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Edição 1 750 - 8 de maio de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Artistas, penitentes
e outros temas

Notas sobre o mau emprego de
uma palavra, Le Pen, Lula, Serra,
calendário eleitoral e símbolos

Todo mundo é "artista" no Brasil. Põe a perna de fora num show de boate, é "artista". Aparece na revista Caras, é "artista". Faz papel em novela, é "artista". Nunca se viu país tão aquinhoado de talentos. Nem a Itália do Renascimento, nem a França de Baudelaire, Rimbaud e dos impressionistas. O ator americano Morgan Freeman, que visitou o Brasil na semana retrasada, provou-se, além de bom ator, um sábio, ao observar: "Não aceito que digam que o que faço é arte. Faz arte quem cria: o pintor que cria um quadro, o compositor que cria uma música, o escritor que cria um texto. Eu interpreto o que outros criam". No Brasil a palavra foi aviltada a ponto de nomear o programa de TV chamado Casa dos Artistas. Se aquelas pessoas são "artistas", que serão Michelangelo e Shakespeare, Villa-Lobos e Guimarães Rosa? Uns e outros não cabem, não podem caber, na mesma palavra.

Eles protestavam exatamente contra o quê? Os franceses acorreram às ruas às centenas de milhares, depois do choque da promoção de Jean-Marie Le Pen para o segundo turno das eleições presidenciais. Praticavam, com volúpia, esse esporte nacional que é a manifestação de protesto. Mas, se não foi o ignóbil Le Pen que se infiltrou, por artimanhas próprias, no segundo turno, e sim foram os próprios eleitores que lá o entronizaram, como entender tais manifestações? A rigor, elas só fazem sentido se forem interpretadas como ação dos eleitores contra eles próprios – os responsáveis pelo voto ausente, disperso e trêfego que caracterizou o primeiro turno. A essa luz, os franceses teriam criado, na semana passada, uma nova modalidade, no repertório das ações políticas de rua: o autoprotesto. O único precedente cabível seriam as procissões de penitentes de outrora. Fizeram falta, na verdade, entre as multidões que tomaram as ruas de Paris e outras cidades, os instrumentos de autoflagelo – cilícios a apertar-lhes a cintura, traves a torcer-lhes os braços, chibatas a macerar-lhes o lombo. Dessa forma, as manifestações ganhariam em lógica e explicitude.

Primeiras impressões da campanha presidencial no Brasil, baseadas no discurso dos candidatos:

– Se o eleitor deseja perfeita continuidade do governo Fernando Henrique Cardoso, vota em Lula;

– Se deseja mudanças, da política econômica ao estilo pessoal de liderança, com direito a uma inflexão para a esquerda, vota em Serra.

Os franceses votaram para presidente e em seguida, em junho, votarão para deputado. No Brasil, é tudo junto. Em outubro, num único dia, vai-se votar para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Trata-se de excelente maneira de, na mesma ordem decrescente, ir condenando ao desprestígio todas as eleições que se seguem à de presidente. A eleição para presidente é tão esmagadoramente dominante que desde já, faltando ainda cinco meses para sua realização, monopoliza as manchetes. Da de governador ainda se fala um pouco – mas bem pouco. Da de senador chegará um dia em que, por ser majoritária, se falará um pouco – mas pouco, também. As eleições de deputado, federal e estadual, serão realizadas sem que a média dos eleitores tenha idéia dos candidatos, de seus currículos e suas propostas. Como habitualmente, o eleitor, neste caso, votará às escuras e a Câmara e as diversas Assembléias Legislativas serão constituídas meio ao acaso. O sistema francês, ao separar a eleição presidencial da legislativa, apresenta a vantagem de propiciar ao eleitor que vote, na segunda, tendo em vista o resultado da primeira. Nem se pede tanto, no Brasil. Mais importante, tendo em vista a baixa compreensão da política da parte do eleitorado, seria a possibilidade de destacar o significado de cada eleição e proporcionar-lhe a devida atenção – mas, claro, isso é sonho. Por aqui, os mecanismos da política são feitos mesmo para não ser entendidos.

O filme Abril Despedaçado, de Walter Salles, pode ser descrito, entre outras coisas, como a tensão entre duas rodas. Uma é a roda dos bois em torno da bolandeira, marcando um tempo que não sai do lugar e fazendo a velha máquina ranger com um rangido que é como o aviso da morte. Outra é a roda descrita no ar pela personagem Clara (Flavia Marco Antonio) ao pendurar-se no alto das cordas e, com destreza de circo, rodopiar mais e mais, e mais ainda, e mais forte e mais veloz, invasora triunfal do reino dos pássaros e dos ventos. Tanto quanto a primeira roda está presa no chão, a segunda se aventura nas alturas. E tanto quanto o espectador é subjugado pela opressão da primeira roda, será em seguida aliviado, desbloqueado e compensado pela audácia embriagadora da segunda. Abril Despedaçado, como acabada obra de arte que é, apresenta achados como esse de assentar seu equilíbrio entre dois símbolos parelhos na geometria e opostos no que querem dizer.

   
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