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Fim de uma era
Romance
retrata o ocaso do salazarismo em Portugal
António Lobo Antunes é um dos mais
importantes escritores portugueses da atualidade. Leitura
obrigatória, portanto. Brasileiros precisam conhecer os
escritores portugueses, portugueses precisam conhecer os
brasileiros. É a ordem natural das coisas, para citar o
título de um de seus romances precedentes. Por menos que
se goste de Lobo Antunes, é necessário publicá-lo, é
necessário lê-lo, é necessário resenhá-lo, mesmo
quando se trata de seus livros mais fracos. Literatura
demanda uma certa dose de disciplina, de rigor.
Rigor, de fato, é
o termo adequado para definir O Manual dos
Inquisidores (Editora Rocco; 380 páginas; 32
reais), lançado em Portugal em 1996. Com um rigor
inquisitorial, Lobo Antunes reconstrói os últimos anos
de vida de um potente ministro da ditadura Salazar,
colhendo depoimentos de todas as pessoas que o circundam.
O filho, no dia de seu divórcio, recorda a quinta em que
moravam e a ruína financeira de sua família, logo
depois do fim do regime. A filha do caseiro fala a
respeito das violências sexuais que sofreu por parte do
ministro, e a fúria que ele manifestou ao tomar
conhecimento da queda da ditadura, quando enxotou a
coronhadas todos os empregados da quinta, acusando-os de
ser comunistas. A filha ilegítima do ministro com a
cozinheira, criada por uma viúva cujo marido morreu
devorado por um crocodilo em Angola, lembra o momento em
que foi apresentada pela primeira vez ao pai e ao irmão.
A cozinheira relata a chegada à quinta de Marcelo
Caetano, escolhido como sucessor de Salazar, apesar da
hostilidade do ministro e de seus amigos militares, que
viviam planejando golpes para derrubá-lo. O próprio
ministro, agora internado numa casa de repouso, senil e
incontinente, revive o levante de Angola em 1961, e o
terror que sentiu naquela circunstância.
Herança da
ditadura Em meio a tantos fragmentos de
história, o que falta ao romance é uma trama
propriamente dita. Há o episódio da jovem Milá,
contratada para interpretar o papel da antiga mulher do
ministro, Isabel, que o abandonara pelo amante, muitos
anos antes. Milá é paga pelo ministro para vestir-se
como Isabel, comportar-se como Isabel, responder ao nome
Isabel. Mas esse é apenas um detalhe meio patético do
livro. O ponto central de O Manual dos Inquisidores,
na verdade, é seu pano de fundo político e histórico:
a passagem das quatro décadas de ditadura à chamada
Revolução dos Cravos, de 1974. Lobo Antunes apresenta o
totalitarismo salazarista de modo perfeitamente
convencional, caracterizando-o como um regime arcaizante,
que imobilizou Portugal em suas velhas estruturas do
começo do século. Nenhuma novidade em relação ao que
já sabemos. Por outro lado, ele tenta mostrar a herança
da ditadura por meio dos personagens que transitam de uma
época para a outra, como o filho do ministro, esmagado
pela figura autoritária do pai.
É possível que O
Manual dos Inquisidores, descrito dessa maneira,
pareça pouco atraente. Trata-se de uma injustiça do
resenhista. Lobo Antunes é um autor corajoso que sempre
se aventura em arriscadas experiências narrativas. E o
faz na nossa língua, usando-a bem melhor do que todos
nós. Ou seja, é fundamental, mesmo quando erra. Leitura
obrigatória.
Diogo
Mainardi

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