Nordeste

A todo o vapor

Apesar da seca, a economia nordestina cresce
mais que a do Brasil pelo quarto ano consecutivo

Manoel Fernandes

Foto: Tibico Brasil  
Foto: Fernando Vivas
Prédios em construção em Fortaleza e plantação de soja no
oeste baiano: desenvolvimento acelerado

A imagem cristalizada do Nordeste sempre foi a de uma região estagnada, dona de uma economia sonolenta e eternamente andando a reboque do resto do país. Nos últimos meses, o quadro pintado era ainda mais feio. Parecia um território de apenas três características: muita seca, saques aos borbotões e famintos por todos os cantos. Pois bem, enquanto todo mundo está pensando nas desgraças acima, o Nordeste continua crescendo a um ritmo impressionante, quando comparado às médias do Brasil. Pelo quarto ano seguido, o PIB nordestino, ou seja, a soma de todas as riquezas produzidas na região, bate o do país. No ano passado, enquanto a variação do PIB brasileiro foi de 3%, a do Nordeste chegou a 5,8%, segundo um estudo realizado pela Sudene (veja quadros).

O mesmo Nordeste que serve de palanque para o MST guarda nas suas fronteiras resultados de fazer inveja a outras regiões. No município de Barreiras, no oeste baiano, a cultura da soja é a que mais cresceu — 44% somente no ano passado. Agora os plantadores investem na diversificação. O café produzido em terras baianas consegue ter uma produtividade dez vezes maior que a média do que é colhido em Minas Gerais e São Paulo. A boa maré se reflete na venda de produtos tão diferentes como derivados de tomate, maionese, leite longa vida ou xampu, que aumentou nos nove Estados da região num volume muito maior do que no restante do país.

"O Nordeste perdeu a homogeneidade da miséria", afirma Carlos Américo Pacheco, coordenador no Núcleo de Economia Social e Regional da Unicamp. É exatamente isso. Problemas graves continuam existindo, mas os números recentes mostram que o Nordeste não está parado. Não faltam explicações para entender esse bom resultado da economia local. É uma associação entre a chegada de novas empresas, a descoberta das vocações regionais, como o turismo, e a elevação do poder de compra das classes com renda inferior a dois salários mínimos.

A relação desse crescimento com o Plano Real é óbvia. Foi exatamente desde o início do plano de estabilização, e o conseqüente fim do imposto inflacionário, que esse impulso se deu de modo mais consistente. Em 1997, os novos empregados de empresas do Nordeste foram contratados com salários 6% mais altos do que o ano de 1996. A atividade industrial cresceu 10,2% — é o porcentual mais elevado desde 1979, quando as primeiras empresas do pólo petroquímico de Camaçari, na Bahia, começaram a produzir. Os dados impressionam pela sua magnitude, e o mais surpreendente é relativo ao consumo de cimento. No ano passado, as vendas subiram 44%, contra os 10% registrados pelo Brasil. Quem sobrevoar Fortaleza confirmará esses números com uma simples olhada. São 250 edifícios sendo erguidos neste momento. A taxa de novos empregos nessa indústria em 1997 foi de 5,13% no Nordeste. Mais do que o quádruplo da média brasileira. E quem mais impulsiona essa atividade são as famílias de baixa renda, donas do chamado mercado formiga. A maior parte do consumo vem dos que compram até três sacos de cimento.

O estudo da Sudene é relativo ao ano passado. Mas não se deve apostar que os efeitos da terrível seca de 1998 vão jogar pelo ralo todos esses números. Uma pesquisa feita pelo Ibope/NPD mostra que o consumo de alguns alimentos cresceu bem mais nas casas nordestinas do que no resto do Brasil até abril deste ano. Os derivados de tomate são um bom exemplo. Nos primeiros quatro meses do ano, a venda do produto no país não sofreu nenhuma alteração. No Nordeste cresceu 16%. Nesse período, o consumo nacional de maionese teve uma redução de 4%, contra uma taxa positiva de 6% nos Estados nordestinos. "A região é um mercado de que as empresas não podem deixar de participar", afirma o professor Pacheco, da Unicamp.

"Os números são bons, mas precisamos correr muito para nos aproximarmos do resto do país", afirma o diretor de Política Regional e Urbana do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, Gustavo Maia Gomes. Ele acha que a tarefa não é tão fácil. Cita o caso da renda per capita nordestina, que hoje é de 2.966 reais, longe ainda da média brasileira, que alcança os 5.400 reais. De qualquer modo, no Nordeste esse número subiu 4,7% em 1997. No país, o crescimento foi de apenas 1,8%. Os indicadores sociais que sempre foram utilizados para medir o grau de miséria da população também estão melhorando. A mortalidade infantil do Nordeste, que na década de 1980 era de 121 mortes em cada 1.000 nascimentos, passou para 63 mortes em 1997. É um índice muito alto para qualquer país interessado em ingressar no Primeiro Mundo, mas mostra que algo está acontecendo mesmo com a seca, a pobreza e os saques organizados pelo MST.

 





 


Com reportagem de
Ana Pessoa, de Fortaleza,
e
Luiz Ferreira, do Recife




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