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No mercado
financeiro é comum dizer que alguns dos maiores negócios
do país passam pela mesa da direção de um grande
banco, mas todos os grandes negócios são levados à
Previ. Com um patrimônio de cerca de 35 bilhões de reais
para investir, o fundo sempre tem dinheiro disponível para um bom
negócio. E a dupla Ricardo SérgioBosco ficou conhecida
por não perder oportunidades de fazer negócio com empresas,
como foi o caso da Construtora Norberto Odebrecht, que recorreu à
Previ para arrumar o dinheiro necessário à finalização
da Costa do Sauípe, um complexo hoteleiro localizado no litoral
norte da Bahia. A Previ colocou ali mais de 250 milhões de reais.
Eles também faziam investimentos mais ambiciosos, criando a empresa
para depois emprestar o dinheiro. Foi o que aconteceu na privatização
da Vale, quando Ricardo Sérgio decidiu que a Previ seria parceira
de Steinbruch. Os principais fundos estatais fizeram o mesmo. Foi isso,
e só isso como se fosse pouco deslocar uma massa de dinheiro
dos fundos para fortalecer este ou aquele consórcio , que
decidiu o leilão. Repita-se: os fundos investiram 834 milhões
de reais na compra da Vale do Rio Doce.
Aconteceu
o mesmo no leilão da Tele Norte Leste, adquirida em 1998 pelo consórcio
Telemar. Naquele caso, Ricardo Sérgio e Bosco começaram
as negociações e fecharam um primeiro acordo para integrar
o consórcio formado pelo Banco Opportunity e pela operadora italiana
Stet. Depois, iniciaram a transação para que a Previ desse
suporte a outro consórcio, o que acabou vencendo a disputa. É
interessante notar os pontos de semelhança entre as duas operações.
Os dois consórcios foram criados por desejo do governo. Ambos foram
formados à última hora e a base financeira dos grupos
é o dinheiro dos fundos das estatais. Mais um ponto em comum nos
dois casos é que os personagens envolvidos nas transações
atuaram em harmonia numa primeira fase. Steinbruch e Ricardo Sérgio
se davam muito bem e trocavam elogios profissionais. Só quando
a Vale já era sua Steinbruch começou a se sentir desconfortável
com Ricardo Sérgio. No caso da Telemar, todos também se
entendiam às mil maravilhas. Carlos Jereissati, integrante do consórcio
vencedor, foi convidado a participar do negócio num jantar em que
estavam Ricardo Sérgio e o ex-ministro Mendonça de Barros.
Tudo desandou após a vitória no leilão.
As fitas
divulgadas em 1998 caíram como uma bomba. As gravações
registram as conversas mantidas em torno da formação dos
consórcios que disputaram a compra da Telemar. O grampo estava
colocado no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES), no Rio de Janeiro. Fica claro que o governo se dividiu. Um grupo
liderado por Ricardo Sérgio passou a trabalhar em favor do consórcio
Telemar. Outro grupo, integrado pelo presidente do BNDES, André
Lara Resende, e por Mendonça de Barros, trabalhou para evitar que
a Telemar vingasse e que levasse a melhor o consórcio organizado
em torno do Opportunity e dos italianos. Em uma das conversas grampeadas,
Ricardo Sérgio disse a Luiz Carlos Mendonça de Barros a
frase mais sugestiva de irregularidade no processo de privatização.
"Estamos no limite da irresponsabilidade", afirmou o diretor do banco,
ao relatar que acabara de conceder uma carta de fiança altíssima
a um dos consórcios.
Ricardo Stuckert
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| O
ex-ministro Clóvis Carvalho: foi ele quem indicou Ricardo Sérgio
para o Banco do Brasil. Serra endossou |
Quando Ricardo
Sérgio foi afastado do governo, em 1998, Bosco também acabou
sendo afastado. Tempos depois, descobriu-se que o diretor Bosco trabalhava
com empenho não apenas para fazer negócios mas também
na administração do próprio patrimônio. Até
entrar no governo, em 1996, era sócio de duas padarias e uma pizzaria.
Possuía em Brasília uma casa de 700.000
reais e um apartamento. Oficialmente, esses são os imóveis
pertencentes ao ex-diretor da Previ. Mas, no Rio de Janeiro, Bosco foi
flagrado morando numa casa de 700.000 reais
localizada na Barra da Tijuca, que não estava em seu nome. O imóvel
pertence a uma empresa chamada Hill Trading Investments, cujo endereço
é uma caixa postal num paraíso fiscal. A primeira versão
apresentada por Bosco ao ser procurado por VEJA, dois anos trás,
foi dizer que o imóvel era de um amigo, a quem pagava aluguel.
Mudou a versão em seguida: afirmou que a casa pertencia a um empresário.
Mais tarde prometeu "regularizar tudo em dez dias". "Compro a casa e passo
para meu nome", garantiu na ocasião. Algo semelhante aconteceu
com o patrimônio de assessores de Bosco e com o de Ricardo Sérgio
(veja reportagem a seguir).
De acordo com os dados da Receita Federal, nos quatro anos em que esteve
no governo, Ricardo Sérgio conseguiu um aumento patrimonial maior
que nas três décadas em que trabalhou no mercado financeiro,
conforme aquilo que ele declarou ao Fisco. Sua passagem pelo governo foi
de fato uma experiência bem-sucedida.
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"INFORMEI
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA"
Armando Favaro/AE
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| Mendonça
de Barros: "Ô Steinbruch, eu não quero me
envolver nesse assunto" |
Na quinta-feira da semana passada, VEJA esteve no escritório
do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça
de Barros para ouvi-lo a respeito do tema central desta reportagem.
Eis a entrevista:
Veja
Temos a informação de que o senhor foi
procurado pelo empresário Benjamin Steinbruch após
o processo de privatização da Vale do Rio Doce e ele
fez ao senhor uma queixa. O senhor pode relatar essa conversa?
Mendonça de Barros Eu era ministro das Comunicações
na ocasião desse encontro, ocorrido em 1998. Benjamin Steinbruch
pediu para falar comigo e eu o recebi em casa, aqui em São
Paulo. Ele veio me dizer que estava enfrentando muitas dificuldades
dentro da Vale do Rio Doce. A empresa havia sido privatizada e entregue
a um consórcio de investidores, inclusive estrangeiros. Nesse
grupo, ele era a peça central. Mas, segundo seu relato, havia
uma grande divergência entre os sócios sobre a forma
de administrar a Vale. Steinbruch contava inicialmente com o apoio
do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil,
o Previ, para gerir o negócio. Mas perdeu essa parceria.
Na conversa, o empresário queria que eu interferisse para
resolver um problema gerencial.
Veja
Qual foi sua reação?
Mendonça de Barros Disse a ele que, na condição
de ministro das Comunicações, cujo escopo não
inclui mineração, não fazia sentido algum eu
me envolver no debate. No meu cargo, não tinha sequer legitimidade
para isso. De mais a mais, tratava-se de um problema privado. E
foi aí que ele me contou a história da comissão.
Veja
O senhor pode ser mais específico?
Mendonça de Barros Não sei com que objetivo
o empresário me contou a história, mas ele disse que
teria se comprometido com um pagamento de comissão para que
o consórcio da Vale, que ele liderou, fosse organizado.
Veja
O pagamento da comissão era para quem?
Mendonça de Barros Ele me citou o nome do Miguel
Ethel e do Ricardo Sérgio.
Veja
Ele falou em valores?
Mendonça de Barros Falou em algo como 15 milhões
de reais. Ou dólares, não me lembro. Mas naquele tempo
não fazia diferença em função da cotação,
que era próxima.
Veja
Steinbruch pagou a comissão ou teria de pagar?
Mendonça de Barros Ele me disse apenas que
tinha se comprometido com isso.
Veja
E qual foi sua reação?
Mendonça de Barros Eu disse assim: "Ô
Steinbruch, eu não quero me envolver nesse assunto. Não
é da minha área".
Veja
Segundo relato de Steinbruch, Ricardo Sérgio
falou com ele em nome pessoal ou de terceiros?
Mendonça
de Barros Esses detalhes eu não sei.
Veja
O que o senhor fez com essa informação?
Mendonça de Barros Informei quem deveria informar:
o presidente Fernando Henrique. Durante um encontro para tratar
de outros assuntos, falei que fui procurado pelo Benjamin.
Veja
O que disse o presidente ao ser informado do pedido
de comissão?
Mendonça de Barros O presidente falou: "Eu
não sei nada disso e acho que você fez muito bem em
não se envolver nesse assunto".
Veja
O senhor tratou desse assunto com o Ricardo Sérgio?
Mendonça de Barros Não.
Veja
Ricardo Sérgio teve um papel importante na
privatização da Vale?
Mendonça de Barros Ele foi um dos articuladores
do consórcio do Benjamin.
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"ELE
FALAVA EM NOME DE TUCANOS"
Marcia Gouthier/Folha Imagem
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| O
ministro Paulo Renato, que ouviu o relato de Benjamin Steinbruch:
"Não fui informado da ocorrência de crime"
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Na
segunda-feira da semana passada, o ministro da Educação,
Paulo Renato Souza, recebeu VEJA em seu apartamento, em São
Paulo. O ministro foi apresentado à história central
desta reportagem a de que o empresário Benjamin Steinbruch
teria procurado autoridades do governo Fernando Henrique para contar
que o então diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio
de Oliveira havia pedido dinheiro a ele durante o processo de privatização
da Vale do Rio Doce. Após o relato, e informado de que ele,
ministro, teria sido uma dessas autoridades, Paulo Renato concedeu
a seguinte entrevista.
Veja
O que o senhor tem a declarar sobre essa história?
Paulo Renato Eu procurei Benjamin Steinbruch para
obter da Vale do Rio Doce patrocínio para um programa do
ministério. Na oportunidade, almoçamos juntos. No
encontro, o empresário me disse ter sido procurado por alguém
durante o processo da privatização da Vale do Rio
Doce.
Veja
Quando foi esse seu encontro com Steinbruch?
Paulo Renato Em 1998.
Veja
Steinbruch falou em valores?
Paulo Renato Falou. Disse que lhe pediram algo como
15 milhões de reais.
Veja
O empresário citou o nome de quem estaria por
trás do pedido de dinheiro?
Paulo Renato Citou.
Veja
E quem é?
Paulo Renato Ricardo Sérgio.
Veja
De acordo com o relato do empresário, ficou
claro se Ricardo Sérgio falava em nome próprio ou
em nome de alguém?
Paulo Renato De acordo com o Benjamin, Ricardo Sérgio
pediu dinheiro alegando estar agindo em nome de tucanos.
Veja
O empresário disse ao senhor que tucanos são
esses em nome dos quais Ricardo Sérgio havia falado?
Paulo Renato Nem me disse, tampouco eu perguntei.
Veja
O senhor saberia dizer por que Benjamin lhe contou
essa história?
Paulo Renato Não sei. Segundo sua conversa,
entendi que a comissão seria dividida entre algumas pessoas,
mas a parte do Ricardo Sérgio não havia sido paga.
De acordo com seu relato, ao ouvir que Ricardo Sérgio falava
em nome de tucanos ele foi checar.
Veja
Checar com quem?
Paulo Renato Com o presidente da República.
Por meio de um emissário, me disse ter feito contato com
Fernando Henrique. Como resposta, ainda segundo suas palavras, escutou
que o governo não tinha nada a ver com aquilo e que ele não
deveria pagar.
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