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Crianças no
batente
A lei
que as protege de um emprego
pode complicar os negócios do país
Monica Weinberg
AP

Jovem
americano no McDonald's: para trabalho leve não há obstáculos |
A
emenda constitucional que baniu o trabalho infantil no Brasil, aprovada
em 1998, é considerada uma revolucionária conquista social
por organismos como a Organização Internacional do Trabalho
(OIT) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância
(Unicef). Com essa medida, o Brasil colocou-se à frente de países
ricos como a Bélgica, a Suécia e a Suíça,
cujas legislações permitem a atividade remunerada aos jovens
maiores de 15 anos. Aqui, o limite é de 16 anos. Na prática,
sabe-se que 4,5 milhões de crianças e jovens brasileiros
vivem à margem dessa lei, exercendo atividades que vão da
ajuda aos pais em trabalhos agrícolas a serviços insalubres
em carvoarias, passando pela venda de balas nos semáforos das grandes
cidades.
Um problema
paralelo foi detectado pelo sociólogo paulista José Pastore,
da Universidade de São Paulo, que acaba de concluir um estudo em
torno do tema. Segundo Pastore, a limitação ao trabalho
de adolescentes, a pretexto de protegê-los, criou um daqueles nós
jurídicos que podem funcionar contra o próprio país.
Especialista em questões trabalhistas, o sociólogo demonstra
que, por estar distante demais da realidade, a lei se torna combustível
para campanhas internacionais contra produtos brasileiros. Relações
comerciais com os Estados Unidos e outros países reunidos na Área
de Livre Comércio das Américas (Alca) podem ser comprometidas
pela posição adotada pelo Brasil. O raciocínio é
lógico: o país condena o trabalho de menores de 16 anos,
mas não consegue coibi-lo e ainda fatura divisas com a exportação
de produtos que embutem a mão-de-obra infantil. Logo, torna-se
alvo de possíveis retaliações.
Fernando Vivas

Cultivo
do sisal: a regra parte do princípio de que todo trabalho é penoso
como este |
No pior dos
cenários, pelo menos quinze setores responsáveis por um
quarto das exportações brasileiras poderiam ser atingidos
por algum tipo de represália. Todos eles, sabidamente, empregam
crianças. Se as negociações para a consolidação
da Alca ainda acontecem no mundo das hipóteses, a questão
trabalhista já está na mesa concretamente. Os americanos
e os canadenses querem incluir nos tratados uma cláusula que obriga
os 34 países envolvidos no acordo a cumprir um conjunto de regras
estabelecido pela OIT. O trabalho infantil é uma delas, e nesse
ponto o Brasil sai em desvantagem por causa de sua legislação.
Nos Estados
Unidos, o mercado de trabalho absorve uma enxurrada de crianças
e jovens todos os anos. A lei dos americanos é uma das mais flexíveis
do mundo. Ela não estabelece idade mínima para o trabalho,
mas impõe proibições por faixa etária. Mesmo
abaixo dos 14 anos, crianças podem ser contratadas para trabalhar
em um punhado de atividades, como a agricultura ou o serviço doméstico.
O que se pune rigorosamente é o trabalho penoso, inadequado à
compleição física ou ao amadurecimento psíquico
do trabalhador. Detalhe importante dessa situação é
que, tratado sob a formalidade da lei, esse empregado passa a usufruir
garantias e direitos que, na prática, são sonegados num
lugar onde a Constituição proíbe e a fiscalização
não coíbe o trabalho das crianças.
"A lei brasileira
é uma armadilha criada por nós mesmos, porque ignora as
implicações econômicas e sociais", diz José
Pastore. O estudo do sociólogo encara um tema polêmico. Até
1998, a lei brasileira permitia o trabalho a partir dos 14 anos e um menino
podia ingressar como aprendiz numa empresa aos 12. Há bem pouco
tempo, o fato de uma criança de 5 anos vender bala na rua era encarado
como uma fatalidade social, não um escândalo. Contribuía
para isso uma visão muito disseminada de que era socialmente bom
que uma pessoa procurasse cedo um meio de ganhar a vida honestamente,
começando a construir um futuro que não viria pela educação
nem pelo apoio social. Grande parte dos adultos de hoje ingressou no mercado
antes dos 14 anos para aprender um ofício e ajudar na renda da
família. Muitos deles conseguiram estudar e sabem que não
teriam chegado aonde chegaram se uma lei, então, os impedisse de
ter um emprego.
De acordo
com Pastore, a lei brasileira foi criada segundo a perspectiva de que
todos os jovens brasileiros estariam condenados a trabalhos penosos e
degradantes se lhes fosse permitido ter uma ocupação remunerada.
A legislação deixou uma brecha que autoriza contratar maiores
de 14 anos como aprendizes de determinados ofícios uma condição
limitada demais para a realidade. Nas contas do governo, 20% das crianças
ilegalmente empregadas estão em atividades penosas. Especialistas
acreditam que essa conta dobra se forem considerados os meninos no comércio
ambulante e no trabalho doméstico. Ainda assim, sobra uma maioria
que trabalha de fato apesar de "protegida" pela norma legal.
É
verdade que o país obteve reconhecimento internacional por reduzir
em 25% o total de crianças trabalhando ilegalmente ao longo de
cinco anos, até 1998. Também é verdade que o programa
Bolsa-Escola criou um estímulo concreto para que os pais mantenham
os filhos matriculados na rede escolar. Outra vantagem é que, ingressando
mais tarde no mercado, trabalhadores de baixa qualificação
não estão condenados a labutar por mais de meio século
antes de fazer jus a uma aposentadoria. A Fundação Abrinq
pelos Direitos da Criança já certificou 1.340
empresas que baniram o trabalho infantil e o Ministério do Trabalho
notificou 4.602 estabelecimentos que usavam
mão-de-obra mirim no ano passado para eliminar a prática
no prazo de dez dias.
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