra do Vietnã que ficou paraplégico depois de levar um tiro. Na verdade, consegue ser apenas um dos filmes mais piegas de todos os tempos. De outro lado, O Franco Atirador, de Michael Cimino, foi malhado durante anos por ser um filme reacionário. É mesmo. Maniqueísta, tem entre seus personagens americanos bonzinhos e vietnamitas malvados. Mas mostra melhor do que Nascido a Quatro de Julho a devastação que a guerra provoca na vida de um ser humano, por intermédio do desvario do personagem vivido por Christopher Walken, que passa a apostar a própria vida na roleta-russa.

Por último, não se pode esquecer que, se o cinema às vezes atinge o status de arte, ele é sempre, prioritariamente, entretenimento. E um filme que apenas proporciona diversão honesta não pode ser julgado pelos mesmos critérios com que se julgam Fellini, Truffaut ou Visconti. O próprio Truffaut, aliás, autor da máxima segundo a qual um filme nunca pode entediar — seguida à risca em sua obra —, exercia uma espécie de militância em favor do chamado "cinema de entretenimento". Sem a bênção dos críticos, filmes como Proposta Indecente, O Exterminador do Futuro ou Rocky, um Lutador, que todo mundo tem vergonha de admitir que gosta, se bastam pela diversão que proporcionam a quem os assiste na telona ou em vídeo. Por isso, não tenha vergonha de suar na cadeira com um filme de Sylvester Stallone ou derramar lágrimas numa comédia romântica de Meg Ryan. Nem de bocejar ao assistir a Gosto de Cereja, O Sétimo Selo ou Ano Passado em Marienbad. Esses filmes são muito chatos mesmo. Vá ao cinema ver Morangos Silvestres e forme sua própria opinião. Mesmo depois de ler este artigo, você tem todo o direito de gostar do filme. Que, pensando bem, não é tão chato assim — há até uma boa história escondida entre as seqüências intermináveis em que o personagem principal conta seus sonhos.




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