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O duelo das feras
Dois dos
maiores bruxos do marketing
político do país estão a um passo de se
enfrentar nas campanhas de Serra e Lula
Alexandre
Oltramari
Dida Sampaio/AE
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O
publicitário Nizan Guanaes, que está para entrar na
campanha do presidenciável José Serra
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O
publicitário Duda Mendonça, na campanha de Luís
Inácio Lula da Silva: com linguagem popular
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Os homens
da publicidade não fazem milagre, mas são disputados como
santos de oratório numa eleição. Eles realizam pesquisas
à exaustão, realçam as qualidades do candidato, disfarçam
seus defeitos, identificam o discurso que mais seduz o eleitorado
e, se tudo correr bem, recebem como recompensa urnas estufadas de votos.
Nesta temporada eleitoral, quem promete roubar a cena são duas
unanimidades nacionais no assunto. De um lado, estará o baiano
José Eduardo Mendonça, o Duda Mendonça. Responsável
pela campanha do petista Luís Inácio Lula da Silva à
Presidência da República, o publicitário reformou
o guarda-roupa do candidato e aparou-lhe a barba e o discurso. Lula, sempre
elegante e simpático na TV, já alcançou quase 40%
das intenções de voto. Do outro lado, estará o também
baiano Nizan Guanaes, maestro da campanha que reelegeu Fernando Henrique.
Na semana passada, Nizan estava prestes a embarcar de vez na campanha
do tucano José Serra. Se isso se concretizar, os dois bruxos da
publicidade estarão se enfrentando, pela primeira vez, numa disputa
nacional.
A presença
de Nizan Guanaes na campanha de José Serra ainda não tem
caráter oficial. Há duas barreiras no caminho. A primeira
é que, oficialmente, Serra já tem o próprio marqueteiro.
Chama-se Nelson Biondi, está na campanha do ex-ministro desde o
início e não dá sinais de que pretenda abandonar
o posto. O outro obstáculo é que o relacionamento entre
Serra e Nizan azedou brutalmente quando o tucano disputou a prefeitura
de São Paulo, em 1996. Nizan achava que Serra interferia demais
em seu trabalho e ignorava boa parte de suas orientações.
Nizan acabou ficando apenas duas semanas na campanha. Serra chegou em
quarto lugar, atrás até da soma de votos brancos e nulos.
Agora, com os tucanos apreensivos com o desempenho de Serra nas pesquisas,
o próprio Fernando Henrique decidiu interferir. O presidente tem
sido um dos maiores entusiastas do casamento de Serra e Nizan. Mas as
idéias do publicitário já estão no forno.
Metade da
propaganda regional que o PSDB veiculará nos próximos dias
será estrelada por José Serra. O tucano está gravando
27 programas diferentes um para cada Estado e Nizan Guanaes
está contribuindo com alguns palpites. O QG eleitoral de Serra
gostaria que Nelson Biondi, o marqueteiro oficial, ficasse encarregado
da campanha em nível nacional. A Nizan caberia a tarefa de criar
os programas regionais. Quem conhece o publicitário, um profissional
dinâmico, cheio de idéias e vaidoso, duvida que ele aceite
o papel de coadjuvante ainda mais sabendo que o principal adversário
de Serra terá sua campanha ornamentada por Duda. Num jantar marcado
para este fim de semana, Serra e Nizan vão decidir se trabalharão
juntos ou não. Se o acerto for feito, o pleito deste ano terá
um duelo de duas feras.
Será
uma briga boa. Duda Mendonça e Nizan Guanaes são os dois
mais renomados marqueteiros do país, estarão disputando
o voto do eleitor em campos ideológicos distintos e vivendo um
momento raro: a hora em que a criatura enfrenta o criador. "Além
de ser o maior nome do marketing político brasileiro, Duda Mendonça
é meu pai profissional", escreveu Nizan no prefácio do livro
Casos & Coisas, de Duda Mendonça, publicado no ano passado.
De fato, Duda já era um profissional tarimbado quando Nizan bateu
à porta de sua agência, a DM9, em Salvador, em busca de estágio.
Com o tempo, Nizan alçou vôo próprio, comprou a agência
de Duda e transferiu-a para São Paulo. Tornou-se um ás da
publicidade ao produzir anúncios formidáveis e conquistar
prêmios internacionais. O sucesso era tanto que, na década
passada, Nizan criou um braço na agência para cuidar de campanhas
eleitorais. Já trabalhou em sete pleitos majoritários
aqueles que elegem prefeitos, governadores, senadores e presidente da
República. Perdeu apenas um. É considerado um marqueteiro
sofisticado, que respeita muito as pesquisas de opinião. Intuição
conta, mas informação é a principal ferramenta.
Já
Duda Mendonça, o "pai profissional de Nizan", é um veterano
em disputas eleitorais. Sua mais conhecida atuação foi em
campanhas do paulista Paulo Salim Maluf, graças à exuberância
conservadora do candidato, mas Duda já trabalhou dezenas de políticos
para ganhar eleição. Seu desejo apregoado havia muito tempo
era pegar uma campanha de Lula. Descobriu que tinha talento para a propaganda
atuando como corretor de imóveis na Bahia. Participou de sua primeira
disputa eleitoral em 1982. Quatro anos depois, contratado por Fernando
Collor de Mello, ajudou a elegê-lo governador de Alagoas. Ao todo,
trabalhou em 34 eleições majoritárias, algumas no
exterior. Venceu 24, perdeu dez. Conhecido pela capacidade de traduzir
para a linguagem popular a mensagem de seus clientes, amante de rodas
de capoeira na Bahia, admirador de duplas sertanejas como Zezé
Di Camargo & Luciano e Chitãozinho & Xororó, Duda
tem sensibilidade para identificar os humores do povão. "Ele é
o Roberto Carlos da propaganda política", diz o publicitário
Fernando Barros, dono da agência Propeg.
Com estilos
diferentes, Duda e Nizan têm em comum o fato de ambos serem baianos,
publicitários famosos e donos de contas bancárias robustas.
Uma campanha presidencial, segundo avaliações do mercado,
fica aí por volta de 5 milhões de dólares, nos quais
se incluem tanto o pagamento do marqueteiro quanto os demais gastos que
se fazem necessários para viabilizar seu candidato. Enquanto Duda
se dedica quase que exclusivamente a eleições, Nizan não
pára de tentar novos caminhos. Há cerca de três anos,
deixou o comando de sua agência para tocar um projeto na internet,
o portal iG. Com sua saída, a clientela bateu em retirada. Foram-se
as contas de clientes de peso, como Antarctica, Microsoft e Compaq. Com
a luz amarela acesa, Nizan reassumiu o controle da agência, há
dois meses. No ano passado, seu faturamento foi de cerca de 360 milhões
de reais, cifra que a coloca na sétima posição no
ranking das maiores agências brasileiras. Agora, está a um
passo de enfrentar seu criador no pleito presidencial cujos sinais indicam
que será o mais disputado da história desde 1989.
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