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André
Petry Isso deve ser pecado "Sobre
os dois cientistas estrangeiros que menciona, Fonteles omite que são ambos
da Opus Dei. Também omite que seis dos nove brasileiros citados são
autores de obra coletiva patrocinada pela Pastoral Familiar."
Faltando poucas semanas para deixar o cargo, o procurador-geral
da República, Cláudio Fonteles, fez um papel vergonhoso. Para satisfazer
suas convicções católicas, Fonteles quer derrubar a lei que
autoriza a pesquisa científica de células-tronco de embriões
humanos. Na ação que apresentou ao Supremo Tribunal Federal, ele
alega que a pesquisa é um assassinato, pois destrói os embriões
humanos, violando o direito à vida desses embriões um direito
expressamente garantido pela Constituição. Dito dessa forma, até
parece que o procurador está apenas interessado em interpretar a lei e
defender a ordem jurídica. Engano. Ele quer, na verdade, somente defender
suas convicções católicas, de acordo com as quais a vida
tem início no momento em que um espermatozóide fecunda um óvulo.
Isso fica claro porque, pela lei brasileira, pela norma jurídica em vigor
no país, a vida começa com o nascimento, e não antes disso.
É ao nascer que passa a existir a pessoa física, com personalidade
jurídica, direitos e deveres. Portanto, Fonteles não está
defendendo a lei brasileira ele está com sua Bíblia
debaixo do braço. Mas, fosse
só isso, Fonteles estaria apenas cometendo um erro grave. O erro de querer
que um país laico como o Brasil seja regido por dogmas religiosos. Acontece
que, além disso, há um problema talvez até mais grave. Nas
treze páginas que entregou ao Supremo Tribunal Federal, Fonteles redigiu
um texto no qual se esforça para esconder que sua motivação
é apenas religiosa. No texto, ele não faz uma única menção
à Bíblia, a Deus, à Igreja Católica, a dogmas
religiosos, a crenças divinas. Nada. Tudo é feito apenas com menções
a leis, artigos, códigos e especialistas de áreas pertinentes
ginecologia, genética, biologia, bioética, biomedicina, sexualidade.
Um leitor desavisado atravessa as treze páginas e sai pensando que leu
a defesa de uma "tese jurídica". É uma empulhação
do procurador. Em sua catilinária,
Fonteles faz de conta que fala de ciência, mas na verdade fala apenas da
ciência que sua religião apóia. E, claro, Fonteles esconde
a militância religiosa dos cientistas que cita. Um deles (a professora Elizabeth
Kipman Cerqueira) é representante da Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil, a CNBB. Há outro (a professora Alice Teixeira Ferreira) que
integra o Núcleo de Fé e Cultura da PUC de São Paulo, uma
iniciativa da Arquidiocese de São Paulo. Um terceiro (o professor Dalton
Luiz de Paula Ramos), além de pertencer ao Núcleo de Fé e
Cultura, é correspondente da Pontifícia Academia Pro Vita, entidade
criada pelo Vaticano. Sobre os cientistas estrangeiros que menciona (o francês
Jerôme Lejeune e o espanhol Gonzalo Herranz), Fonteles omite que são
ambos integrantes da Opus Dei, a organização católica mais
reacionária do mundo. Também omite que seis dos nove cientistas
brasileiros citados são autores de uma obra coletiva patrocinada pela Pastoral
Familiar, da Igreja Católica. Ele só fala, portanto, da patota de
sua fé. Os cientistas podem
acreditar no que quiserem, podem defender a religião e a ciência
como bem entenderem. O que não pode é um procurador da República
de uma República laica desde 1891, aliás tentar enganar
a platéia para impor sua fé. É desonesto. Talvez seja até
pecado. |