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Edição 1 750 - 8 de maio de 2002
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No mercado financeiro é comum dizer que alguns dos maiores negócios do país passam pela mesa da direção de um grande banco, mas todos os grandes negócios são levados à Previ. Com um patrimônio de cerca de 35 bilhões de reais para investir, o fundo sempre tem dinheiro disponível para um bom negócio. E a dupla Ricardo Sérgio–Bosco ficou conhecida por não perder oportunidades de fazer negócio com empresas, como foi o caso da Construtora Norberto Odebrecht, que recorreu à Previ para arrumar o dinheiro necessário à finalização da Costa do Sauípe, um complexo hoteleiro localizado no litoral norte da Bahia. A Previ colocou ali mais de 250 milhões de reais. Eles também faziam investimentos mais ambiciosos, criando a empresa para depois emprestar o dinheiro. Foi o que aconteceu na privatização da Vale, quando Ricardo Sérgio decidiu que a Previ seria parceira de Steinbruch. Os principais fundos estatais fizeram o mesmo. Foi isso, e só isso – como se fosse pouco deslocar uma massa de dinheiro dos fundos para fortalecer este ou aquele consórcio –, que decidiu o leilão. Repita-se: os fundos investiram 834 milhões de reais na compra da Vale do Rio Doce.

Aconteceu o mesmo no leilão da Tele Norte Leste, adquirida em 1998 pelo consórcio Telemar. Naquele caso, Ricardo Sérgio e Bosco começaram as negociações e fecharam um primeiro acordo para integrar o consórcio formado pelo Banco Opportunity e pela operadora italiana Stet. Depois, iniciaram a transação para que a Previ desse suporte a outro consórcio, o que acabou vencendo a disputa. É interessante notar os pontos de semelhança entre as duas operações. Os dois consórcios foram criados por desejo do governo. Ambos foram formados à última hora – e a base financeira dos grupos é o dinheiro dos fundos das estatais. Mais um ponto em comum nos dois casos é que os personagens envolvidos nas transações atuaram em harmonia numa primeira fase. Steinbruch e Ricardo Sérgio se davam muito bem e trocavam elogios profissionais. Só quando a Vale já era sua Steinbruch começou a se sentir desconfortável com Ricardo Sérgio. No caso da Telemar, todos também se entendiam às mil maravilhas. Carlos Jereissati, integrante do consórcio vencedor, foi convidado a participar do negócio num jantar em que estavam Ricardo Sérgio e o ex-ministro Mendonça de Barros. Tudo desandou após a vitória no leilão.

As fitas divulgadas em 1998 caíram como uma bomba. As gravações registram as conversas mantidas em torno da formação dos consórcios que disputaram a compra da Telemar. O grampo estava colocado no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro. Fica claro que o governo se dividiu. Um grupo liderado por Ricardo Sérgio passou a trabalhar em favor do consórcio Telemar. Outro grupo, integrado pelo presidente do BNDES, André Lara Resende, e por Mendonça de Barros, trabalhou para evitar que a Telemar vingasse e que levasse a melhor o consórcio organizado em torno do Opportunity e dos italianos. Em uma das conversas grampeadas, Ricardo Sérgio disse a Luiz Carlos Mendonça de Barros a frase mais sugestiva de irregularidade no processo de privatização. "Estamos no limite da irresponsabilidade", afirmou o diretor do banco, ao relatar que acabara de conceder uma carta de fiança altíssima a um dos consórcios.

 
Ricardo Stuckert
O ex-ministro Clóvis Carvalho: foi ele quem indicou Ricardo Sérgio para o Banco do Brasil. Serra endossou

Quando Ricardo Sérgio foi afastado do governo, em 1998, Bosco também acabou sendo afastado. Tempos depois, descobriu-se que o diretor Bosco trabalhava com empenho não apenas para fazer negócios mas também na administração do próprio patrimônio. Até entrar no governo, em 1996, era sócio de duas padarias e uma pizzaria. Possuía em Brasília uma casa de 700.000 reais e um apartamento. Oficialmente, esses são os imóveis pertencentes ao ex-diretor da Previ. Mas, no Rio de Janeiro, Bosco foi flagrado morando numa casa de 700.000 reais localizada na Barra da Tijuca, que não estava em seu nome. O imóvel pertence a uma empresa chamada Hill Trading Investments, cujo endereço é uma caixa postal num paraíso fiscal. A primeira versão apresentada por Bosco ao ser procurado por VEJA, dois anos trás, foi dizer que o imóvel era de um amigo, a quem pagava aluguel. Mudou a versão em seguida: afirmou que a casa pertencia a um empresário. Mais tarde prometeu "regularizar tudo em dez dias". "Compro a casa e passo para meu nome", garantiu na ocasião. Algo semelhante aconteceu com o patrimônio de assessores de Bosco e com o de Ricardo Sérgio (veja reportagem a seguir). De acordo com os dados da Receita Federal, nos quatro anos em que esteve no governo, Ricardo Sérgio conseguiu um aumento patrimonial maior que nas três décadas em que trabalhou no mercado financeiro, conforme aquilo que ele declarou ao Fisco. Sua passagem pelo governo foi de fato uma experiência bem-sucedida.

 

"INFORMEI O PRESIDENTE DA REPÚBLICA"

Armando Favaro/AE
Mendonça de Barros: "Ô Steinbruch, eu não quero me envolver nesse assunto"


Na quinta-feira da semana passada,
VEJA esteve no escritório do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros para ouvi-lo a respeito do tema central desta reportagem. Eis a entrevista:

Veja – Temos a informação de que o senhor foi procurado pelo empresário Benjamin Steinbruch após o processo de privatização da Vale do Rio Doce e ele fez ao senhor uma queixa. O senhor pode relatar essa conversa?
Mendonça de Barros – Eu era ministro das Comunicações na ocasião desse encontro, ocorrido em 1998. Benjamin Steinbruch pediu para falar comigo e eu o recebi em casa, aqui em São Paulo. Ele veio me dizer que estava enfrentando muitas dificuldades dentro da Vale do Rio Doce. A empresa havia sido privatizada e entregue a um consórcio de investidores, inclusive estrangeiros. Nesse grupo, ele era a peça central. Mas, segundo seu relato, havia uma grande divergência entre os sócios sobre a forma de administrar a Vale. Steinbruch contava inicialmente com o apoio do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, o Previ, para gerir o negócio. Mas perdeu essa parceria. Na conversa, o empresário queria que eu interferisse para resolver um problema gerencial.

Veja – Qual foi sua reação?
Mendonça de Barros – Disse a ele que, na condição de ministro das Comunicações, cujo escopo não inclui mineração, não fazia sentido algum eu me envolver no debate. No meu cargo, não tinha sequer legitimidade para isso. De mais a mais, tratava-se de um problema privado. E foi aí que ele me contou a história da comissão.

Veja – O senhor pode ser mais específico?
Mendonça de Barros – Não sei com que objetivo o empresário me contou a história, mas ele disse que teria se comprometido com um pagamento de comissão para que o consórcio da Vale, que ele liderou, fosse organizado.

Veja – O pagamento da comissão era para quem?
Mendonça de Barros – Ele me citou o nome do Miguel Ethel e do Ricardo Sérgio.

Veja – Ele falou em valores?
Mendonça de Barros – Falou em algo como 15 milhões de reais. Ou dólares, não me lembro. Mas naquele tempo não fazia diferença em função da cotação, que era próxima.

Veja – Steinbruch pagou a comissão ou teria de pagar?
Mendonça de Barros – Ele me disse apenas que tinha se comprometido com isso.

Veja – E qual foi sua reação?
Mendonça de Barros – Eu disse assim: "Ô Steinbruch, eu não quero me envolver nesse assunto. Não é da minha área".

Veja – Segundo relato de Steinbruch, Ricardo Sérgio falou com ele em nome pessoal ou de terceiros?
Mendonça de Barros – Esses detalhes eu não sei.

Veja – O que o senhor fez com essa informação?
Mendonça de Barros – Informei quem deveria informar: o presidente Fernando Henrique. Durante um encontro para tratar de outros assuntos, falei que fui procurado pelo Benjamin.

Veja – O que disse o presidente ao ser informado do pedido de comissão?
Mendonça de Barros – O presidente falou: "Eu não sei nada disso e acho que você fez muito bem em não se envolver nesse assunto".

Veja – O senhor tratou desse assunto com o Ricardo Sérgio?
Mendonça de Barros – Não.

Veja – Ricardo Sérgio teve um papel importante na privatização da Vale?
Mendonça de Barros – Ele foi um dos articuladores do consórcio do Benjamin.

 

"ELE FALAVA EM NOME DE TUCANOS"

 
Marcia Gouthier/Folha Imagem
O ministro Paulo Renato, que ouviu o relato de Benjamin Steinbruch: "Não fui informado da ocorrência de crime"

Na segunda-feira da semana passada, o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, recebeu VEJA em seu apartamento, em São Paulo. O ministro foi apresentado à história central desta reportagem – a de que o empresário Benjamin Steinbruch teria procurado autoridades do governo Fernando Henrique para contar que o então diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira havia pedido dinheiro a ele durante o processo de privatização da Vale do Rio Doce. Após o relato, e informado de que ele, ministro, teria sido uma dessas autoridades, Paulo Renato concedeu a seguinte entrevista.

Veja – O que o senhor tem a declarar sobre essa história?
Paulo Renato – Eu procurei Benjamin Steinbruch para obter da Vale do Rio Doce patrocínio para um programa do ministério. Na oportunidade, almoçamos juntos. No encontro, o empresário me disse ter sido procurado por alguém durante o processo da privatização da Vale do Rio Doce.

Veja – Quando foi esse seu encontro com Steinbruch?
Paulo Renato – Em 1998.

Veja – Steinbruch falou em valores?
Paulo Renato – Falou. Disse que lhe pediram algo como 15 milhões de reais.

Veja – O empresário citou o nome de quem estaria por trás do pedido de dinheiro?
Paulo Renato – Citou.

Veja – E quem é?
Paulo Renato – Ricardo Sérgio.

Veja – De acordo com o relato do empresário, ficou claro se Ricardo Sérgio falava em nome próprio ou em nome de alguém?
Paulo Renato – De acordo com o Benjamin, Ricardo Sérgio pediu dinheiro alegando estar agindo em nome de tucanos.

Veja – O empresário disse ao senhor que tucanos são esses em nome dos quais Ricardo Sérgio havia falado?
Paulo Renato – Nem me disse, tampouco eu perguntei.

Veja – O senhor saberia dizer por que Benjamin lhe contou essa história?
Paulo Renato – Não sei. Segundo sua conversa, entendi que a comissão seria dividida entre algumas pessoas, mas a parte do Ricardo Sérgio não havia sido paga. De acordo com seu relato, ao ouvir que Ricardo Sérgio falava em nome de tucanos ele foi checar.

Veja – Checar com quem?
Paulo Renato – Com o presidente da República. Por meio de um emissário, me disse ter feito contato com Fernando Henrique. Como resposta, ainda segundo suas palavras, escutou que o governo não tinha nada a ver com aquilo e que ele não deveria pagar.



   
 
   
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