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Diogo
Mainardi
Verbas em transe
"O governo federal deu 1 bilhão
de reais à
turma do cinema. Uma parte do dinheiro foi
roubada, retornando por baixo do pano às
empresas beneficiadas pelo subsídio fiscal.
A outra parte do dinheiro teve um
destino
infinitamente mais sombrio: virou filme"
O período de ouro do cinema
nacional foi entre 1992 e 1994. Fernando Collor de Mello cortou
o financiamento público e nenhum filme foi feito.
De lá para cá,
tudo piorou. O governo federal deu 1 bilhão de reais à
turma do cinema. Uma parte do dinheiro foi roubada, retornando por
baixo do pano às empresas beneficiadas pelo subsídio
fiscal. A outra parte do dinheiro teve um destino infinitamente
mais sombrio: virou filme. No momento, 365 longas-metragens estão
em produção no país. Se todos fossem realizados,
daria para ver um filme nacional diferente por dia, durante um ano.
Não consigo imaginar perspectiva mais aterrorizante do que
essa.
Gilberto Gil, na última
segunda-feira, reconheceu que o setor cinematográfico enfrenta
um "esgotamento do modelo, uma fadiga da estrutura". Ele afirmou
que, embora o investimento de recursos públicos tenha crescido
nos dois primeiros anos do governo Lula, a participação
do cinema nacional na bilheteria caiu de 21% para 10%. Gil defendeu
um "choque de capitalismo". Choque de capitalismo, no jargão
do ministro da Cultura, tem um significado um tanto pitoresco. Não
quer dizer eliminar o financiamento público. Pelo contrário:
quer dizer aumentá-lo. De fato, a proposta de Gil é
dar ainda mais dinheiro à turma do cinema. Ele acredita que
o governo não deve bancar somente a produção
de filmes, como fez até agora. Deve bancar também
a distribuição e a exibição. O capitalismo,
para Gil, funciona assim: o Estado paga tudo. Paga a produção
do filme, paga a construção da sala, paga a distribuição
da cópia, paga o bilhete do espectador. Se o mercado rejeita
o cinema nacional, o capitalismo de Gil simplesmente abole o mercado.
Em 2003, foram lançados
no circuito comercial 29 filmes produzidos no país. Outros
vinte não conseguiram encontrar exibidor. Foram direto para
a lata do lixo. Se o governo jogasse fora dois quintos da verba
da merenda escolar, alguém já estaria preso. Como
joga fora dois quintos da verba de filmes, ninguém reclama.
O cinema nacional só existe porque é tutelado pela
política. Produtores e diretores sabem disso. Tanto que sempre
buscam a proteção de quem controla o dinheiro. Outro
dia, um grupo deles se reuniu com José Dirceu. Gilberto Gil
aprovou o beija-mão. Ele declarou: "Melhor que procurem muita
gente. É bom. É uma forma de envolver a Casa Civil".
Seria recomendável que produtores e diretores procurassem
agora Delúbio Soares, Silvio Pereira e Mauro Dutra, dono
da Novadata e amigo do peito do presidente.
Uma questão, porém,
o governo jamais poderá superar: a ojeriza do espectador
pelo cinema nacional. O brasileiro aceita que lhe tomem o dinheiro
para financiar o parasitismo do meio cinematográfico. Aceita
até mesmo que isso acabe envolvendo uma certa dose de roubalheira.
O que o brasileiro não aceita, de jeito nenhum, é
ter de assistir a filme nacional. Não adianta criar uma reserva
de mercado, obrigando o exibidor a colocá-lo em cartaz. Não
adianta baratear artificialmente o bilhete de entrada. O espectador
que, uma vez na vida, caiu na cilada de ver um filme brasileiro,
de Terra em Transe em diante, nunca mais repetirá
o erro.
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