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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro A
culpa é do tataravô
"Nosso
retardo educativo vem menos do que fizemos mal nas últimas décadas
e mais do não feito nos
quatro séculos precedentes"
Nunca se criticou tanto e tão acidamente a educação brasileira
quanto agora. E merecidamente, pois é péssima. E, para que ela se
mova, ainda é pouco o que criticamos. Mas não podemos perder a perspectiva
histórica. Nunca tivemos uma educação tão vibrante
e em tão rápida transformação. Vamos entender o paradoxo.
Nossa educação é ruim porque sofreu quatro séculos
e meio de abandono. Foi nos últimos cinqüenta anos que tudo começou
a acontecer. E, obviamente, é pouco tempo para recuperar os séculos
perdidos e para evitar os solavancos e as incompetências do crescimento
açodado. O desleixo passado
nos deixa seqüelas muito mais graves do que aquelas geradas pelas trapalhadas
das décadas recentes. Ao preparar o prefácio do esplêndido
livro de Maria Luiza Marcílio, História da Escola em São
Paulo e no Brasil, adquiri mais munição para defender tais idéias.
Ilustração
Ale Setti
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Em
1612, o ducado de Weimar precede o resto da Europa, ordenando que "toda criança
de 6 a 12 anos deveria estar na escola", cumprindo uma jornada escolar de seis
horas (proeza que ainda não igualamos). Na Viena de 1774, aprova-se uma
lei proibindo a contratação de aprendizes e empregadas domésticas
sem um certificado escolar. As colônias americanas da Nova Inglaterra, já
no século XVIII, caminham rapidamente para a escolarização
universal. Em meados do século XIX, inspirada por Rivadavia e Sarmiento,
a Argentina começa um processo rápido de escolarização.
O Uruguai a acompanha.
Aqui no Brasil,
quase nada. Herdamos a tradição portuguesa de um ensino que conseguia
ser ainda mais débil do que o espanhol. O que recebemos de Portugal foi
a herança de sua própria educação mirrada e medíocre,
muito mais do que uma política de conter o desenvolvimento do nosso ensino.
Ouvimos muitas lamúrias sobre
o vácuo educacional, após a expulsão dos jesuítas.
De fato, a cidade de São Paulo ficou sem escolas formais por 43 anos. Mas,
enquanto funcionaram, seus colégios cobriam apenas 0,1% da população.
O governador-geral Morgado de Mateus
encontrou sérias dificuldades para montar sua equipe de governo. "Não
achei quem tivesse letras ou que, ao menos por remédio, pudesse remediar
essa falha." Em 1821, Rugendas afirma que no Brasil "não se deu a devida
importância à instrução primária das classes
baixas e médias da sociedade, e os que nas classes elevadas sentiam a necessidade
de uma prestação mais completa nem por isso encontravam mais recursos".
Nossa educação era compatível
com a mediocridade intelectual da época. Mesmo a educação
das elites era débil e improvisada. No dizer de Bastos Ávila, era
"um ensino de inutilidades ornamentais". O que havia era uma educação
péssima para as elites e quase nada para os demais. Pergunta o visitante
John Luckoc: "O que pode ensinar quem nada sabe?... Não havia outro meio,
portanto, senão permitir que as crianças crescessem selvagens, em
meio a uma chusma de escravos e vagabundos da pior espécie com quem testemunham
e aprendem a praticar todas as vilanias de que sua tenra idade era capaz".
O professor ensinava a um aluno de cada vez, era tudo o que ele sabia fazer. Como
resultado, os outros ficavam inquietos e indisciplinados, gerando a necessidade
da palmatória. Não havia seriação. Os alunos podiam
entrar e sair da escola em qualquer período do ano. Da mesma forma, não
havia a "grade curricular". A aritmética não era lecionada simultaneamente
ao português, e a leitura e a escrita eram ensinadas em separado. Durante
todo o Império, não houve prédios escolares em São
Paulo nem móveis didáticos. Em Ubatuba, por exemplo, os alunos tinham
de estudar em pé. Em suma,
a principal razão do atraso de hoje é o início tardio, pois
as escolas só começaram a tomar alguma consistência no século
XX. Portanto, nosso retardo educativo vem menos do que fizemos mal nas últimas
décadas e mais do não feito nos quatro séculos precedentes.
Mas a nós, tataranetos, não se permite complacência. Justamente
por estarmos tão atrasados, temos de recuperar o tempo perdido.
Claudio de Moura Castro é economista (claudiodmc@attglobal.net)
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