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Roberto
Pompeu de Toledo
Artistas,
penitentes
e outros temas
Notas
sobre o mau emprego de
uma
palavra, Le Pen, Lula, Serra,
calendário eleitoral e símbolos
Todo
mundo é "artista" no Brasil. Põe a perna de fora num show
de boate, é "artista". Aparece na revista Caras, é
"artista". Faz papel em novela, é "artista". Nunca se viu país
tão aquinhoado de talentos. Nem a Itália do Renascimento,
nem a França de Baudelaire, Rimbaud e dos impressionistas. O ator
americano Morgan Freeman, que visitou o Brasil na semana retrasada, provou-se,
além de bom ator, um sábio, ao observar: "Não aceito
que digam que o que faço é arte. Faz arte quem cria: o pintor
que cria um quadro, o compositor que cria uma música, o escritor
que cria um texto. Eu interpreto o que outros criam". No Brasil a palavra
foi aviltada a ponto de nomear o programa de TV chamado Casa dos Artistas.
Se aquelas pessoas são "artistas", que serão Michelangelo
e Shakespeare, Villa-Lobos e Guimarães Rosa? Uns e outros não
cabem, não podem caber, na mesma palavra.
Eles
protestavam exatamente contra o quê? Os franceses acorreram às
ruas às centenas de milhares, depois do choque da promoção
de Jean-Marie Le Pen para o segundo turno das eleições presidenciais.
Praticavam, com volúpia, esse esporte nacional que é a manifestação
de protesto. Mas, se não foi o ignóbil Le Pen que se infiltrou,
por artimanhas próprias, no segundo turno, e sim foram os próprios
eleitores que lá o entronizaram, como entender tais manifestações?
A rigor, elas só fazem sentido se forem interpretadas como ação
dos eleitores contra eles próprios os responsáveis
pelo voto ausente, disperso e trêfego que caracterizou o primeiro
turno. A essa luz, os franceses teriam criado, na semana passada, uma
nova modalidade, no repertório das ações políticas
de rua: o autoprotesto. O único precedente cabível seriam
as procissões de penitentes de outrora. Fizeram falta, na verdade,
entre as multidões que tomaram as ruas de Paris e outras cidades,
os instrumentos de autoflagelo cilícios a apertar-lhes a
cintura, traves a torcer-lhes os braços, chibatas a macerar-lhes
o lombo. Dessa forma, as manifestações ganhariam em lógica
e explicitude.
Primeiras
impressões da campanha presidencial no Brasil, baseadas no discurso
dos candidatos:
Se o eleitor deseja perfeita continuidade do governo Fernando Henrique
Cardoso, vota em Lula;
Se deseja mudanças, da política econômica ao
estilo pessoal de liderança, com direito a uma inflexão
para a esquerda, vota em Serra.
Os
franceses votaram para presidente e em seguida, em junho, votarão
para deputado. No Brasil, é tudo junto. Em outubro, num único
dia, vai-se votar para presidente, governador, senador, deputado federal
e deputado estadual. Trata-se de excelente maneira de, na mesma ordem
decrescente, ir condenando ao desprestígio todas as eleições
que se seguem à de presidente. A eleição para presidente
é tão esmagadoramente dominante que desde já, faltando
ainda cinco meses para sua realização, monopoliza as manchetes.
Da de governador ainda se fala um pouco mas bem pouco. Da de senador
chegará um dia em que, por ser majoritária, se falará
um pouco mas pouco, também. As eleições de
deputado, federal e estadual, serão realizadas sem que a média
dos eleitores tenha idéia dos candidatos, de seus currículos
e suas propostas. Como habitualmente, o eleitor, neste caso, votará
às escuras e a Câmara e as diversas Assembléias Legislativas
serão constituídas meio ao acaso. O sistema francês,
ao separar a eleição presidencial da legislativa, apresenta
a vantagem de propiciar ao eleitor que vote, na segunda, tendo em vista
o resultado da primeira. Nem se pede tanto, no Brasil. Mais importante,
tendo em vista a baixa compreensão da política da parte
do eleitorado, seria a possibilidade de destacar o significado de cada
eleição e proporcionar-lhe a devida atenção
mas, claro, isso é sonho. Por aqui, os mecanismos da política
são feitos mesmo para não ser entendidos.
O
filme Abril Despedaçado, de Walter Salles, pode ser descrito,
entre outras coisas, como a tensão entre duas rodas. Uma é
a roda dos bois em torno da bolandeira, marcando um tempo que não
sai do lugar e fazendo a velha máquina ranger com um rangido que
é como o aviso da morte. Outra é a roda descrita no ar pela
personagem Clara (Flavia Marco Antonio) ao pendurar-se no alto das cordas
e, com destreza de circo, rodopiar mais e mais, e mais ainda, e mais forte
e mais veloz, invasora triunfal do reino dos pássaros e dos ventos.
Tanto quanto a primeira roda está presa no chão, a segunda
se aventura nas alturas. E tanto quanto o espectador é subjugado
pela opressão da primeira roda, será em seguida aliviado,
desbloqueado e compensado pela audácia embriagadora da segunda.
Abril Despedaçado, como acabada obra de arte que é,
apresenta achados como esse de assentar seu equilíbrio entre dois
símbolos parelhos na geometria e opostos no que querem dizer.
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