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O
incrível baú do barão
"Heini"
Von Thyssen possuía o mais
valioso
acervo particular de arte do
planeta.
E também sabia apreciar
a beleza feminina
Marcelo
Marthe
Mulheres
deslumbrantes, vinhos raros e obras-primas da pintura: esses eram os objetos
de desejo do barão Hans-Heinrich von Thyssen-Bornemisza. Um dos
homens mais ricos da Europa, Von Thyssen morreu no sábado 27, aos
81 anos, depois de usufruir à vontade todos esses luxos. Deixou
quatro ex-mulheres, uma viúva e a segunda maior coleção
particular de arte do planeta. Seu acervo de 1.500 obras só perde
em tamanho e valor para o da família real inglesa mas ressalte-se
que este, em tese, é patrimônio de todos os súditos
britânicos, o que alça a coleção do barão
ao primeiro posto. Para Heini, como os amigos o chamavam, o amor pela
arte vinha no sangue. Seu avô era um camponês alemão
que começou com uma fábrica de arames e acabou conhecido
como "o Rockefeller do Vale do Ruhr", em virtude do império que
montou na indústria de ferro e aço da região. Foi
um dos homens diretamente responsáveis pela industrialização
da Alemanha e, com sua fortuna, patrocinou artistas como o escultor francês
Auguste Rodin, no século XIX. O pai de Heini ampliou ainda mais
os negócios da família, juntando a eles estaleiros e bancos,
e foi quem iniciou a coleção de fato. Ele era movido por
um gosto bastante peculiar: só se interessava pelos mestres clássicos,
de Canaletto a Rubens, de Ticiano a El Greco. "Meu pai considerava lixo
qualquer pintura feita após o século XVIII", contava o barão.
Depois que o patriarca morreu, Von Thyssen assumiu um acervo de 500 preciosidades,
mas acabou perdendo boa parte delas para os irmãos, que contestaram
o testamento nos tribunais. A partir daquele momento, o jovem barão
foi tomado por uma obsessão: gastaria o quanto fosse necessário
para recompor a coleção original e a tornaria ainda mais
vasta.
Von Thyssen tornou-se, então, um colecionador eclético e
voraz. Gastava cerca de 60 milhões de dólares por ano em
obras de arte. Aos poucos, expandiu seus interesses para muito além
dos clássicos que seduziam seu pai. Adquiriu trabalhos dos impressionistas
franceses, dos futuristas italianos e de artistas modernos sem filiação,
como o francês de origem polonesa Balthus. Num dia, comprava uma
pintura do abstracionista americano Jackson Pollock. No outro, uma tapeçaria
medieval e, no seguinte, uma tela clássica do florentino Ghirlandaio.
"Gosto de pintura porque é um assunto que nunca rende conversas
desagradáveis", brincava o bilionário. Ele vivia cercado
de arte por todos os lados. Em seu quarto na propriedade da família
na Suíça, fazia questão de acordar de manhã
tendo à sua frente a alegre Jovem com Sombrinha no Jardim, de
Renoir. Nas paredes próximas havia um Manet, um Pissarro e gravuras
de Toulouse-Lautrec, entre outros. Em seu estúdio, além
da magnífica vista para o Lago Lugano, encontravam-se obras de
Monet, Cézanne e uma seleção de seus expressionistas
prediletos. À entrada do banheiro, um espaço fora reservado
para um trabalho do norueguês Edvard Munch. O grosso da coleção
ficava no museu construído nas adjacências da propriedade.
Em meados dos anos 80, esse local ficou pequeno demais para abrigar suas
aquisições. Preocupado com o futuro das suas obras, o barão
selou um acordo com os filhos, segundo o qual seus tesouros não
poderiam ser jamais dispersados. Como o governo suíço negou-se
a bancar a ampliação de seu museu, Von Thyssen manifestou
publicamente o desejo de encontrar um abrigo para suas obras em outro
país.
É
claro que choveram propostas. A Disney acenou com a possibilidade de abrigá-las
em Orlando, na Flórida. Os governos da França e da Alemanha
fizeram lances. Margaret Thatcher, na época primeira-ministra da
Inglaterra, escreveu várias cartas de próprio punho ao barão,
informando-o de que investiria 220 milhões de dólares para
erguer um museu em Londres o lobby inglês se completou com
uma visita do príncipe Charles ao magnata. O barão declarou
ter se divertido com o assédio, mas declinou gentilmente as propostas.
Sua escolha recaiu sobre a Espanha, onde passou seus últimos anos
de vida. Por cerca de 350 milhões de dólares, o governo
espanhol arrendou 830 obras da coleção Von Thyssen, que
desde 1994 podem ser vistas no Museu Thyssen-Bornemisza, em Madri. Mais
tarde, outras peças de Heini ganharam exibição permanente
num monastério medieval perto de Barcelona.
É
fato que, na hora de Von Thyssen decidir qual país abrigaria seu
tesouro, a pressão vinda da alcova falou mais alto: sua quinta
e última mulher, Carmen Cervera, é espanhola. Eleita miss
Espanha nos anos 60, ela era dona do coração do barão,
mas virou um pomo de discórdia entre ele e os filhos, que a consideravam
o estereótipo da madrasta irascível. Von Thyssen gabava-se
de colecionar belas mulheres com o mesmo empenho que dedicava às
pinturas. Casou-se, entre outras, com uma modelo inglesa que o decepcionou
ao traí-lo com um ator francês pobretão, pouco depois
de ter ganhado de presente do marido uma ilha no Caribe. Outra de suas
mulheres foi a brasileira Denise Shorto. O barão garantia ter sido
feliz na maioria de seus casamentos, mas ressentia-se de que os divórcios
custavam-lhe cada vez mais caro. "A sorte é que, ao contrário
das mulheres, as pinturas não retrucam", afirmava.
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