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Entrevista: Timothy
Garton Ash O atoleiro europeu Segundo
o historiador inglês, a rejeição
da Constituição européia lança o continente num período
de "contemplação do próprio umbigo"
 Carlos
Graieb, de Londres Recentemente, o acadêmico
inglês Timothy Garton Ash recebeu uma ligação da Casa Branca.
Era um convite do presidente americano, George W. Bush, para que fosse aos Estados
Unidos "explicar-lhe a Europa". Aos 50 anos, Ash é diretor do Centro de
Estudos Europeus da Universidade Oxford, uma das mais importantes da Inglaterra.
É também um comentarista político dos mais lúcidos
e prolíficos, escrevendo artigos semanais para o jornal londrino The
Guardian. Já publicou oito livros, entre os quais A Revolução
Polonesa, Os Arquivos (uma curiosa leitura dos documentos que a Stasi, a polícia
secreta da antiga Alemanha comunista, reuniu a seu respeito enquanto ele cumpria
uma temporada de estudos em Berlim) e Mundo Livre, o mais recente deles,
que investiga as diferenças que separam a Europa dos Estados Unidos e sugere
que elas não são de forma nenhuma insuperáveis. Na semana
passada, logo depois da notícia de que a França e a Holanda haviam
rejeitado, em barulhentos referendos, o texto constitucional da União Européia,
Ash conversou com VEJA sobre o impacto dessas decisões. Veja
Na semana passada, França e Holanda rejeitaram a Constituição
da União Européia. Qual o impacto desse "não"? Ash
As conseqüências são enormes. Estamos falando de
um país líder do bloco europeu, a França, e de outro cuja
influência não é nem um pouco desprezível. Nos próximos
meses haverá referendos em várias nações, e algumas
devem seguir o exemplo que foi dado agora. No Reino Unido, o governo talvez use
a oportunidade para cancelar o referendo programado para julho, evitando assim
uma custosa campanha de convencimento interno. Formalmente o processo de ratificação
constitucional ainda pode ir adiante. Mas há quem diga, com boas razões,
que a Constituição já está morta. A integração
européia caiu num atoleiro. Arquitetar um novo entendimento entre 25 países
não é fácil, e, infelizmente, tempo é um luxo de que
não dispomos. Enquanto a Europa mergulha na contemplação
do próprio umbigo e naquilo que Freud chamou de "narcisismo das pequenas
diferenças", gigantes emergentes como a China e a Índia crescem
com gana e os Estados Unidos talvez se sintam tentados, mais que nunca, a seguir
em seu caminho de hiperpotência ensimesmada. Veja
Alguma lição positiva pode ser tirada do episódio?
Ash Um certo estilo de conduzir a integração da Europa
provavelmente chegou ao fim. Nesse modelo, uma elite burocrática transnacional
tomava decisões complexas e esperava que os europeus concordassem com elas
ou que não prestassem atenção, como dizem os cínicos.
Pois bem, desta vez as pessoas prestaram atenção, debateram muito,
e não concordaram. O jargão tecnocrático usado pela Constituição
foi um motivo constante de crítica e irritação nas últimas
semanas. Daqui para a frente, será necessário esforçar-se
bem mais para legitimar perante o público os tratados construídos
em Bruxelas. Vai ser preciso reforçar os mecanismos de discussão
democrática das instituições que se quer construir. Um desejo
popular de mais informação e discussão manifestou-se claramente.
Isso é positivo. Veja Quais
foram as razões para o "não"? Ash Uma delas
é o medo em relação a mudanças e ao desconhecido.
Outra é o caráter de colcha de retalhos do tratado constitucional,
que deu origem a uma pletora de "nãos" na Europa. O "não" holandês,
que levou em conta temas como a imigração e a legislação
social do país, peculiar por conter direitos como o da eutanásia,
é diferente de um possível "não" dinamarquês, preocupado
em resguardar um generoso sistema de seguridade social. Um "não" polonês
seria ainda diverso desses que já mencionei, e assim por diante. O dilema
europeu se manifesta em seu estado mais puro nas divisões entre franceses
e britânicos. Os primeiros rejeitaram a Constituição por considerá-la
enamorada demais da economia de mercado, desregulatória demais, uma ameaça
às conquistas históricas do Estado de bem-estar social. Os segundos
vêem o contrário: a Constituição seria centralizadora
demais, estatizante demais, preocupada demais em preservar os anteparos de uma
"Europa social". Enquanto essa tensão não for resolvida, será
difícil encontrar um caminho estratégico para a Europa seguir.
Veja É possível
conciliar essas diferenças? Ash O Reino Unido trabalhista
de Tony Blair, que acaba de conquistar um terceiro mandato, de certa forma resolveu
a equação. Ele se esforça para conservar a herança
do Estado de bem-estar social criado pela Europa no século XX, com suas
pensões, seus serviços gratuitos, suas leis trabalhistas. Ao mesmo
tempo reconhece que, num mundo em que as garantias sociais oferecidas aos cidadãos
e aos trabalhadores são a exceção, é quase impossível
manter a competitividade e o crescimento sem reduzir em alguma medida as estruturas
sociais mantidas pelo Estado. Observe as taxas de desemprego estrutural da economia
francesa. Só a liberalização do mercado de trabalho pode
fazê-las baixar. Chamemos de blairismo essa política que combina
uma crença "americana" no liberalismo com um desejo "europeu" de criar
instituições solidárias. Veja
Na intervenção no Iraque, o Reino Unido se aliou aos
Estados Unidos enquanto a França e a Alemanha se opuseram à guerra.
É possível superar essa outra grande questão que divide a
Europa que atitude assumir diante do gigante americano? Ash
Nesse quesito não basta o blairismo, assim como não bastam
as políticas do presidente francês Jacques Chirac. O primeiro tem
razão ao dizer que não devemos tratar os Estados Unidos como um
oponente, mas o segundo também está certo quando conclui que só
uma Europa unida tem força para influir em Washington. Costumo brincar
que, para superar o churchillismo britânico e o gaullismo francês,
precisaríamos de uma figura composta, um "presidente Blairac".
Veja O que são o churchillismo e o
gaullismo de que o senhor fala? Ash As referências
históricas, é claro, são Winston Churchill e Charles de Gaulle,
respectivamente os líderes britânico e francês da II Guerra
Mundial. É impossível entender a política contemporânea
dos dois países sem refletir sobre a herança desses personagens.
A pergunta "o que Churchill faria?", por exemplo, se ouve com freqüência
na sede do governo inglês cada vez que uma crise estoura. Em questões
internacionais, o churchillismo pode ser traduzido na seguinte fórmula:
total compromisso britânico com os Estados Unidos, e uma certa ambigüidade
em relação ao restante da Europa. Quanto ao gaullismo, seu lema
é transformar a Europa num pólo de resistência aos americanos,
o que significa que a UE precisa se constituir numa espécie de "superpotência"
por direito próprio. Veja
Interessa aos Estados Unidos ver uma Europa unida e forte? Ash
Tempos atrás, o presidente Bush me convidou para uma tarde de conversa
na Casa Branca. A pergunta que ele me fez foi exatamente essa: "Nós, americanos,
queremos que a União Européia tenha sucesso?". Não sei de
outro presidente que tenha se manifestado de modo tão franco. Ele falou
de maneira muito aberta, sugerindo que, do seu ponto de vista, a resposta talvez
fosse negativa já que isso deixaria os Estados Unidos numa posição
ainda mais isolada de hegemonia política. Pode-se dizer que os Estados
Unidos são a última nação-Estado em sentido clássico,
no sentido de prezar a soberania absoluta acima de todas as coisas. A onda mundial
de antiamericanismo que se seguiu à guerra no Iraque, contudo, parece ter
convencido Bush de que era necessário refazer laços com vários
países, e em especial com os europeus. Seu segundo mandato começou
com claras indicações de que ele está disposto a tratar a
União Européia como um parceiro de verdade, em vez de preferir uma
política de alianças ocasionais e de divisão. Resta saber
se a Europa está pronta para colaborar. Veja
Segundo o cientista político Robert Kagan, "americanos são
de Marte e europeus são de Vênus". E os britânicos, de que
planeta são? Ash Não creio que as diferenças
entre americanos e europeus sejam assim tão profundas. Nossos continentes
não estão se distanciando um do outro, pelo contrário. No
tecido do cotidiano, nas atitudes culturais, as semelhanças são
maiores do que nunca. Talvez tenhamos atitudes diferentes em relação,
por exemplo, ao papel que o direito e os organismos internacionais devem representar
, mas nossos interesses coincidem muito. Sem medo de soar grandiloqüente,
eu diria que temos idêntico interesse em fomentar liberdades democráticas
no mundo, em encontrar soluções para os problemas ecológicos,
em combater a pobreza extrema dos países africanos. Quanto aos britânicos,
em vez de recorrer à metáfora astronômica de Kagan, costumo
dizer que somos filhos de Janus, o deus romano de duas faces. Olhamos simultaneamente
para os dois lados. Somos filhos da Europa, e pais dos Estados Unidos. Estamos
inextricavelmente ligados a ambos, de todas as maneiras que se possam imaginar:
militar e gastronômica, social e econômica, política e cultural.
Escolher um dos dois lados seria como realizar uma amputação. Dessa
forma, é nosso interesse aproximar os dois mundos e, ao fazer isso,
creio que estaríamos satisfazendo um interesse mundial.
Veja A Turquia deve ser aceita na União
Européia? Ash Sob critérios históricos,
não creio que a Turquia possa ser considerada um país europeu. Pensar
assim seria, por exemplo, desconsiderar a mais antiga delimitação
do continente que conhecemos, aquela feita pelo geógrafo grego Eratóstenes
no século III a.C., e também as delimitações criadas
pelos navegantes do século XIV. Ainda assim, não tenho a menor dúvida
de que esse país deve ser aceito na UE. Trata-se, nesse caso, de cumprir
uma promessa que já tem algumas décadas, e que foi ratificada no
encontro de cúpula da União realizado em 2000. O governo islâmico
da Turquia vem empregando esforços para adaptar-se ao projeto europeu e
assim fazer parte do clube. Se quebrarmos essa promessa, mandaremos a pior mensagem
possível aos muçulmanos de todo o mundo: a de que eles não
são bem-vindos no Ocidente, não importa quão secular e moderado
seja o Estado em que vivem. Veja
Que influência exerce o novo papa, Bento XVI, ao dizer que o cristianismo
é parte constitutiva da cultura européia e que o mais certo seria
que a Turquia "buscasse estabelecer um continente cultural com seus vizinhos árabes"? Ash
O primeiro uso conhecido do termo "europeus" surge num texto medieval
a respeito de uma batalha do século VIII contra guerreiros árabes.
Depois, na pregação de Pio II, a palavra Europa se torna definitivamente
um sinônimo de cristandade. Assim, não há dúvida de
que o novo papa tem um bom argumento histórico. No entanto, no presente,
é impossível fundamentar a identidade política da Europa
em seu vínculo com o cristianismo. Para começar, estamos falando
das populações mais seculares do mundo, aquelas que menos consideram
a crença religiosa uma questão fundamental. Em segundo lugar, o
número de muçulmanos na União Européia é cada
vez maior. Estamos falando de 13 milhões de pessoas, talvez mais. A maioria
dos países europeus ainda não aprendeu a fazer com que essas pessoas,
em grande parte imigrantes ou filhas de imigrantes, se sintam em casa dentro de
suas fronteiras. Mas isso deve acontecer, pois seria suicídio definir a
identidade cultural européia em oposição ao islamismo. Assim,
não creio que Bento XVI exerça grande influência ao fazer
esse tipo de declaração. Veja
Que desafio a China representa para a Europa? Ash
Essa é provavelmente a pergunta mais enigmática que se pode fazer
nos dias de hoje. A China é exemplo de algo paradoxal, um sistema de "capitalismo
leninista". Lá, um regime ostensivamente comunista se combina com uma forma
extremamente vibrante de economia de mercado. Se esse equilíbrio é
sustentável, não sei dizer. A informação histórica
sugere que, mais cedo ou mais tarde, a propagação da democracia
burguesa em solo chinês deve se tornar inapelável. No momento, não
é possível ter certeza de nada. Veja
Em diferentes momentos da entrevista, o senhor falou sobre a Ásia,
a África, o Oriente Médio. Mas não mencionou a América
Latina. Trata-se de uma região irrelevante? Ash Os
países da América Latina se encontram na situação
peculiar de não serem nem felizes nem infelizes o suficiente para se tornar
um foco de atenção. Embora o Brasil tenha um peso econômico
respeitável, e pareça estar num caminho de crescimento, ainda não
mostra a pujança da China e da Índia. Gostaria de chamar atenção
para um elemento, contudo. Ele tem a ver com uma pesquisa sobre liberdade realizada
pela Freedom House em 2003. No mapa que resultou da pesquisa, três blocos
aparecem como significativamente livres. Um deles é a Europa, outro é
a chamada anglosfera (a parcela do mundo que fala inglês ou teve ligações
coloniais com a Inglaterra) e o terceiro é justamente a América
Latina. Essa não é uma conquista menor. Ela constitui a base para
qualquer outro vôo. Costumo dizer que a história extraordinária
da Europa é a história da expansão da liberdade. A América
Latina é, hoje, um parceiro no esforço para propagar a liberdade
pelo mundo. |