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O efeito
manada
volta a assustar
Bancos
e corretoras internacionais
usam
a subida de Lula nas pesquisas
para fazer mais uma avaliação
irrefletida sobre o Brasil
Antonio Milena

Lula,
na liderança: nada de falar uma coisa em Paris e outra em Nova York
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Veja também |
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Os
doutores do mercado são contidos em seus diagnósticos positivos
sobre a saúde econômica dos países em desenvolvimento.
Para arrancar deles uma chancela de bom desempenho financeiro, os países
precisam fazer esforços descomunais, muitas vezes com sacrifícios
dolorosos dos investimentos sociais. No sentido inverso, os sábios
de Wall Street trabalham com um grau de leveza que muitas vezes produz
palpites nefastos. Na semana passada, num exercício de adivinhação
de como seria a política econômica brasileira caso o petista
Luís Inácio Lula da Silva fosse eleito presidente nas próximas
eleições, três bancos de investimento e uma corretora
recomendaram aos clientes reduzir as aplicações em papéis
brasileiros. O americano Morgan Stanley, o espanhol Santander, o holandês
ABN Amro e a corretora Merrill Lynch alegaram que a avaliação
negativa derivava principalmente da larga vantagem de Lula nas pesquisas
de intenção de voto. O mesmo motivo foi apontado por especialistas
para a brusca queda do índice Bovespa, na quinta-feira passada.
Quando os agentes de mercado se contagiam com suas próprias previsões
dá-se o conhecido e agourento "efeito manada".
Roberto Castro/AE
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| Jorge
Bornhausen, presidente do PFL: a cúpula não se entende com a base |
"As avaliações desses analistas são equivocadas e
tecnicamente deixam bastante a desejar", reagiu o ministro da Fazenda,
Pedro Malan, que não tem nenhuma razão para defender as
posições de Lula. Malan sempre criticou, no passado, os
analistas e as agências avaliadoras de risco por sua metodologia
e suas motivações. Há um bom histórico negativo
no ramo. A agência britânica Fitch Ratings, ao avaliar a vulnerabilidade
das economias emergentes, há duas semanas, colocou o Brasil em
41º lugar, uma posição em que sobravam apenas dois
países no mundo em situação pior, a Turquia e o Líbano.
No mesmo ranking, a alquebrada Argentina aparecia em 22º lugar. Embora
sejam tão assertivos, os analistas internacionais cometem erros
grosseiros. Nenhuma agência previu com a antecedência necessária
a crise na Ásia nos anos 90. O megaescândalo da gigante americana
de energia Enron, que estourou em dezembro do ano passado, também
não foi farejado por nenhum caçador de vulnerabilidades.
Muito crítico com o Brasil em outras situações, o
jornal inglês Financial Times escreveu em editorial, na semana
passada, que os bancos reagiram com exagero. O jornal lembra que, nas
capitais que administra, o PT deixou de lado a retórica esquerdista
e faz administrações competentes e financeiramente responsáveis.
O risco embutido nas avaliações dos bancos internacionais
é conferir um peso excessivo a pesquisas eleitorais. Os analistas
pintaram um panorama negativo do Brasil como porto de investimentos porque
Lula subiu alguns pontos nos últimos levantamentos de intenção
de voto, consolidando a liderança por uma frente mais folgada.
Lula e seu partido deram no passado demonstrações inequívocas
de que são estatizantes e distributivistas, dois conhecidos atalhos
para o fracasso econômico. O PT também se colocou na contramão
de reformas estruturais necessárias, como a das leis trabalhistas
e a da Previdência Social, uma fábrica de déficits
crônicos. Isso tudo é correto. O problema com as avaliações
dos analistas é a afoiteza que revelam apenas porque o candidato
Luís Inácio Lula da Silva subiu nas pesquisas. Em primeiro
lugar, isso não significa que ele ganhará as eleições.
Se ganhar, o que estatisticamente não é o resultado mais
provável, já que perdeu três outras disputas para
a Presidência, nada leva a crer que terá a intenção
ou mesmo o poder de fazer a economia brasileira retroagir como um todo
no tempo.
Outra mostra da afoiteza com que os analistas agiram em relação
ao Brasil na semana passada é o fato de suas avaliações
trombarem de frente com outras preparadas por observadores bem mais criteriosos
das finanças e das perspectivas econômicas dos países.
É o caso, por exemplo, do Fundo Monetário Internacional
(FMI), sobre cujos julgamentos já se disse muita coisa, menos que
eles procuram favorecer os países-alvo de seus estudos. Pois bem,
na semana passada, Lorenzo Perez, chefe da missão do FMI no Brasil,
criticou o rebaixamento do Brasil apontando justamente a miopia dos avaliadores
em não enxergar as mudanças positivas pelas quais o país
passou. "Eles deveriam olhar melhor os fundamentos da economia. Basear-se
no desempenho dos candidatos em pesquisas eleitorais me parece algo prematuro
e pouco científico", afirmou Perez. O FMI e o Banco Mundial fazem
uma investigação bem mais criteriosa e freqüente da
evolução da vulnerabilidade financeira dos países.
Nos últimos tempos, os dois organismos só têm tido
palavras positivas sobre o Brasil. Eles citam como passos decisivos a
aprovação e o cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal
e o compromisso do governo com a manutenção de superávits
primários e de controle estrito da inflação.
A visão das agências internacionais de risco nem sequer expressa
o que se pensa sobre o Brasil nos Estados Unidos, numa evidência
de que suas análises têm cunho meramente financista. Entre
estudiosos da América Latina e brasilianistas, assim batizados
os acadêmicos que se dedicam a entender o Brasil, tem-se outra percepção
do processo eleitoral. "Em primeiro lugar, é cedo demais para levar
em conta as pesquisas e prever o desfecho das eleições",
considera o cientista político Scott Mainwaring, da Universidade
de Notre Dame. Outro dado que os estudiosos levantam refere-se a Lula.
Entre os brasilianistas, há uma impressão já enraizada
de que o Lula de hoje é diferente do candidato do passado. "Entre
o Lula que saiu de São Bernardo sem conhecer nada do mundo e o
de hoje, que viajou o planeta e acumulou uma série de experiências,
há diferença considerável", diz a professora Margaret
Keck, da Universidade Johns Hopkins, autora de um livro sobre o PT. "Mas
Lula ainda tem de provar que sua mudança é real. E precisa
ser coerente. Não pode dizer uma coisa em Paris e outra em Nova
York", completa Peter Hakim, do Inter-American Dialogue, um dos institutos
mais prestigiados dos Estados Unidos.
As
desconfianças que Lula ainda desperta no exterior e dentro
do Brasil não são exclusividade sua. Os especialistas
americanos entendem que a eleição deste ano não traz
a mesma segurança que o pleito de 1998, quando Fernando Henrique
conseguiu reeleger-se e aí está uma das razões
pelas quais as agências internacionais de risco, inseguras, acabam
por confundir situação econômica com quadro eleitoral.
Em 1998, a permanência de Fernando Henrique no Palácio do
Planalto representava uma óbvia garantia de continuidade e sua
aliança eleitoral era integrada pela tróica de partidos
que o sustentara durante o primeiro mandato. "Agora é diferente",
salienta Thomas Skidmore, uma das estrelas da turma dos brasilianistas.
"O tucano José Serra terá grandes dificuldades para costurar
o mesmo tipo de aliança ampla e moderada. Além disso, Serra
é um político que tende a aceitar um risco financeiro maior
em nome do desenvolvimentismo do que Fernando Henrique demonstrou. Isso
torna difícil explicar como ele dará continuidade às
políticas do atual governo", continua Skidmore. "Seus atritos recentes
com Pedro Malan mostram um pouco desse descompasso", acrescenta ele.
É
natural que, neste momento, as atenções estejam voltadas
para Lula. Na semana passada, outra pesquisa apontou a ascensão
do candidato. Segundo o instituto Sensus, o petista tem quase 38% das
intenções de voto, muito à frente de Serra, o segundo
colocado, com 16,1%. A sondagem mostra outro dado relevante. Lula está
assistindo a uma queda em seu índice de rejeição,
que pela primeira vez ficou abaixo dos 40%. Isso significa que uma parcela
maior do eleitorado, que não vota em Lula, admite a hipótese
de vir a escolhê-lo. Ou seja: como um pedaço do eleitorado
não o rejeita, Lula conta com potencial maior para crescer nas
pesquisas. Além disso, seus rivais vêm enfrentando problemas
para consolidar a candidatura. Anthony Garotinho, do PSB, sofre resistências
dentro do próprio partido, a ponto de um ex-governador da legenda,
João Capiberibe, do Amapá, ter anunciado seu apoio a Lula.
Ciro Gomes, do PPS, que ocupa o quarto lugar nas pesquisas, enfrenta situação
semelhante. Na semana passada, por causa de divergências na sucessão
no Rio Grande do Sul, os três partidos que apóiam Ciro
PPS, PDT e PTB se desentenderam publicamente.
Claudio Rossi
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| Silvio
Santos, que aparece em segundo lugar nas pesquisas: novo factóide
dos pefelistas |
As cenas de maior desorientação, no entanto, têm aparecido
na seara do PFL. A cúpula e a base do partido não exibem
mais a sintonia de outrora. Numa pesquisa feita por VEJA há duas
semanas, descobriu-se que quase metade dos senadores e deputados do partido
prefere não lançar candidato presidencial próprio,
para facilitar as alianças estaduais. Mas, na semana passada, a
cúpula do PFL, reunida na casa do vice-presidente Marco Maciel,
debateu durante três horas a posição da legenda e
decidiu esperar até o mês que vem, na esperança de
que a candidatura Serra perca vitamina. Na surdina, os pefelistas introduziram
o nome do apresentador Silvio Santos, dono do SBT, numa rodada de pesquisas.
Com a popularidade que a televisão lhe dá, Silvio Santos
apareceu em segundo lugar, atrás apenas de Lula, mas, na visão
dos pefelistas, fazendo o principal: desbancando Serra do segundo lugar.
As chances de o apresentador lançar-se candidato são praticamente
nulas, mas o que a cúpula do PFL quer provar é que há
nomes mais fortes que o de Serra e assim vender mais caro seu apoio.
Com a cúpula do PFL dando sinais de que não aprendeu nada
com a finada candidatura de Roseana Sarney, tanto que agora aparece lançando
o factóide Silvio Santos, o partido está perdendo metros
preciosos de terreno. Atropelando a animosidade que lhe é dirigida
pela direção do partido, Serra tem conseguido a simpatia
do PFL em pelo menos dez Estados. Recebe boa acolhida junto aos pefelistas
de Estados importantes, como Paraná, São Paulo e Rio de
Janeiro, e também em Estados menos centrais, como Amazonas, Ceará
e Tocantins. Com a demora da cúpula, os diretórios regionais
do PFL fazem o que sempre fizeram: deixar-se atrair por quem tem a força
gravitacional da máquina pública. O governador Jaime Lerner,
do Paraná, por exemplo, está com Serra e, recentemente,
recebeu uma ajudinha federal que lhe permitiu jogar para o sucessor o
pagamento de papagaio de 500 milhões de reais. O governador do
Tocantins, Siqueira Campos, é outro entusiasta de Serra e, no orçamento
de 2002, seu Estado é líder nacional no ranking dos que
mais recebem verba federal. Com um candidato na liderança absoluta
nas pesquisas, outros sobrevivendo e partidos nacionais sem rumo, o quadro
eleitoral atual, a cinco meses do pleito, não autoriza ninguém
a fazer previsões seguras.

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