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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Volta à garagem, volta,
Garganta Profunda
O caso do informante
secreto de
Watergate remete ao contraste
entre aqueles tempos e os atuais
O Garganta Profunda que na semana passada
se revelou como Mark Felt, outrora o nº 2 do FBI, a polícia
federal americana, como que sai das profundezas de um subterrâneo
para lembrar quanto os Estados Unidos mudaram desde aqueles idos
de 1972/74. A imagem do subterrâneo não está
aqui a troco de nada. Era num estacionamento subterrâneo de
Washington que o alto funcionário do governo americano identificado,
estes anos todos, pelo apelido de Garganta Profunda se encontrava,
altas horas da madrugada, com o repórter Bob Woodward, a
quem entregava alguns dos segredos do escândalo Watergate.
Quem viu o filme Todos os Homens do Presidente talvez ainda
guarde a cena, entre lúgubre e angustiante, temerária
e romântica, do jovem repórter Woodward, interpretado
por Robert Redford, a encontrar-se com seu informante no ambiente
carregado de uma garagem deserta, onde a iluminação
é precária e os passos ecoam pesadamente. O cenário
realçava o caráter justiceiro da empreitada em que
tanto o jovem repórter quanto o experimentado funcionário
estavam envolvidos, contra o governo arrogante e abusivo do presidente
Richard Nixon.
Mark Felt, aos 91 anos, tangido pelos familiares,
saiu do armário, ou do subterrâneo, na semana passada,
para declarar que é "o cara a quem chamavam de Garganta Profunda".
De certa forma, é uma pena. O segredo, que ele, Woodward,
Carl Bernstein (o repórter que fazia dupla com Woodward)
e Ben Bradlee (o chefe dos dois no jornal The Washington Post)
os únicos a conhecê-lo juraram só
revelar depois da morte de Felt, era parte da aura sagrada que recobre
o episódio. Também é uma pena que o Garganta
Profunda passe doravante a ser conhecido como um mero Mark Felt.
O apelido, tirado de um famoso filme pornográfico da época,
foi crucial para o fascínio que cercava o personagem.
Mas não é isso o que interessa
aqui. Interessa ressaltar que Garganta Profunda, mesmo que na pele
de um simples Mark Felt, mesmo que na qualidade de um Super-Homem
que se rebaixa à condição de Clark Kent, mesmo
assim traz de volta um tempo de ouro da democracia americana, que
contrasta com os tempos atuais. Watergate e a Guerra do Vietnã
foram dois episódios do mesmo período em que a imprensa,
refletindo uma opinião pública alerta e pugnaz (ou
talvez uma opinião pública, refletindo uma imprensa
alerta e pugnaz), investiu contra as ações ilegais,
as operações clandestinas, as mentiras, as mistificações
e as escolhas incorretas dos governantes com um ímpeto e
um senso de decência que levariam, nos dois casos, à
desgraça dos responsáveis e a uma mudança de
curso no país. Hoje, temos nos Estados Unidos uma imprensa
que, refletindo uma opinião pública domesticada (ou
uma opinião pública que, refletindo uma imprensa domesticada),
convive em paz e harmonia com um presidente que ganhou sua primeira
eleição graças a uma fraude, lançou
o país a uma aventura guerreira tão escabrosa quanto
outrora a aventura do Vietnã e patrocina porões onde
se pratica a tortura.
A imprensa americana deu-se, de uns tempos
para cá notadamente depois que o New York Times
descobriu em suas fileiras um repórter que inventava histórias
à prática de atos de contrição.
Mea culpa, mea culpa, e com isso querem dizer: "Vejam como somos
honestos, vejam como reconhecemos nossos erros". Ora, o reporterzinho
mentiroso é o de menos, quase nada, em comparação
com a complacência de uma imprensa que aceitou se misturar
aos batalhões invasores para "cobrir" a guerra do Iraque
ou, pior ainda, que só registra tímidos e isolados
protestos contra o escândalo inominável que é
manter prisioneiros sem julgamento na base de Guantánamo.
Voltou-se ao reflexo condicionado tão acrítico, tão
pré-Vietnã e pré-Watergate, de julgar que é
"impatriótico" questionar o governo até as últimas
conseqüências.
O último ato de contrição
foi da revista Newsweek, que se retratou e se desmilinguiu
em autoflagelação por ter publicado a notícia
de que agentes encarregados de interrogar presos em Guantánamo
teriam, para intimidá-los, jogado um exemplar do Corão
na privada e acionado a descarga. Ora, se a Newsweek
não acertou em cheio, bateu na trave. Seguiram-se vários
relatos de desrespeito ao Corão em Guantánamo,
o que equivale, para um católico, a desrespeitar o crucifixo.
Um dos presos, embora seu depoimento ainda careça de confirmação,
denunciou, sim, o arremesso do livro na privada. Mesmo assim, a
questão maior virou a Newsweek, ou "o fiasco da Newsweek",
como se passou a dizer, como se fiasco muito maior não fosse
a barbárie de Guantánamo.
A Anistia Internacional, num recente relatório,
ao condenar as torturas praticadas por americanos no Iraque, no
Afeganistão e em Guantánamo, lamentou o mau exemplo
que isso significava para o mundo. Tudo o que vem da superpotência
tem influência planetária e imenso poder de contágio.
É o caso de uma imprensa submissa e de uma opinião
pública inerte. Elas deixam o mundo mole como um pudim. Volta
ao subterrâneo, Garganta Profunda, volta.
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