Edição 1908 . 8 de junho de 2005

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Tales Alvarenga
Ética de elevador

"Os petistas vão usar todos os métodos
que tiverem à mão para evitar que a
verdade venha à tona na CPI. Qual é
a razão de tanto medo?"

As pessoas costumam não notar, mas em todos os elevadores há uma placa condenando a discriminação de passageiros. Nos elevadores de São Paulo, a placa diz o seguinte: "É vedada sob pena de multa qualquer forma de discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, idade, porte ou presença de deficiência e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores deste edifício". Essa lei, com pequenas diferenças de cidade para cidade, é das que não colaram. Empregadas domésticas e serviçais usam o elevador de serviço e nunca o elevador "social". Qualquer pessoa suspeita de ser empregada ou serviçal, por cor da pele, porte, aparência, roupas ou qualquer outro indicador "social" é convidada a usar o elevador do fundo. Essa placa com o princípio ético está lá pregada na parede, mas passa despercebida. Os que a vêem fingem que ali nada existe. Chamo esse fenômeno de "ética de elevador", uma das manifestações da hipocrisia social.

O PT também tem uma ética que é uma placa na parede, invisível. Quando se tratava de enquadrar os adversários como antiéticos, o PT exibia sua placa com orgulho. Julgando-se os únicos representantes da correção política, os petistas consideravam os adversários suspeitos naturais. Como pit bulls da moralidade, atacaram os que cercavam José Sarney, morderam merecidamente Fernando Collor e ficaram de dentes à mostra para Fernando Henrique durante oito anos. Rosnavam. Para marcar sua diferença de FHC tentaram abrir CPIs a qualquer indício de deslize no governo tucano, que na visão deles estava tão apodrecido que Fernando Henrique deveria ser punido com o impeachment.

Agora, os petistas do governo estão atolados em acusações sobre falcatruas envolvendo auxiliares diretos e aliados políticos. Nessa situação, as lideranças do PT ficaram cegas diante de sua tábua ética, aquela que só existe para os rivais. Tentaram evitar a CPI dos Correios por meio de transações escandalosas com deputados, fizeram chantagem emocional contra petistas que querem a investigação, ameaçaram com punições seus quadros rebeldes e acusaram os adversários de atentar contra a estabilidade das instituições nacionais. Vão usar todos os métodos que tiverem à mão para evitar que a verdade venha à tona na CPI. Qual é a razão de tanto medo?

Nota-se hoje um acordo tácito impensável no passado. Radicais do PT e aqueles que abandonaram o partido por desencanto com sua falta de princípios fazem críticas muito parecidas às dos tucanos e pefelistas com relação às tentativas do governo de boicotar a CPI. Petista histórico hoje fora do rebanho, o sociólogo Francisco de Oliveira chama de "bisonhos, tacanhos, aquém da esperança do povo brasileiro" todos os cardeais do PT que estão no leme do partido e do país. Onde está a tábua de atributos éticos do PT governista? É apenas uma placa na parede.

 
 
 
 
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