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Os reis do sopapo

Desconhecidos no Brasil, lutadores
de vale-tudo
são celebridades no Japão

Thaís Oyama

 
Divulgação
Gustavo Aragão/Gracie Magazine
Silva, à esquerda, e Ricardo Arona, de costas: fama e pancadaria

Com menos de dois minutos de luta e uma guilhotina certeira no adversário, o baiano Rogério "Minotouro" Nogueira saiu do ringue na semana passada coberto de glórias e coroado pela aura de celebridade. Os não-iniciados perguntarão: quem é esse Minotouro? Com razão. A modalidade do baiano é o vale-tudo e a luta que ele venceu aconteceu no Japão, o lugar para onde os brasileiros que sobressaem nesse esporte vão em busca da consagração definitiva. Minotouro foi a sensação da última rodada do torneio chamado Pride Fighting Championships, em Yokohama. Sua estréia no mundo dos campeões coloca-o em companhia conhecida, quando não familiar. O maior evento de vale-tudo do mundo tem, atualmente, dois brasileiros no topo do ranking: o irmão gêmeo de Minotouro, Rodrigo "Minotauro" Nogueira, atual campeão mundial na categoria peso pesado; e o curitibano Wanderlei Silva, detentor do título máximo entre os pesos médios no torneio japonês.

O sucesso dos brasileiros nesse mundo da pancadaria acontece por uma espécie de determinismo cultural. O vale-tudo – um festival de chutes, pancadas, joelhadas e estrangulamentos protagonizado por lutadores vindos de diferentes ringues – é uma invenção brasileira. Foi criado na década de 50 pelos Gracie, a legendária família de valentões do jiu-jítsu. Caracterizada inicialmente pela total ausência de regras, a luta era, na sucinta definição de Rorion Gracie, organizador do primeiro campeonato internacional da modalidade, "um combate sem limite de tempo, em que um dos lutadores sai andando e o outro, carregado". Não é exagero: na época das primeiras disputas, os lutadores nem luva usavam. O sangue jorrava aos borbotões e valia literalmente tudo, à exceção de dedo no olho. Hoje, campeonatos como o Pride estão um pouquinho mais regulamentados. Dar cabeçada e cotovelada já não pode. "Querer ver o sangue descer é coisa de americano", afirma o niteroiense Ricardo Arona, outro representante do time brasileiro que faz sucesso no Japão.

A explicação do interesse dos japoneses pela modalidade também tem origem cultural: eles veneram lutadores, em especial nos ringues, onde a violência é altamente estilizada. Favorecidos por essa tradição, os campeões brasileiros são tratados no país com deferências só reservadas a estrelas da magnitude de celebridades do rock. Wanderlei Silva virou personagem de videogame e estrela de um comercial de telefone celular na TV. Mais de 20.000 camisetas com fotos suas foram vendidas no Japão no último ano. Rodrigo Minotauro, que circula quase incógnito pelo Rio, é tão popular em Tóquio que mal consegue colocar os pezinhos tamanho 45 na calçada. Dá autógrafos nas ruas, entrevistas na TV e já teve o quarto de hotel invadido duas vezes por fãs com o rosto banhado em lágrimas e os braços carregados de presentes – típicas manifestações do apreço japonês.

Nascido em Vitória da Conquista, Minotauro virou campeão a poder de vicissitudes extremas, como acontece com certa freqüência nos esportes. Aos 11 anos de idade, foi atropelado por um caminhão. Passou quatro dias em coma, teve um pulmão perfurado, uma perna esmagada, o fígado partido e pegou uma infecção hospitalar tão grave que o manteve seis meses internado. Quando saiu, ouviu do médico o melhor conselho: para se recuperar, só praticando muito esporte. Dos 14 aos 20 anos, seguiu a sugestão com determinação de samurai. Às 4 da manhã saía para remar; às 7, treinava boxe e, em seguida, jiu-jítsu. Estudava à tarde e, à noite, voltava à academia para nova sessão de pancadaria. Hoje, a única seqüela que guarda da época do acidente é uma coleção de cicatrizes tão impressionantes que, exibidas no ringue, têm um salutar e intimidador efeito até sobre o mais intrépido dos adversários.

No jargão dos lutadores, Minotauro é um finalizador – profissional que privilegia a técnica em detrimento da força. Domina o adversário com uma chave de braço ou uma guilhotina e orgulha-se de fazer uma luta com o mínimo de sangue. Já Wanderlei Silva é tido como um dos mais agressivos nocauteadores da modalidade: distribui sopapos com a sutileza de um rinoceronte enfurecido. Sua consagração veio no ano passado, quando derrotou o temível Kazushi Sakuraba, apelidado "O Caçador de Gracies" por ostentar no currículo quatro vitórias contra os reis do jiu-jítsu. Em poucos minutos de luta, o azarão brasileiro lavou a honra pátria e deixou o ringue sob ovação, enquanto Sakuraba era levado às pressas para o hospital com suspeita de fratura no crânio. "O Wanderlei é muito bom de soco e joelhada. O negócio dele é derrubar", orgulha-se seu treinador, Rudimar Fedrigo.

Até dois anos atrás, Silva trabalhava no bar do pai, motorista de ônibus aposentado. Com os 150.000 dólares ganhos como prêmio pela conquista do último título, comprou uma casa para a família. Diz, com orgulho: "Ontem mesmo estava puxando caixa de cerveja no bar. Hoje, entro num estádio e 50.000 pessoas gritam o meu nome". O grito unânime é "Xilva, Xilva" – a maneira japonesa de pronunciar o sobrenome.

 

O CAMPEÃO MINOTAURO

Marcelo Alonso


Fez dezesseis lutas no Japão e ganhou quinze

Tem 1,91 metro de altura, 104 quilos e 6% de índice de gordura corpórea

Só come carne uma vez por mês e ingere oito tipos de suplementos alimentares por dia

Foi repreendido pelo pai ao ganhar o vice-campeonato mundial de jiu-jítsu, em 1997: "Ele gritou: 'O que é isso, rapaz? Pago seus treinos para você ser o primeiro!'"

 

UM LUTADOR DAS ARÁBIAS

 
Nelson Couto

O xeque e Monteiro, o instrutor: mimos e salário em petrodólar

No mundo dos ringues, não há quem não tenha ouvido falar dele. Desde que aprendeu a lutar jiu-jítsu com o brasileiro Nelson Monteiro nos Estados Unidos, o xeque Tahnoon Bin Zayed, terceiro filho do sultão-presidente dos Emirados Árabes Unidos, adotou o hábito de importar lutadores famosos para ministrar-lhe aulas exclusivas em Abu Dabi. O príncipe recompensa seus instrutores com prodigiosa generosidade. Além de salários em petrodólar, oferece mimos que vão de adagas de ouro a reluzentes BMW. Seus faustíssimos jantares ostentam serviço de ouro maciço e quarenta tipos de carne à mesa – "Melhores que em qualquer churrascaria do Rio", compara Ricardo Arona, um dos convivas eventuais. O xeque é o único patrocinador do Submission Wrestling, campeonato que ele mesmo criou e que, se não prima pelo rigor técnico, é famoso pelo orçamento polpudo. Entre premiações, passagens e estada para os lutadores, estima-se que ele gaste 1 milhão de dólares por ano com o evento. Em compensação, reserva-se o direito de ficar na tribuna durante as lutas, celular em punho, para, em caso de dúvida, informar ao juiz quem ganhou.

 

   
 
   
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