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Coração e mente

O peso da depressão na ocorrência
de infartos é tão grande que ela
passou a ser fator de risco isolado

Karina Pastore


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Não tem mais discussão: a Federação Mundial de Cardiologia agora considera a depressão fator de risco isolado para o coração. Antes, ela estava entre as causas coadjuvantes do entupimento de artérias. A decisão baseia-se na análise de quarenta dos maiores e mais recentes estudos sobre a relação entre infarto e depressão. Constatou-se que 45% dos infartados têm quadros depressivos em seu histórico. "A depressão é tão importante na gênese do infarto quanto a hipertensão ou o colesterol alto", afirma o cardiologista paranaense Mario Maranhão, presidente da Federação Mundial de Cardiologia. Apesar de representar uma ameaça e tanto à saúde, a doença demora a ser identificada. É confundida, geralmente, com tristeza ou melancolia passageiras. O cenário é preocupante. Hoje, a depressão é apontada pela Organização Mundial de Saúde como a quinta maior questão de saúde pública. Em 2020, deverá ser a segunda, depois justamente das doenças cardíacas. Ou seja, os laços entre os dois distúrbios tendem a ser mais estreitos.

Quanto mais grave a depressão, maior a probabilidade de ocorrência de problemas cardiovasculares. Seu impacto sobre o coração não se explica apenas do ponto de vista da fisiologia, mas também do lado comportamental. "O deprimido faz tudo errado: não come direito, costuma ser sedentário, fumante e dado a exagerar no álcool", diz o cardiologista Maurício Wajngarten, chefe do departamento de cardiogeriatria do Instituto do Coração, de São Paulo. A depressão se caracteriza por sentimentos negativos devastadores. A pessoa é dominada pela apatia e pela irritação. É difícil levantar da cama e impossível encarar com humor as dificuldades cotidianas. Em muitos casos, ela se associa a ataques de pânico. Como alguém nessas condições pode pensar em alimentos pobres em gordura ou em largar o cigarro? Onde encontrar ânimo para fazer ginástica?

O desequilíbrio da química cerebral, verificado entre os depressivos, desregula a química de todo o corpo. Para começar, a depressão aumenta a produção do hormônio do stress, o cortisol. Em altas quantidades, esse hormônio eleva a pressão arterial e os níveis de LDL, o colesterol ruim. Ele diminui, ainda, a quantidade de HDL, o colesterol bom. Como se não bastasse o cortisol, o organismo de um deprimido fabrica mais adrenalina, substância que, em excesso, pode acarretar arritmias cardíacas graves. O tratamento da chamada "doença da alma" ganhou uma arma poderosa no final dos anos 80, com a chegada ao mercado dos remédios da família do Prozac. Eles são, inclusive, mais bem tolerados por quem já sofreu um infarto. Difícil é mesmo o médico fazer – e o paciente aceitar – o diagnóstico de depressão.

   
 
   
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