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Foi uma temporada
de ouro
Em três
décadas de mercado
financeiro, Ricardo Sérgio nunca
ganhou tanto dinheiro quanto na
época em que passou pelo governo
Policarpo
Junior
Milton Michida/AE

O economista
Ricardo Sérgio: negócios com fundos de pensão e triangulações lucrativas
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O economista
Ricardo Sérgio de Oliveira, 56 anos, é a negação
viva do que se supunha ser uma certeza a de que grandes empresários
ou disputados executivos não gostam de trabalhar no governo porque,
com os salários raquíticos pagos pelo serviço público,
eles acabam perdendo dinheiro. Com Ricardo Sérgio de Oliveira,
que ocupou a posição de diretor da área internacional
do Banco do Brasil entre 1995 e 1998, aconteceu algo diferente. Antes
de ingressar no governo, o economista trabalhou por dezessete anos no
Crefisul, então sócio do Citibank, e, no auge de uma carreira
bem-sucedida, chegou a ser vice-presidente de investimentos do Citi, em
Nova York, função que ocupou durante dois anos. VEJA teve
acesso às declarações de renda de Ricardo Sérgio
e também às de suas duas companhias a RMC, corretora
de valores, e a Planefin, empresa de consultoria. Cruzando-se os dados,
constata-se que, ao aceitar atuar no governo, Ricardo Sérgio fez
um grande negócio.
Em 1995,
quando assumiu a diretoria do BB, Ricardo Sérgio tinha uma trajetória
de sucesso no mercado financeiro e seu patrimônio pessoal declarado
era de 1,4 milhão de reais. Naquela época, o economista
vivia num apartamento confortável em São Paulo e já
era dono da Planefin e sócio da RMC. Ao virar funcionário
público, ele se afastou dos negócios pessoais e entregou
a administração de suas empresas à esposa, Elizabeth,
e aos dois sócios, Henrique Molinari e José Stefanes Gringo.
Em novembro de 1998, quando deixou o cargo de diretor do Banco do Brasil,
enredado no escândalo da privatização das teles, Ricardo
Sérgio estava mais rico. Seu patrimônio pessoal, conforme
informam suas declarações de renda, pulara de 1,4 milhão
de reais para 3,3 milhões de reais. Ou seja: seus bens somavam
mais que o dobro de tudo aquilo que havia conseguido acumular em três
décadas atuando no mercado financeiro. Nos anos seguintes, em 1999
e 2000, seu patrimônio seguiria ascendendo, até bater na
casa dos 4 milhões de reais mas isso é outra história.
O enriquecimento
de Ricardo Sérgio não se deu por seu trabalho visível
no governo. Como diretor do BB, ganhava pouco mais de 8.000
reais mensais. Suas empresas é que tiveram bom desempenho. A RMC,
por exemplo, percorria uma trajetória discreta no mercado de ações
mas de 1997 em diante começou a dar pulos impressionantes.
Nesse ano, seu faturamento foi de 4,2 milhões de reais, passou
para 12,2 milhões em 1998 e atingiu 21,9 milhões em 1999.
No auge, a RMC chegou a ser a sexta maior corretora do país em
número de contratos negociados no ranking da Bolsa de Mercadorias
& Futuros (BM&F). A Planefin também entrou em fase áurea.
Em 1996, a consultoria tinha faturamento anual de apenas 60.000
reais, o que mal dava para pagar o salário dos funcionários.
Dois anos depois, a Planefin, então sob a administração
da esposa de Ricardo Sérgio, se transformara numa empresa potente
e vigorosa, já faturava seu primeiro milhão de reais
e começava a render e distribuir lucros a seu dono.
Fotos Claudio Rossi
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| Uma
casa de Ricardo Sérgio, em São Paulo, e o prédio onde funciona sua
consultoria, a Planefin, que se tornou uma potência |
As declarações
de renda do economista mostram que o crescimento de seu patrimônio
se deveu ao recebimento de lucros e dividendos da RMC e da Planefin. O
que chama a atenção é a intensidade com que os negócios
de suas companhias passaram a se cruzar com os negócios públicos
especialmente com o dinheiro movimentado pelos fundos de pensão,
área em que a influência de Ricardo Sérgio era notória.
A RMC, por exemplo, além de explodir nas bolsas, aventurou-se no
mercado imobiliário e teve muito sucesso. Em 1998, a empresa associou-se
a uma construtora, a Ricci, e lançou o projeto de erguer um complexo
de edifícios em São Paulo. E logo encontrou comprador: a
Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil,
que adquiriu as duas primeiras torres, ainda na planta, por 62 milhões
de reais. A Previ também se interessou em comprar até os
terrenos onde os prédios seriam construídos. Pagou mais
10,8 milhões.
Ricardo
Sérgio desempenhou papel especial na operação. Como
homem de governo, ele tinha força sobre os fundos de pensão,
entre eles a Previ, a primeiríssima a manifestar interesse no negócio.
Como empresário, era dono de um terço da RMC. E qual era
sua ligação com a construtora Ricci? O dono da construtora,
José Stefanes Gringo, era, ao mesmo tempo, sócio de Ricardo
Sérgio na RMC. "Conversei com o Gringo sobre o projeto na condição
de amigo, mas não interferi em nada", garante Ricardo Sérgio.
"Aliás, nunca participei sequer da gestão da empresa." Não
participava mesmo, mas recebia dividendos. Em 1997, por exemplo, Ricardo
Sérgio obteve 194.000 reais de dividendos
da RMC. Sua corretora de valores não chamou a atenção
só pelo desempenho espetacular. Num inquérito, a Comissão
de Valores Mobiliários (CVM) responsabilizou a RMC por operações
fraudulentas no mercado. E as principais vítimas das fraudes foram
os fundos de pensão. "Não conheço esse inquérito,
até porque, como já disse, nunca participei da gestão
da empresa", afirma Ricardo Sérgio.
Fundos de
pensão e conexões exóticas são uma constante
nos negócios de Ricardo Sérgio. Outro exemplo. Em 1999,
quando seu faturamento não parava de crescer, a Planefin comprou
metade de dois prédios por 11 milhões de reais, um no Rio
de Janeiro e outro em Belo Horizonte. O vendedor foi um fundo de pensão,
a Petros, que pertence aos funcionários da Petrobras. As outras
duas metades dos prédios foram compradas pela Consultatum, empresa
que pertence a um amigo de Ricardo Sérgio, o engenheiro Ronaldo
de Souza. O mais curioso é que, feito o negócio, os dois
trocaram procurações. Ricardo Sérgio brindou o engenheiro
com uma procuração para administrar sua parte dos prédios.
E o engenheiro retribuiu, dando a Ricardo Sérgio uma procuração
para o mesmo fim. Por quê? Apenas um pacto entre dois amigos, diz
Ricardo Sérgio. "Se eu morrer, ele toma conta. Se ele morrer, eu
tomo conta." A mesma lógica fez com que Ricardo Sérgio recebesse
procuração para administrar outra companhia de Ronaldo de
Souza que está instalada num paraíso fiscal, as Ilhas
Virgens Britânicas.
Em sua ascendente
trajetória, a Planefin conseguiu excelentes negócios, que
nem estavam dentro de sua especialidade. Chegou a trabalhar para a Operate,
uma subsidiária do grupo La Fonte, o mesmo que integra a Telemar,
aquele célebre consórcio montado por Ricardo Sérgio
que arrematou uma cobiçada parcela das teles. Além dessa
ligação, vale lembrar que o grupo La Fonte pertence ao empresário
Carlos Jereissati, amigo de Ricardo Sérgio. A Operate contratou
a Planefin para um serviço de consultoria. Por esse serviço,
Ricardo Sérgio recebeu, já descontado o imposto de renda,
1,8 milhão de reais. VEJA conversou com Ricardo Sérgio para
entender a natureza do serviço. Deu-se o seguinte diálogo:
Veja
Que tipo de serviço a Planefin prestou?
Ricardo
Sérgio Vou perguntar ao Carlinhos (refere-se a Carlos
Jereissati). Se ele me autorizar a dizer, não tem problema.
Veja
Que tipo de serviço a Planefin costuma prestar?
Ricardo Sérgio Consultoria financeira.
Veja
O contrato com a Operate é para esse fim?
Ricardo Sérgio Era para viabilidade de internet.
Veja
Internet?
Ricardo
Sérgio É, esse negócio de web.
E assim,
prestando uma consultoria sobre esse negócio de web, Ricardo Sérgio
de Oliveira ganhou mais 1,8 milhão de reais.
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